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13 DE JANEIRO DE 2011, QUINTA FEIRA
Paulo Fidalgo
Wikileaks e Lenine: a luta contra a diplomacia secreta!
WikiLeaks é uma organização de comunicação social não lucrativa dedicada a revelar importantes notícias e informações ao público. Fornecemos uma forma inovadora, segura e anónima para as fontes independentes em todo o mundo deixarem surgir informação para os nossos jornalistas. Publicamos material de significado ético, politico e histórico ao mesmo tempo que mantemos as nossas fontes anónimas, fornecendo portanto uma forma universal de revelar as injustiças suprimidas e censuradas.” Do sítio da Wikileaks
Nestas últimas semanas o mundo surpreendeu-se com revelações de índole diplomática e política que são convencionalmente ocultadas por um ensejo de diplomacia e actuação política secretas. É de facto notável o papel que a organização do Wiki (uma partícula que evoca a enciclopédia on-line Wikipédia) - Leaks (partícula que se pode traduzir como fuga de informação ou segredo revelado).

A fortíssima componente secreta nas relações internacionais, a manutenção de um denso aparelho de encriptação são, todos, considerados vitais para o exercício do poder e da subordinação nas relações politicas, nacionais e internacionais, no quadro imperialista que continua a marcar o mundo segmentado em que vivemos. Para as relações de subordinação, para a assimetria das relações económicas importa, de facto, manter uma aparência de equidade no discurso publicado que faça alguma concessão ao natural desejo de justiça por parte da opinião pública. É necessário contudo conduzir a politica por outros meios, mais discretos, senão mesmo em aberta contradição com o discurso aparente, na medida em que os jogos da política do imperialismo são em boa medida o sucedâneo dos negócios que, como sabemos, assentam a sua alma, no segredo.

Sem dúvida que se acaba por aceder a muitos segredos da politica internacional quando os Estados levantam a restrição a relatórios e dossiers ao fim de 50 anos, porém isso só acontece quando não conta por aí além a mobilização e o efeito da pressão pública. Noutros casos, a coisa vem mais cedo a público e embaraça as potências face à condenação dos povos, como foi a famosa encenação das “armas de destruição maciça” que supostamente estariam nas caves de Bagdade prontas a serem usadas por Saddam Hussein contra os países dominantes. Esses episódios de revelação extemporânea são portanto fortemente combatidos por uma densa teia de regras e burocracias que vigiam poderosamente a circulação de informação.

O problema da estratégia de ocultação é que ela, apesar de contar com sofisticação de meios e capacidade de coacção, contradiz abertamente a pulsão evolutiva, objectiva, que faz surgir no mundo uma auspiciosa velocidade de circulação de informação, não especialmente regulada, que percorre todas as rectas e oblíquas da geometria, sem hierarquia, quase em tempo real. Essa revolução tecnológica e das relações sociais que a co-pressionam é um processo objectivo cada vez mais apreendido como ideal internacional que aspira a uma humanidade una e universal, livre das segmentações de nação, credo ou raça, e que procura uma efectiva integração económica apontada à coesão. Por muito que custe aos sacerdotes da ocultação e do disfarce, do cinismo e da mistificação, é felizmente hoje maior o rol de gente que percebe como o segredo, sendo a alma do negócio, é não só dispensável como contrário à construção do futuro.

Como é bem conhecido, o ideal comunista nasceu como ideia internacional livre das teias que limitam e fazem divergir a humanidade em segmentos hostis e plenos de confrontação. Porém, uma guinada funesta sucedeu a certa altura com a prioridade a valor do patriotismo no movimento comunista, no final da década de 20 do século XX. Independentemente das raízes sociais e económicas que explicam essa deriva, ainda que apontada a um mundo de nações iguais, a verdade é que veio afastar não só o discurso mas igualmente a prática dos partidos comunistas e da diplomacia da URSS quanto a esse ideal de combate ao secretismo e à ocultação.

É porém importante relembrar que competiu ao movimento comunista durante o longo período da crise da Primeira Guerra Mundial o levantar da luta por um mundo sem segredos de Estado aspecto nuclear da politica bolchevique, nos alvores do Grande Outubro. O movimento dos trabalhadores estava não só vitalmente interessado em abolir os convénios inter-imperialistas que sustentavam na realidade o alinhamento e o esforço de guerra das potências como estavam orientados para a partilha do mundo por via do saque das riquezas e da sobre-exploração dos trabalhadores. Para o movimento comunista, desmascarar e tornar pública a teia de tratados secretos era um acto elementar de democracia mas igualmente um instrumento directo de edificação de uma ordem internacional mais justa, assente no fim da guerra de rapina. Gritava-se então tão alto a palavra de ordem do fim da guerra, o apelo à confraternização nas trincheiras como a reclamação da publicação dos tratados e a exigência de pôr fim à diplomacia secreta. Foi também esse programa que levou os bolcheviques ao poder na Rússia, e que mobilizou toda a intelectualidade progressista nas primeiras décadas do século XX e, concretamente, no período à volta da Grande Guerra e depois na luta contra as condições do Tratado de Versalhes.

Para quem seja pouco versado nas peripécias da história damos conta a seguir a alguns excertos das obras de Lenine nas suas intervenções ao longo do ano de 1917:
Como Alcançar a Paz”, Lenine, Março de 1917
….
Este programa – o programa para os Sovietes - deverá ser provavelmente o seguinte:

  1. O Soviete de Deputados Trabalhadores, Soldados e Camponeses de Toda a Rússia (ou o Soviete de São Petersburgo agindo temporariamente em seu nome) deverá declarar que não está daqui em diante obrigado por quaisquer tratados firmados quer pela monarquia czarista ou pelo governo burguês.

  2. Publicará daqui em diante todos estes tratados para denunciar publicamente a vergonha dos seus propósitos predatórios da monarquia czarista e de todos os governos burgueses sem excepção.

  3. Apelará daqui em diante a todas as potências beligerantes para concluírem um armistício imediato.

  4. Trará imediatamente ao conhecimento do povo os nossos, termos de paz, os termos dos trabalhadores e camponeses:
    Tarefas da Revolução, Lenine 1917
    Ao oferecer os termos da paz, o governo soviético deve tomar medidas imediatas para a sua concretização, isto é, deve publicar e repudiar os tratados secretos aos quais o nosso país esteja vinculado até hoje, concluídos pelo Czar e que dão aos capitalistas da Rússia a promessa de pilhagem da Turquia, Áustria, etc.


Lenine ao Congresso dos Sovietes em 8 de Novembro de 1817 (no dia seguinte à ocupação do Palácio de Inverno e do derrube do governo provisório pela guarda vermelha):
Discurso final sobre a Paz: "Que todos tomem conhecimento do que os governos deles têm em mente. Nós não queremos nenhuns segredos. Nós queremos governos que estejam permanentemente sob o escrutínio da opinião pública de cada país.... A nossa ideia de força é diferente. A nossa ideia é que o Estado é forte quando o povo é politicamente consciente. É forte quando as pessoas estão informadas de tudo, quando podem formar opinião de tudo e agir sobre tudo em consciência.
"

Há portanto um retomar nesta importante iniciativa do Wikileaks de uma ideia ancestral, porventura demasiado afastada das nossas preocupações de hoje, porém absolutamente necessária à construção da ideia Internacional: lutar por uma ordem democrática, escrutinável, que coloque necessariamente um fim às acções e à diplomacia secretas.


 

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