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15 DE AGOSTO DE 2007, QUARTA-FEIRA
por Jo√£o Semedo
Os efeitos da silly season
A direita deseja um Bloco sect√°rio, um Bloco √† PCP, porque n√£o ignora nem esquece como a obsess√£o anti - PS da direc√ß√£o comunista lhe tem evitado preju√≠zos maiores em situa√ß√Ķes de risco e aperto pol√≠tico.
Al√©m dos construtores civis e dos promotores imobili√°rios, quem est√° contra o Acordo de Lisboa? A direita e os seus partidos, bloguistas, analistas e comentadores. E tamb√©m a FER e a Esquerda Nova, correntes minorit√°rias do BE que, tendo recusado a mo√ß√£o vencedora na √ļltima Conven√ß√£o, clamam agora pelo seu cumprimento, supostamente posto em causa pela direc√ß√£o do Bloco que ‚Äď como √© p√ļblico e not√≥rio, foi precisamente quem redigiu e prop√īs a referida mo√ß√£o‚ĶCiumeiras √† parte ‚Äď que tamb√©m as h√°, tanto quanto li e ouvi, mais ningu√©m condenou o Acordo. Talvez, eventualmente, mais uma ou outra voz, enfim, a tal excep√ß√£o que confirma a regra.
O ruído provocado por este coro de críticos do Acordo estabelecido entre Sá Fernandes e António Costa coexiste com o silêncio dos dirigentes do PS sobre o assunto. Esta coexistência dá que pensar. Não creio estar a especular ao admitir ou mesmo concluir que, na direcção do PS, também não morrem de amores pelo acordo.



Porqu√™ esta contesta√ß√£o? Porque todos esperavam e previam ‚Äď e alguns desejavam-no mesmo, que Ant√≥nio Costa se entendesse com a direita. Com Negr√£o ou com Carmona. Ou mesmo com os dois. Mas nunca com a esquerda e muito menos com o Bloco. E, nunca mas nunca, apenas com o Bloco e, ainda por cima, dando guarida √†s suas principais propostas para Lisboa.
Antes das elei√ß√Ķes e da pr√≥pria campanha, meses a fio, estes inflamados cr√≠ticos de agora ‚Äď uns e outros, j√° se inflamavam prognosticando e anunciando que, sem maioria absoluta, o destino de Costa era, inevitavelmente, uma coliga√ß√£o com a direita. Mas, enganaram-se. Incapazes de o reconhecer, ficam-se pela contesta√ß√£o. O que vindo da direita ainda se compreende. Mas, de outras latitudes, √© bem mais estranho. Porqu√™?

Porque, em Lisboa, a direita perdeu. Mais, teve uma dupla derrota: n√£o s√≥ os seus candidatos perderam as elei√ß√Ķes como tamb√©m n√£o recuperaram na ‚Äúsecretaria‚ÄĚ aquilo que tinham perdido nas urnas. Ant√≥nio Costa n√£o seguiu o gui√£o que lhe fora destinado por t√£o ilustres videntes e acabou por n√£o se entender com a direita.

A direita ficou possessa com o Acordo de Lisboa. Por uma simples raz√£o: porque ele desenvolve e consolida a sua derrota. A direita sabe ‚Äď todos sabemos, que sem este Acordo, outro poderia ter sido o rumo dos acontecimentos. Com evidentes preju√≠zos para a popula√ß√£o de Lisboa.

Esta contestação, de facto, chora as dores da direita. As lágrimas da direita, compreendem-se. As outras, estranham-se.



Uns e outros choram ainda por uma outra razão. Surpreendeu-os e desagradou-lhes que o BE tivesse uma opção própria, autónoma, diferente da seguida pelo PCP. Ainda por cima porque cedo o PCP anunciou que não faria com António Costa o que fez durante quatro anos com Rui Rio. Se o PCP recusava o entendimento com António Costa, o BE não tinha outra saída que não fosse fazer o mesmo. Mais uma vez, enganaram-se.
Percebe-se que a direita prefira um Bloco que se comporte como um clone do partido de Jer√≥nimo de Sousa, conduzido e determinado por mesquinhos ganhos partid√°rios mas indiferente aos ganhos pol√≠ticos que certas mudan√ßas proporcionam. A direita deseja um Bloco sect√°rio, um Bloco √† PCP, porque n√£o ignora nem esquece como a obsess√£o anti - PS da direc√ß√£o comunista lhe tem evitado preju√≠zos maiores em situa√ß√Ķes de risco e aperto pol√≠tico.

Quanto aos outros cr√≠ticos, o seu sectarismo n√£o constitui novidade nem surpreende. Est√°-lhes na massa do sangue, faz parte do seu c√≥digo gen√©tico. Sect√°rios nasceram, sect√°rios continuar√£o. Desprezando, tal como o PCP, as mudan√ßas e os ganhos pol√≠ticos, tanto lhes faz que a pol√≠tica da C√Ęmara seja melhor ou pior para os lisboetas. Isso √© pequena pol√≠tica. O que lhes interessa √© fazer prova de vida, n√£o cair no esquecimento, garantir umas linhas na comunica√ß√£o social. Move-os apenas o ru√≠do. Sem qualquer estrat√©gia pol√≠tica, resta-lhes o recurso √†s t√°cticas da sobreviv√™ncia pol√≠tica.

Igualmente incompreens√≠vel √©, ainda, que estes membros do Bloco admitam e pretendam um Bloco auto-limitado e resignado a copiar e a seguir as posi√ß√Ķes dos outros protagonistas da esquerda, alienando a sua autonomia e independ√™ncia de decis√£o. Para isto, n√£o tinha valido a pena constituir o Bloco.



São, pois, de crocodilo as lágrimas derramadas pelos críticos do Acordo de Lisboa, quando choram pela autonomia do BE. Nem uns nem outros estão minimamente preocupados com isso. Pelo contrário, um Bloco preso a estratégias e interesses alheios, um Bloco manietado e a reboque de outros seria o quadro mais favorável e conveniente aos seus propósitos.
Criticar o BE e a sua direcção porque o Acordo de Lisboa não salvaguarda nem defende como devia a autonomia do Bloco, é do domínio da mais refinada hipocrisia política. O Acordo de Lisboa é, primeiro que tudo, uma afirmação de vontade própria, de independência de decisão, de autonomia política. Uma demonstração de maioridade do Bloco.



De tanta hipocrisia não se pode esperar grande coerência no ataque ao Acordo de Lisboa e à decisão do Bloco. Para uns e para outros os argumentos são como pastilha elástica. Diz-se uma coisa e exactamente o seu oposto.
A direita alerta para o perigo da esquerdização do PS e antevê vida difícil para António Costa, agora tornado refém de Sá Fernandes. Em delírio, há mesmo quem imagine Lisboa como a futura Havana da Europa.

Se para estes o Acordo traduz a submiss√£o do PS ao Bloco de Esquerda, outros sentenciam o contr√°rio e anunciam mesmo o fim da oposi√ß√£o bloquista ao governo de Jos√© S√≥crates. Do alto das suas certezas, garantem que foi o Bloco que se rendeu ao PS ‚Äď e ao pior PS, dando por certo que em 2009 ‚Äď logo √† primeira oportunidade, o BE entrar√° num novo governo socialista, se n√£o mesmo nas pr√≥prias listas candidatas √†s legislativas desse ano.

Há mesmo quem, obnubilado pela sua conhecida fantasia, anteveja o fim do Bloco e o condene ao asilo e à reforma no PS.



A contesta√ß√£o ao Acordo de Lisboa e √† posi√ß√£o assumida pelo BE tem de tudo: contradi√ß√Ķes, deturpa√ß√Ķes, falsifica√ß√Ķes, hipocrisia, sectarismo, preconceito, miopia e estupidez pol√≠tica. Mas, apesar disso, n√£o deixa de ser surpreendente que silencie e ignore duas quest√Ķes essenciais, ali√°s as √ļnicas que s√£o decisivas nesta controv√©rsia: o Acordo √© bom ou mau para a cidade e para os lisboetas? S√° Fernandes declarou-se ou n√£o dispon√≠vel para uma converg√™ncia √† esquerda se esta contemplasse os seis pontos program√°ticos que constam do Acordo de Lisboa?
Estas s√£o as quest√Ķes essenciais. E as respostas s√£o simples, evidentes e incontest√°veis: primeiro, as pol√≠ticas consagradas no Acordo s√£o boas para Lisboa e para os lisboetas e at√© agora ningu√©m defendeu, argumentou ou demonstrou o contr√°rio; segundo, toda a campanha de S√° Fernandes girou em torno daquela disponibilidade e daqueles seis pontos.

Antes das elei√ß√Ķes ningu√©m contestou o programa ou aqueles seis pontos, nem t√£o pouco a inten√ß√£o anunciada por S√° Fernandes.

Ap√≥s as elei√ß√Ķes, S√° Fernandes fez o que anunciou e cumpriu o que prop√īs. Os compromissos eleitorais n√£o podem reduzir-se a simples propaganda, s√£o para respeitar.

Quanto ao Acordo de Lisboa, o Bloco não só esteve bem como não podia nem devia ter feito outra coisa.



A contesta√ß√£o ao Acordo de Lisboa sustenta-se na habilidade de ocultar estas duas quest√Ķes e na fuga consciente e deliberada ao exerc√≠cio e √† obriga√ß√£o de lhes responder.
Mas, tamb√©m, no truque de condenar o Bloco n√£o por aquilo que ele √©, faz, significa e representa hoje mas por aquilo que se sup√Ķe, imagina e anuncia que vai ser no futuro: ap√™ndice, muleta, parceiro ou aliado do PS.

Quando a realidade n√£o serve de argumento ou √© ela pr√≥pria o melhor desmentido, todas as fantasias e premoni√ß√Ķes s√£o poss√≠veis. Sem raz√£o nem argumentos, o expediente √© a futurologia. Como se a pol√≠tica fosse um jogo de cartomantes.

N√£o se responde nem combate a cartomancia com mais cartomancia. No discurso do futuro, cabe tudo e mais alguma coisa, todas as boas inten√ß√Ķes e promessas.

Contra a cartomancia, em política e no mundo real, o que interessa são os factos.

Não os que supostamente hão-de vir ou acontecer, mas os do passado. Aqueles que a nossa memória regista e sobre os quais a nossa inteligência crítica se pode pronunciar. Não é no futuro mas sim no passado que se recorta e encontra a identidade do Bloco.

O Bloco tem oito anos. Oito anos de luta política e social por uma alternativa socialista e popular. Contra a direita e os seus governos. Contra as políticas neo-liberais do PS e dos seus governos. Oito anos que falam por si, oito anos sem qualquer cedência ou submissão ao Partido Socialista ou a qualquer outro. Oito anos de construção e afirmação de um projecto próprio, autónomo e independente, motor à esquerda da alternativa socialista.

Julgue-se, hoje, o Bloco por estes oito anos e n√£o por aquilo que a cartomancia anuncia.



Jo√£o Semedo




 
De onde conheço isto?
Enviado por Paulo Mouta, em 25-08-2007 às 04:12:56
Considerar como sect√°rias todas as outras opini√Ķes, minorit√°rias certamente, como comprovado em conven√ß√£o do BE. E sect√°rias tamb√©m todas as for√ßas pol√≠ticas que √† esquerda n√£o compreendem a posi√ß√£o bloquista em Lisboa (com a qual pessoalmente at√© concordo). Designar como "contradi√ß√Ķes, deturpa√ß√Ķes, falsifica√ß√Ķes, hipocrisia, sectarismo, preconceito, miopia e estupidez pol√≠tica" as opini√Ķes legitimas de outros camaradas de partido e de outras esquerdas que n√£o deixam de o ser por levarem com todos estes nomes... quando todos √† nossa volta nos parecem ser os sect√°rios n√£o ser√° sinal de que somos n√≥s pr√≥prios que o estamos a ser?
Acordo Lisboa
Enviado por Antonio Chora, em 24-08-2007 às 10:18:23
Jo√£o,
os meus parabens, este é o melhor artigo que já li sobre o acordo de Lisboa, estou perfeitamente de acordo com o mesm.
Um abraço
Antonio Chora

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