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18 DE JULHO DE 2009, S√ĀBADO
Marxismo do Século XXI
O indissol√ļvel nexo entre teoria e pr√°tica no marxismo
Emir Sader
Neste texto da s√©rie "Marxismo e S√©culo XXI", Emir Sader trata das rela√ß√Ķes entre teoria e pr√°tica no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico n√£o costuma estar acoplado √† pr√°tica pol√≠tica, enquanto for√ßas pol√≠ticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios pol√≠ticos, em suas dimens√Ķes te√≥ricas. Trata de valorizar a reflex√£o te√≥rica, acoplada organicamente √† pr√°tica pol√≠tica, e de enriquecer a pr√°tica pol√≠tica, iluminada pela reflex√£o te√≥rica", defende.
‚ÄúN√£o se pode separar mecanicamente as quest√Ķes pol√≠ticas das quest√Ķes de organiza√ß√£o‚ÄĚ.

(L√™nin, Discurso de encerramento do 11¬į Congresso do Partido Comunista da R√ļssia, citado por Lukacs no encabe√ßamento do seu ensaio ‚ÄúNotas metodol√≥gicas sobre as quest√Ķes de organiza√ß√£o‚ÄĚ, em ‚ÄúHist√≥ria e consci√™ncia de classe‚ÄĚ)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa raz√£o, suas primeiras grandes express√Ķes ‚Äď Marx, Engels, L√™nin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, ‚Äď foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, te√≥ricos e dirigentes revolucion√°rios. Suas analises e den√ļncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradi√ß√Ķes como motores da realidade, para poder compreend√™-la na sua din√Ęmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho te√≥rico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transforma√ß√£o concreta e radical da realidade. Da√≠ essa identidade indissol√ļvel entre trabalho te√≥rico e dire√ß√£o pol√≠tica revolucion√°ria, pr√°tica intelectual e trabalho partid√°rio, as fronteiras entre suas atividades como te√≥ricos e como dirigentes revolucion√°rios eram t√™nues, a ponto que a primeira sistematiza√ß√£o da id√©ia do comunismo ‚Äď o Manifesto Comunista ‚Äď foi encomendada politicamente e serviu como documento b√°sico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fen√īmeno que Perry Anderson chamou de ‚Äúmarxismo ocidental‚ÄĚ (Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combina√ß√£o negativa da staliniza√ß√£o dos partidos comunistas e da repress√£o fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e pr√°tica, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da pr√°tica pol√≠tica, com a correspondente autonomiza√ß√£o do discurso te√≥rico. As estruturas partid√°rias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elabora√ß√Ķes e debates te√≥ricos e pol√≠ticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da pr√°tica pol√≠tica. Seu correlato foi a pr√°tica pol√≠tica partid√°ria desvinculada da elabora√ß√£o te√≥rica.

Inevitavelmente a analise e a den√ļncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas tamb√©m um deslocamento a favor da teoria desvinculada da pr√°tica pol√≠tica. Pr√°tica pol√≠tica sem teoria, teoria sem pr√°tica ‚Äď os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A pr√°tica pol√≠tica da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estrat√©gia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a vis√Ķes especulativas, de simples den√ļncia, de pol√™micas ideol√≥gicas em torno os princ√≠pios, sem desdobramentos pr√°ticos.

Nas d√©cadas mais importantes at√© aqui da sua trajet√≥ria ‚Äď dos anos 20 do s√©culo passado em diante -, a esquerda n√£o p√īde contar com a articula√ß√£o entre seus melhores intelectuais para elabora√ß√Ķes que contribu√≠ssem diretamente para enriquecer sua pr√°tica pol√≠tica e, ao mesmo tempo, um per√≠odo de extraordin√°ria riqueza na elabora√ß√£o te√≥rica do marxismo, n√£o esteve diretamente articulada com a pr√°tica, enriquecida por ela e apontando temas e rela√ß√Ķes concretas de for√ßa.

A afirma√ß√£o de L√™nin que encabe√ßa este artigo remete exatamente a isso: n√£o existe um momento de elabora√ß√£o te√≥rica e depois um momento de aplica√ß√£o concreta das conclus√Ķes te√≥ricas. O marxismo articula intrinsecamente a pol√≠tica e as quest√Ķes de organiza√ß√£o, como uma das express√Ķes da articula√ß√£o entre teoria e pr√°tica. Uma analise marxista que n√£o se articule com projetos de transforma√ß√£o revolucion√°ria, castra o marxismo da sua diferen√ßa espec√≠fica em rela√ß√£o a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e n√£o articula seu pensamento com a pr√°tica pol√≠tico-partid√°ria, n√£o assume o marxismo como pensamento dial√©tico, como motor da pr√°tica pol√≠tica concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as rela√ß√Ķes de for√ßa pol√≠ticas, de n√£o captar os movimentos reais da hist√≥ria. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que n√£o p√īde aliar a imensa criatividade te√≥rica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, √† transforma√ß√£o dessa teoria em for√ßa material, pela penetra√ß√£o nas massas ‚Äď conforme a afirma√ß√£o de Marx. Perdeu a teoria sua dimens√£o transformadora, perdeu a pr√°tica pol√≠tica a imensa capacidade anal√≠tica da teoria.

Esse descolamento √© politicamente grave, sendo respons√°vel por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam leg√≠timos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem raz√£o contra o abastardamento da pol√≠tica. (O pr√≥prio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo pref√°cio de Hist√≥ria e consci√™ncia de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido raz√£o e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da pol√≠tica.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade ‚Äď sempre heterodoxa ‚Äď ficam com a teoria e se isolam da pr√°tica, dos caminhos reais da hist√≥ria concreta.

Essa dist√Ęncia se torna ainda mais grave quando o mundo vive situa√ß√Ķes in√©ditas ‚Äď hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibi√ß√£o clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da constru√ß√£o de alternativas anticapitalistas -, em que a reflex√£o te√≥rica articulada com a pr√°tica pol√≠tica se torna ainda mais indispens√°vel. O ref√ļgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitula√ß√Ķes pol√≠ticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajet√≥ria emp√≠rica, de adapta√ß√£o correla√ß√Ķes de for√ßa desfavor√°veis por parte de for√ßas pol√≠ticas, constitui um quadro negativo, desfavor√°vel √† constru√ß√£o de solu√ß√Ķes superadoras da enorme crise hegem√īnica que vivem nossos pa√≠ses e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fen√īmeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico n√£o costuma estar acoplado √† pr√°tica pol√≠tica, enquanto for√ßas pol√≠ticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios pol√≠ticos, em suas dimens√Ķes te√≥ricas. Se trata de valorizar a reflex√£o te√≥rica, acoplada organicamente √† pr√°tica pol√≠tica, e de enriquecer a pr√°tica pol√≠tica, iluminada pela reflex√£o te√≥rica. Exemplos da articula√ß√£o entre capacidade de elabora√ß√£o te√≥rica e de dire√ß√£o pol√≠tica fora, na Am√©rica Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano Jos√© Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera ‚Äď demonstrando a factibilidade dessa articula√ß√£o e de como ela fertiliza tanto a cria√ß√£o te√≥rica, quanto a pr√°tica pol√≠tica.

A imagem do marxista universit√°rio, desvinculado da pr√°tica pol√≠tica √© uma contradi√ß√£o em termos, uma incoer√™ncia, da mesma forma que dirigentes pol√≠ticos marxistas que n√£o sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucion√°rios. O ponto de vista do marxismo √© um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumula√ß√£o de for√ßas para um objetivo estrat√©gico, program√°tico. N√£o se trata defender a teoria como c√Ęnone te√≥rico intoc√°vel, mas de resgatar o marxismo como metodologia ‚Äď sua √ļnica dimens√£o ortodoxa, segundo Lukacs -, de cr√≠tica e de supera√ß√£o da realidade existente.


 

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