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08 DE MAIO DE 2022, DOMINGO
A Sita Valles e o anti-“amigos de Alex”
Paulo Fidalgo
Alguns recordam “os amigos de Alex” de Lawrence Kasdan. E não resisto a evocar esse antigo filme quando me emocionei a ver o magnífico, sóbrio e muito cuidado documentário da Margarida Cardoso ontem estreado, como sessão do festival Indie, em Lisboa, “Sita: a vida e o tempo de Sita Valles”.

Simplificando, para mim, “os amigos de Alex” descreve a brutal deceção de um reencontro de antigos companheiros dos movimentos contestatários, no funeral de um deles, que se tinha suicidado. Essa deceção resume-se assim: que bons rapazes (e raparigas) que fomos, cheios de ideais, de iniciativa para moldar um mundo sonhado que nos libertasse da alienação, para nos tornarmos nuns malandros em vil integração nos benefícios individuais que a passagem para o lado dos piratas nos pode conceder. De todos eles, o que recusou esse caminho foi precisamente Alex que, na impotência de poder compreender o “anjo novo” da história, e não vendo saída, preferiu suicidar-se.

Na estreia do filme da Sita, muitos dos que compareceram, eram os amigos da Sita, mas não eram amigos de Alex. Eram, e são, os que se empertigam em levar por diante a bandeira vermelha que contêm gotas do sangue da Sita, bandeira empunhada que será indispensável para continuar o sonho e transmitir o seu legado aos novos. Os amigos que estiveram foram os que honram a Sita continuando a recusar tornar-se piratas.

Tantos anos depois da tragédia que sucedeu ao 27 de Maio de 1977, com o horrendo fuzilamento da Sita, de seu marido José Van Dunen e Nito Alves, seguido por matanças indiscriminadas de ativistas do MPLA, que alguns estimam em 30 000, o que é que continua a motivar que tantos dessa geração continuem apegados ao exemplo e ao caminho por ela traçado? É a geração da revolução portuguesa e da revolução angolana, acontecimentos praticamente síncronos que abalaram o mundo num processo de levantamento dos oprimidos e dos sonhadores de um mundo novo a sério que deixaram marca indelével na consciência dos seguidores da Sita.

Para além do contexto histórico há com certeza o efeito da influência que a Sita teve em todos nós com tal energia que não desvanece no tempo, em especial nos da célula de medicina. O movimento estudantil alcançou nesse tempo uma força imensa que ela ajudou a que ganhasse ímpeto e que liderou com a sua arte mobilizadora, com o seu imenso talento, paixão e, por que não dizer, com a sua aura de mulher independente, bela, capaz de fazer reunir paixão e revolta, ingredientes absolutamente constitutivos, fulcrais à transformação histórica, e sem os quais dificilmente se pode falar em revolução.

O filme é sobre a Sita, o lado heroico e trágico do seu percurso, reunindo tocantes testemunhos do que foi o seu brilho no firmamento da revolução. Não obstante a sobriedade da realização, esse brilho está lá e os que cultivam hoje o seu legado, não deixam de se emocionar com a recordação de várias peripécias desse tempo. Poderemos sempre argumentar que poderíamos ser ainda mais intensos, que a verdade histórica do que foi a Sita excede ainda o que o filme retrata, mas percebe-se que não haverá assim tanto material de arquivo e que se impõe reunir mais testemunhos, mais depoimentos, elevar ainda mais o seu exemplo. O filme é um ponto de partida como disse a Margarida Cardoso para prosseguir muitos outros caminhos e argumentos. E cumpre admiravelmente esse desígnio.

É verdade que o filme não entra nas minudências do processo histórico e político do que aconteceu. Fala-nos da grandeza da Sita e dos seus companheiros e fala-nos das vítimas da brutalidade da violência de Estado, da barbaridade e das terríveis injustiças praticadas que ainda hoje mancham a maioria das famílias angolanas que perderam entes queridos e ainda hoje não sabem deles nem o que lhes aconteceu. Ainda hoje não sabemos onde estão os restos mortais da Sita, do Zé Vandunen e do Nito. É sobre isso que o filme fala.

Não nos fala do que foi a movimentação conspirativa e provocatória do lado dos vencedores, dos que seguraram a mão do poder de estado para a liderança do MPLA em aliança com as forças que atrás deles se perfilaram para explorar a derrota da esquerda, todos os malandros e cleptocratas que viriam a tornar-se em classe dominante, singrando precisamente por entre os cadáveres da esquerda e da imensa mole popular que os apoiava.

Não obstante o filme não entrar nessa avaliação, nem ter que entrar, os revolucionários que cultivam a análise política e histórica, não ficam inibidos de debater, porventura agora com redobrado ímpeto, mais em profundidade todo o significado histórico da tragédia do 27 de Maio e da aniquilação da esquerda angolana.


 

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