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10 DE JUNHO DE 2008, TERÇA FEIRA
por Guilherme Statter
Coisas da Crise... ou ‚Äúo b√©b√© e a √°gua do banho‚ÄĚ.
"na volta ainda acabaremos por regressar à economia local, do "porquinho" e das "couves" produzidas e consumidas nas "aldeias" e "arredores das cidades"."
Tem sido recorrente, entre diversos e m√ļltiplos quadrantes da opini√£o p√ļblica (mais ou menos bem pensante), criticar e culpar a PAC (ou Pol√≠tica Agr√≠cola Comum) por m√ļltiplos e diversos males que afligem o mundo. Desde o "colapso" da agricultura portuguesa (no nosso caso), at√© aos problemas dos "camponeses" africanos produtores de algod√£o, bananas, caf√© ou carne de bovino, passando pelos produtores sul-americanos e as suas "dificuldades" em exportar os seus produtos agr√≠colas para a Europa (por causa de um certo proteccionismo inerente √† PAC), h√° de tudo um pouco.

Aquando da cimeira Europa-√Āfrica, (Lisboa, 2007) foi muito badalada a quest√£o dos excedentes agr√≠colas europeus (por causa da malfadada PAC...) e o seu impacto sobre as produ√ß√Ķes agr√≠colas em √Āfrica. Concorr√™ncia desleal... Com√©rcio (in)justo... Os "malandros" dos governantes europeus "protegem e subsidiam" a sua agricultura e com isso os exportadores europeus "despejam" os seus excedentes em √Āfrica impedindo os camponeses africanos, numa concorr√™ncia desleal e cheia de batota, de terem sequer a possibilidade de promover e vender a sua pr√≥pria produ√ß√£o. Criando e perpetuando assim um ciclo vicioso de fome e depend√™ncia.

Pois é...

Ninguém, pelos vistos, se lembrou que a PAC terá começado por ser um instrumento político de estabilização de preços. Não sou (de todo...) um especialista (nem pouco mais ou menos) em "Economia Agrícola", mas não deixo sempre de me lembrar do exemplo da criação de porcos e da necessidade de intervenção reguladora e estabilizadora do Estado, exemplo esse que tive que estudar, há muitos anos atrás, a propósito das especificidades do sector da agro-pecuária, sujeito como está aos ritmos das coisas da Natureza.

Em consequência da PAC e da sua "regulação e estabilização" dos preços, começaram a aparecer excedentes. Ele era o "lago do leite", o "lago do vinho" ou ainda o "lago de manteiga".
Só terá faltado "O Lago dos Cisnes"...

Alguns daqueles excedentes, com preços subsidiados pelos contribuintes europeus, começaram a ser exportados para outros países e a causar aí problemas de concorrência (era uma das muitas formas de "dumping"...).

Também, pelos vistos, ninguém se terá lembrado que, em vez de "acabar com a PAC" o que fazia falta era corrigir os seus aspectos mais negativos, designadamente o incentivo implícito de produção de excedentes. Interditando, por exemplo, a exportação para fora do espaço de aplicação da PAC...

Entretanto a Uni√£o Europeia j√° anunciou que, por exemplo, at√© 2014 v√£o acabar as quotas de produ√ß√£o atribu√≠das aos diversos agentes envolvidos na produ√ß√£o de leite e derivados. Em meados de 2007 a dita cuja UE deixou de pagar subs√≠dios √† exporta√ß√£o de produtos l√°cteos. Pelos vistos era algo de muito complicado, de um ponto de vista de t√©cnicas de gest√£o macro-econ√≥mica, fazer um ajuste para baixo ("afinar a pontaria") nos subs√≠dios e quotas atribu√≠das, de modo a que continuasse a haver produ√ß√£o "ligeiramente excedent√°ria" (para emerg√™ncias humanit√°rias e outras crises), mas sem haver exporta√ß√£o (e mesmo a√≠ de modo gradual, na medida em que os produtores em √Āfrica, por exemplo, n√£o come√ßam "do dia para a noite" a produzir aquilo que vai deixar de ser importado).

Com tanta tecnologia de controle, desde a vigil√Ęncia (por sat√©lite) dos espa√ßos cultivados, at√© √† recolha e armazenamento de excedentes, √© no m√≠nimo de admirar como √© que em vez de medidas correctivas se preferiu o faseamento e elimina√ß√£o progressiva das diversas "regras da PAC".

Depois admiram-se que comece a haver "falta de alimentos" e encarecimento geral dos produtos alimentares. Até a falar-se de "guerras da fome". "Acabou a comida barata" dizem eles...

Os agricultores europeus, em particular os médios e pequenos, já começaram a sentir os efeitos: menos "receitas" nas vendas e aumento de custos na produção. A sentir os efeitos e a manifestarem-se contra.

Por enquanto √© capaz de ainda ir prevalecendo a atitude de aqui h√° uns anos, dos "agricultores franceses" contra os "agricultores espanh√≥is" (e as suas produ√ß√Ķes mais baratas). Mas pode ser que os produtores em geral comecem a acordar para a natureza mais profunda destes problemas. A ver vamos, como diria o cego.

Entretanto, por mim, como sou c√≠nico nestas coisas de inten√ß√Ķes dos nossos (des)governantes, tenho uma tend√™ncia muito grande para ver aqui antes a "m√£o invis√≠vel" (discreta, escondida... ou melhor "gato escondido com o rabo de fora") de algumas "for√ßas-do-mercado", designadamente as muito grandes empresas transnacionais do sector alimentar.

Como diz a minha mulher, na volta ainda acabaremos por regressar à economia local, do "porquinho" e das "couves" produzidas e consumidas nas "aldeias" e "arredores das cidades".

Pois, puede que si... Mas, prevendo essa hipótese, "eles" já se encarregaram de activar e dar força política e policial a umas entidades a que aqui, neste cantinho à beira-mar plantado, chamamos de ASAE.

De modo a garantir o predomínio (não digo exclusividade...) dos "grandes produtores".
Tudo em nome da defesa da sanidade e bem estar dos consumidores, política e policial a umas entidades a que aqui chamamos de ASAE.


 

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