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17 DE OUTUBRO DE 2010, DOMINGO
Autores de "Teoria de Classe e História"
Entrevista a Rick Wolff e S. Resnick
Foi j√° em 2004 que a ‚ÄúTeoria de Classe e Hist√≥ria‚ÄĚ de Rick Wolff e S.Resnick foi editado em portugu√™s, pela tradu√ß√£o muito cuidada de Ana Barradas para a Campo da Comunica√ß√£o.
Esse grande estudo e questionamento da experi√™ncia hist√≥rica da URSS trouxe imensa controv√©risa a quem tinha dos acontecimentos aquela vis√£o algo simplificadora que atribuia a cat√°strofe a falhas nas personalidades dos dirigentes e a erros de condu√ß√£o, e mesmo √† efic√°cia de uma m√£o conspirativa do imperialismo. Mesmo que todos estes aspectos possam ser encontrados, nunca um terramoto de alcan√ße hist√≥rico como a implos√£o da URSS poderia ser apenas explicado por falhas do foro subjectivo. Como de resto, parece aconselhar qualquer boa metodologia marxista de an√°lise. Os autores avaliam o longo ciclo hist√≥rico √† luz de uma vis√£o marxista cr√≠tica do que foram os avan√ßos e os equ√≠vocos da condu√ß√£o da experi√™ncia da URSS e propuseram uma grelha de crit√©rios que ajuda a interpretar os acontecimentos e sobretudo a orientar futuros empreendimentos comunistas. √Č por isso pertinente continuar a chamar √† aten√ß√£o para esta obra m√°xima do marxismo moderno e insistir em que todos a devemos estudar para dar cumprimento ao slogan conhecido de "aprender, aprender sempre".

Para melhor atrair potenciais leitores pedimos alguns comentários dos autores em relação ás ideias força da obra.


Podem comentar brevemente a ideia expressa no vosso livro sobre a União Soviética, "Teoria de Classe e História" acerca da apropriação do valor excedentário e respectiva distribuição como critério para validar uma dada formação económica?

O crit√©rio da organiza√ß√£o do valor excedent√°rio - compreendendo os seus processos de produ√ß√£o e distribui√ß√£o √© o que pensamos que Marx nos ofereceu como ponto fulcral da sua nova e diferente teoria sobre a sociedade. Estes processos econ√≥micos definem as posi√ß√Ķes de classe diferentes, que caracterizam qualquer sociedade escolhida para an√°lise e para dirigir a transforma√ß√£o. Assim, por exemplo, no capitalismo, a explora√ß√£o ocorre quando os trabalhadores produzem uma mais-valia para os capitalistas que se apropriam dela. Trabalhadores produtivos e capitalistas ocupam as posi√ß√Ķes de classe definidas pela explora√ß√£o. Discorrendo sobre esse processo de explora√ß√£o capitalista representa a contribui√ß√£o fundamental de Marx para a teoriza√ß√£o do capitalismo em seu volume de Capital 1.

Capitalistas, em seguida, distribuiem para os outros partes do excedente apropriado na sociedade para que eles possam fornecer as condi√ß√Ķes necess√°rias para que essa explora√ß√£o ocorra e se reproduza.

Estes receptores de excedentes ocupam posi√ß√Ķes de classe diferentes das que sejam trabalhadores produtivos e capitalistas, e que incluem, entre outros, gerentes, propriet√°rios, financiadores, comerciantes, funcion√°rios do Estado. O processo de distribui√ß√£o do excedente apropriado representa a contribui√ß√£o de Marx no Capital volumes 2 e 3.

Para n√≥s, o √ļnico crit√©rio de Marx para a an√°lise social √© o conjunto de processos de interac√ß√£o de classe entendida como a produ√ß√£o, apropria√ß√£o e distribui√ß√£o dos excedentes. Os processos de classe tornam-se o foco e a estrutura para a compreens√£o da am√°lgama de cada sociedade quanto a processos econ√īmicos, pol√≠ticos, culturais e naturais.

Com base nesta abordagem analítica de classe, o nosso livro define uma organização comunista de produção como aquela em que a coletividade, que produz o excedente, é a mesma coletividade que se dele se apropria e o distribui.

O nosso livro tamb√©m ressalta como este significado excedente / defini√ß√£o do comunismo difere de outros significados e defini√ß√Ķes. T√≠pico de significados n√£o excedent√°rios / defini√ß√Ķes do comunismo s√£o aqueles que incidem sobre o atributo colectivo (em vez de privado) da propriedade dos meios de produ√ß√£o, planeamento (ou, em vez de dominar) os mercados, ou de trabalhadores (mais do que outros) que det√™m o poder sobre a produ√ß√£o e / ou do Estado.

Mudando o foco das defini√ß√Ķes para a organiza√ß√£o do excedente da produ√ß√£o (que, colectivamente produzem, se apropriam e distribuiem), que teorizam de forma diferente e, portanto, poderemos agora ver como forma√ß√Ķes comunistas est√£o em desenvolvimento no seio das sociedades capitalistas.


Como v√™em algumas das forma√ß√Ķes comunistas que j√° est√£o operando sob o capitalismo? S√£o essas respostas uma alternativa √† forma de fazer as coisas do capitalismo dominante? √Č poss√≠vel que um evolucionismo das rela√ß√Ķes de produ√ß√£o possa acontecer, por exemplo, nas forma√ß√Ķes do Estado t√£o prevalentes nos pa√≠ses europeus?


A nossa pesquisa mostra que uma mudan√ßa revolucion√°ria para uma organiza√ß√£o comunista de produ√ß√£o ocorreu e ainda est√° ocorrendo em todos os estados capitalista e talvez em outros lugares do mundo capitalista. Isso est√° acontecendo com a produ√ß√£o de bens e servi√ßos dentro das fam√≠lias. Muitas fam√≠lias mudaram do que eram previamente formas feudais para um rec√©m-criado regime comunista de organiza√ß√£o dos excedentes. Considerando que, durante muitas gera√ß√Ķes, as mulheres normalmente produziam excedentes para os homens num sistema mais parecido com as estruturas feudais (servos e senhores) da Europa medieval, hoje produzem cada vez mais excedentes que s√£o apropriados em conjunto, coletivamente.

√Č claro que esta mudan√ßa not√°vel nas organiza√ß√Ķes dom√©sticas dos excedentes √© sobredeterminada pela mudan√ßa das condi√ß√Ķes da cultura, arranjos de poder e economia.

Nesse sentido, as mulheres e os homens t√™m alterado n√£o s√≥ o seu trabalho dom√©stico e as rela√ß√Ķes de excedentes, mas tamb√©m a sua forma de pensar sobre os pap√©is de cada um para o outro (cultura), suas formas de moldar o comportamento alheio (pol√≠tica) e suas intera√ß√Ķes com a produ√ß√£o e distribui√ß√£o de bens e servi√ßos fora de casa (Economia).

A pesquisa de um estudante de terceiro ciclo, Kenneth Levin, d√° outro exemplo - nas empresas, em vez de fam√≠lias - das organiza√ß√Ķes comunistas de produ√ß√£o que ocorrem dentro da sociedade capitalista. Em todos os EUA, por muitas d√©cadas (e talvez ao longo da hist√≥ria dos EUA - ainda n√£o sei) as pequenas empresas t√™m in√≠cio e continuam a funcionar como forma√ß√Ķes comunistas, em vez de organiza√ß√Ķes de produ√ß√£o capitalista. Elas normalmente come√ßam quando alguns trabalhadores / propriet√°rios deixaram seus empregos em empresas capitalistas e organizam um tipo diferente de empresa. Eles rejeitam a hierarquia, a √©tica, e a atmosfera geral das empresas capitalistas que eles deixaram, e ao inv√©s organizam-se de tal forma que todos s√£o igualmente produtores, receptores e distribuidores dos lucros que produzem conjuntamente. Para um exemplo ilustrativo, de segunda a quinta-feira, eles chegam para trabalhar e exercer suas fun√ß√Ķes dentro da divis√£o interna dessa empresa de trabalho. Na sexta-feira, eles chegam, mas passam o dia inteiro em reuni√Ķes onde coletiva e democraticamente, decidem o qu√™, como e onde produzir e o que fazer com o excedente que o seu trabalho coletivo realiza.

H√° muitos exemplos de transforma√ß√Ķes em empresas do g√™nero na hist√≥ria recente dos EUA que conhecemos. De fato, uma consider√°vel literatura trata desses exemplos. No entanto, essa literatura n√£o √© informada pela consci√™ncia da teoria marxista em geral e, especialmente, n√£o t√™m uma teoria que prioriza a quest√£o da organiza√ß√£o do excedente da produ√ß√£o.

Por exemplo, durante d√©cadas, engenheiros origin√°rios de empresas de software na regi√£o de Silicon Valley na Calif√≥rnia formaram o que aqui entendemos por empresas com organiza√ß√Ķes comunistas do excedente. Essas empresas t√™m muitas vezes sido bastante bem sucedidas, cresceram e duraram muitos anos. No entanto, essas empresas t√™m sido teorizadas como "exibindo inova√ß√£o empresarial." Porque elas n√£o eram empresas estatais, mas eram muito mais propriedade privada de seus trabalhadores, porque eles produziam e vendiam as suas sa√≠das como produtos, eles e os jornalistas e acad√©micos que escreveram sobre elas simplesmente supunham que eram capitalistas.

Na verdade, esses autores e da mesma forma analistsas marxistas consideraram-nas desse modo porque o que supostamente diferencia uma empresa capitalista de uma comunista seria a natureza da propriedade produtiva e a dicotomia planeamento-versus mercado.

Porque esses analistas n√£o se basearem no foco sobre a organiza√ß√£o do excedente da produ√ß√£o, eles literalmente n√£o podia ver, apreciar, ou tirar conclus√Ķes sobre a import√Ęncia dessas novas empresas. Eles n√£o podiam avaliar, muito menos pensar estrategicamente sobre tais empresas comunistas em rela√ß√£o a uma estrat√©gia de mudan√ßa social para al√©m do capitalismo.

Entendida sob esta √≥ptica dos excedentes, estes exemplos de fam√≠lias e empresas bem sucedidas demonstram que as forma√ß√Ķes comunistas podem surgir e j√° surgiram no mundo capitalista. As suas hist√≥rias precisam ser contadas, porque oferecem uma alternativa vi√°vel e atraente em rela√ß√£o √† hegemonia que os adeptos (e cr√≠ticos) do capitalismo infinitamente atribuem a ele. Acreditamos tamb√©m que as empresas comunistas da esp√©cie esbo√ßada acima t√™m impacto nas empresas capitalistas e nas fam√≠lias feudais existentes em muitas formas interessantes e subtis. Na verdade, uma forma de que uma nova pol√≠tica pode surgir por toda a sociedade moderna √© a de uma consci√™ncia crescente de tais organiza√ß√Ķes comunistas de produ√ß√£o e o modelo alternativo de sociedade que eles fornecem. Uma forma de construir a consci√™ncia do que poderia ser uma tal sociedade √© a de mostrar, como o nosso livro faz, que a luta para estabelecer o comunismo n√£o √© imposs√≠vel, aqui e agora, nem √© uma utopia distante. Ela j√° tem sido realizada com sucesso em e para milh√Ķes de fam√≠lias e muitas empresas. O comunismo funciona e funciona bem l√° - por que n√£o em outros lugares tamb√©m?

Nessa mesma linha, pensamos que √© perfeitamente poss√≠vel para as organiza√ß√Ķes comunistas do excedente da produ√ß√£o a ser estabelecidas dentro das empresas de propriedade e operadas pelo Estado. Usando a mesma l√≥gica, os trabalhadores do Estado na empresa estatal, em seguida, podem torn√°-las em empresas, onde se caminha tamb√©m para os receptores e distribuidores dos excedentes que os trabalhadores produzem poderem ser administrados colectiva e democraticamente. Como discutimos no nosso livro em detalhes hist√≥ricos, uma organiza√ß√£o comunista de produ√ß√£o n√£o estava presente nas empresas industriais do Estado da URSS, apesar das mudan√ßas bastante not√°veis no controle da propriedade pelos trabalhadores que teve lugar em toda a hist√≥ria sovi√©tica. Uma li√ß√£o fundamental da experi√™ncia da URSS que o livro desenvolve √© que o que mais o socialismo e o comunismo significam, tamb√©m deve significar a presen√ßa dessa organiza√ß√£o comunista de super√°vit em ambas as empresas, privadas e estatais. Caso contr√°rio, as outras mudan√ßas culturais, econ√≥micas e pol√≠ticas alcan√ßadas pelos revolucion√°rios revelam-se inadequadas, bem como tempor√°rias, porque n√£o s√£o acompanhadas e e n√£o assentam em organiza√ß√Ķes que transformam radicalmente os excedentes dentro das empresas e das fam√≠lias.


Como vêem a transição económica ou transformação para a reconfiguração de um programa de esquerda na atual crise do capitalismo?


Nós pensamos que a esquerda tem alcançado um objectivo fundamental no fornecimento de crítica ao capitalismo para os seus seus incessantes ciclos de crise, incluindo a "grande recessão" actual.

Infelizmente, n√£o t√™m conseguido um objectivo igualmente fundamental: mostrar as ra√≠zes dos ciclos de neg√≥cios recorrentes e seus imensos custos sociais na organiza√ß√£o capitalista do excedente. Realizando o √ļltimo objectivo poderia ser a base para um novo programa para a esquerda, um programa que respondesse √† crise com as reclama√ß√Ķes e os planos para a transi√ß√£o para uma nova organiza√ß√£o diferente, n√£o-capitalista do excedente.

Por exemplo, a actual crise do capitalismo dos EUA fornecem √† esquerda uma oportunidade de levar a teoria de Marx √† opini√£o p√ļblica e mostrar exactamente como e porqu√™ a explora√ß√£o crescente desde a d√©cada de 1970 contribuiu para a crise que atingiu os EUA em 2007. A nossa pesquisa recente sobre a crise os EUA tem como objetivo fazer real√ßar este ponto (Resnick e Wolff, "A Crise Econ√īmica: uma interpreta√ß√£o marxista." Rethinking Marxism Vol. 22, n ¬ļ 2, Abril, 2010, 170-186). O renascimento de uma esquerda eficaz durante esta crise exige que, acreditamos, o tipo de an√°lise de classe e de classe pol√≠tica transformacional informada seja tocada e influenciada pela teoria dos excedentes de Marx. Caso contr√°rio, an√°lises cr√≠ticas, na sua maioria permanecem mais ou menos keynesianas-favorecer reformas do capitalismo com mais regula√ß√£o e, talvez, mais humanismo mas mais nada. Essas reformas no passado, nunca conseguiram impedir as crises subsequentes e muitas vezes serviram para refor√ßar a explora√ß√£o de classe. Ou poder√≠amos ver de outra forma renovada as cl√°ssicas reivindica√ß√Ķes socialistas de regresso aos estatismo (versus privado) da propriedade da empresa e planeamento (em contraponto ao mercado) como se tais institui√ß√Ķes pudessem superar ou impedir crises econ√≥micas e, como se essas institui√ß√Ķes n√£o se tivessem tornado em barreiras aos objetivos socialistas. Uma resposta da esquerda para a actual crise que radique as suas exig√™ncias pol√≠ticas e metas em organiza√ß√Ķes transformadas das fam√≠lias e das empresas seria uma verdadeira "nova" esquerda capaz de inspirar os militantes no s√©culo XXI.


Stephen Resnick e Richard Wolff
Setembro de 2010


 

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