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14 DE SETEMBRO DE 2007, SEXTA FEIRA
Entrevista a Luís Fazenda
Coliga√ß√Ķes √† esquerda: um avan√ßo ou ilus√£o reformista?
"A perspectiva do socialismo como estrat√©gia pode passar por participa√ß√Ķes no governo ou n√£o passar. N√£o h√° dogma. Depende da an√°lise concreta da situa√ß√£o concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposi√ß√£o das massas trabalhadoras, da rela√ß√£o de for√ßas internas e externas ao pa√≠s, entre outros factores."
Comunistas.info: Achas que a participa√ß√£o de comunistas e da esquerda em coliga√ß√Ķes faz sentido em pleno capitalismo, e sem que primeiro se opere a grande transforma√ß√£o social, econ√≥mica e pol√≠tica a que chamamos revolu√ß√£o?


Lu√≠s Fazenda: A participa√ß√£o de forma√ß√Ķes marxistas em governos de coliga√ß√£o no quadro do capitalismo n√£o √©, s√≥ por si, surpreendente. J√° nos anos 30 do s√©culo passado, esse facto imp√īs-se com o governo de Frente Popular em Fran√ßa, apontado pela Internacional Comunista como exemplo a seguir para travar o ascenso do fascismo. N√£o se desconhece toda a imensa controv√©rsia sobre essa posi√ß√£o, quer antes, quer depois. No geral, essa pol√©mica apenas alimentou o sectarismo e facilitou a vida a aspirantes √† burguesia.
Conv√©m lembrar que, j√° antes, com objectivo diferente, o de aprofundar a crise do capitalismo, Lenine n√£o tinha descartado a possibilidade de coliga√ß√Ķes entre os comunistas, outras alas esquerdas, e social-democratas. O dirigente comunista punha a finalidade de frente √ļnica em oposi√ß√£o ao oportunismo ministerialista dos social-democratas em governos burgueses. Tratava-se de situa√ß√Ķes em que o avan√ßo revolucion√°rio n√£o seria imediato. Essas reflex√Ķes pouco passaram disso mesmo devido ao massacre dos comunistas alem√£es em 19, n√£o sendo o √ļnico caso de repress√£o √† ordem dos social-democratas. N√£o se pode simplificar a hist√≥ria e fazer equivaler situa√ß√Ķes de parlamentarismo, levantamento revolucion√°rio, ou guerra imperialista. N√£o o farei aqui. Devo apenas sublinhar que a quest√£o n√£o √© nova e que a formula√ß√£o dos objectivos de um governo de coliga√ß√£o √© o seu conte√ļdo, e que a composi√ß√£o e forma de tal governo s√≥ pode ser a garantia desses objectivos. Envolver esta quest√£o no debate entre reforma e revolu√ß√£o s√≥ turva a t√°ctica dos partidos.
A perspectiva do socialismo como estrat√©gia pode passar por participa√ß√Ķes no governo ou n√£o passar. N√£o h√° dogma. Depende da an√°lise concreta da situa√ß√£o concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposi√ß√£o das massas trabalhadoras, da rela√ß√£o de for√ßas internas e externas ao pa√≠s, entre outros factores.

Comunistas.info: Como comentas as diversas experi√™ncias em curso no mundo em que os comunistas e outras forma√ß√Ķes de esquerda participam em solu√ß√Ķes de governo, na Europa e no Mundo?


Lu√≠s Fazenda: Das experi√™ncias enunciadas de participa√ß√£o actual de comunistas em governos formados pela via parlamentar conv√©m talvez deixar para outra reflex√£o a experi√™ncia de governos regionais na Alemanha, Catalunha, Brasil ou √ćndia. Pontuam aqui realidades muito diferentes, tempo e compet√™ncias muito diferentes, partidos comunistas eles pr√≥prios muito diferentes tamb√©m. Em todo o caso s√£o governos afastados do n√ļcleo da soberania do estado, portanto n√£o definit√≥rios do perfil dos marxistas face ao poder. Parece que se devem dispensar desta an√°lise os ex-comunistas da Su√©cia e da Finl√Ęndia que renunciaram ao objectivo do socialismo. Fa√ßo notar que o Partido da Esquerda da Su√©cia proclamou como finalidade alcan√ßar o ‚Äúcapitalismo democr√°tico‚ÄĚ.
Nas condi√ß√Ķes internacionais actuais, de aguda defensiva das for√ßas socialistas e democr√°ticas, a meu ver, s√≥ faz sentido participar em governos de coliga√ß√£o com outras for√ßas e a√≠ dar o sinal dos comunistas, caso esse governo rompa com as pol√≠ticas neo-liberais e com a m√°quina de guerra da NATO. Exceptuam-se, claro, circunst√Ęncias, nesta ou naquela zona do globo, em que estados possam atravessar uma formid√°vel convuls√£o e a prioridade seja a paz imediata e a instaura√ß√£o da democracia.
Os marxistas n√£o escolhem aliados em abstracto por mero cat√°logo ideol√≥gico. A luta social pode vir a abrir, em Portugal e em v√°rios pa√≠ses da Uni√£o Europeia, a possibilidade de um ‚Äúgoverno de esquerdas‚ÄĚ desatrelado do hegemonismo dos EUA, reestruturando os direitos sociais. Contudo, esse contexto n√£o parece ser pr√≥ximo. O centro da nossa aten√ß√£o s√≥ pode estar virado para isolar os capit√£es da finan√ßa e os sargentos de escala do poder.
A participa√ß√£o dos comunistas sul-africanos no governo do pa√≠s tem, a meu ver, claramente dois momentos. O primeiro compromisso, sob a √©gide de Mandela e do ANC, inteiramente justific√°vel e necess√°rio, para consolidar a vit√≥ria sobre o regime racista, facto de alcance mundial. Nos √ļltimos anos, lamentavelmente, o PC da √Āfrica do Sul persiste equivocadamente no poder, sancionando um capitalismo muito agressivo contra os trabalhadores sul-africanos. Nos casos do Brasil e de It√°lia, ressalvando as imensas caracter√≠sticas diversas dessas experi√™ncias, os comunistas propuseram-se mitigar o neo-liberalismo. Sem sucesso e com desfecho d√ļbio. O governo franc√™s de Jospin j√° tinha mostrado o desastre desse ensaio. Especialmente grave √© o envolvimento objectivo da Refunda√ß√£o Comunista de It√°lia na pol√≠tica externa pr√≥-NATO de Prodi.

Comunistas.info: Como aprecias a esta luz as perip√©cias na forma√ß√£o de uma verea√ß√£o de coliga√ß√£o em Lisboa? E quais as implica√ß√Ķes que a participa√ß√£o ou recusa poder√£o ter para as fases seguintes do processo pol√≠tico portugu√™s, nomeadamente quanto √† competi√ß√£o das legislativas daqui a dois anos?


Lu√≠s Fazenda: A partilha de responsabilidades executivas na C√Ęmara Municipal de Lisboa deriva de uma din√Ęmica local, no caso do Bloco de Esquerda. O PCP durante muitos anos apresentou a coliga√ß√£o PS-PCP na CML como a prova de que era poss√≠vel uma alian√ßa nacional entre esses partidos. Mais do que a letra dos documentos vale a interpreta√ß√£o de Carvalhas em muitas entrevistas p√ļblicas. Hoje a antiga ‚Äúprova‚ÄĚ passou a ‚Äúcorpo de delito‚ÄĚ.

O voto dos cidadãos tem demonstrado que crescentemente se separa a esfera autárquica da esfera parlamentar. Julgo que as pessoas vão fazer essa distinção em 2009. Tanto para aqueles que decidiram tomar responsabilidades executivas como para os que o não fizeram no caso autárquico, e sem interferência relevante na disputa das legislativas. Uma coisa é um acordo limitado a algumas políticas da cidade, outra bem distante é uma avaliação sobre o rumo liberal da governação e das alternativas. O Bloco de Esquerda não manipula as autarquias para a política nacional. Creio mesmo que no nosso país é uma temeridade pensar que o espaço autárquico seja privilegiado para alterar a rota geral de qualquer partido. Infelizmente é o espaço mais feudal da política. A desagregação do bloco central de interesses passa muito pelos movimentos sociais, em marco nacional e em frente europeia.

Luís Fazenda
2007-09-14


 

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