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05 DE JULHO DE 2009, DOMINGO
FONTE: Carta Maior
POR: Flávio Aguiar
Dilemas da esquerda
Dada a sua manifesta acualidade, leia o artigo do jornalista brasileiro Flávio Aguiar, publicado no site Carta Maior sobre a recente convenção do partido alemão Die Linke (A Esquerda), e aqui transcrito.
No fim de semana que passou (20/21 de junho) realizou-se a convenção nacional do Partido Die Linke (A Esquerda), em Berlim, com mais de 500 delegados presentes. A convenção foi marcada por chamados à unidade e por dissensões e diferenças agudas, mas sem que possam levar a rupturas notáveis, pelo menos no momento.

O novo partido, que tem dois anos de existência e 54 cadeiras no Parlamento Nacional, está colocado “entre duas eleições”: a do passado recente, em junho, para o Parlamento Europeu, e a vindoura, em setembro, para aquele.

Nas eleições para o parlamento da União Européia, Die Linke teve um desempenho que ficou aquém do esperado. Contavam os líderes do partido com uma votação de 10% na Alemanha, mas ele teve pouco mais de 7%.

Para as próximas eleições, o maior trunfo no horizonte do partido é a difícil situação do Partido Social-Democrata (SPD), que, embora tendo uma votação bem maior na eleição de junho, sofreu uma queda de tal monta que o resultado passou por uma grande derrota.

A vida recente do SPD foi marcada por uma série de dissensões internas, depois da indicação de Kurt Beck como líder do partido, de seu curto mandato e de sua renúncia, motivada pela crise interna. Beck representava a ala esquerda do SPD, e sua indicação provocou uma série de comentários e acusações de “populismo” na imprensa e em outros meios do seu próprio partido, entre outras razões pela sua disposição de estudar a possibilidade de alianças eventuais com a Linke.

Sem Beck, à direção do SPD retornou às mãos de políticos mais conservadores, que defendem e integram a coalizão com o partido de direita, a União Democrata-Cristã de Ângela Merkel. Entretanto tais políticos, como Frank-Walter Steinmeier (o novo líder oficial), e Franz Müntefering, carecem de maior carisma. Isso, em parte, pode ajudar a entender o relativo fracasso do SPD na eleição para o Parlamento Europeu, junto com o clima de dissensão interna e o currículo do próprio partido, que, a partir do fim dos regimes comunistas deu uma guinada pronunciada para a direita e para a defesa de políticas neo-liberais que ele mesmo implementou na Alemanha, enfraquecendo a capacidade de barganha dos sindicatos (tradicional base de sustentação do SPD) e piorando as condições de trabalho dos próprios trabalhadores.

A Linke nasceu há dois anos atrás com a fusão de quatro blocos políticos: 1) dissidentes do SPD e de sua linha de defesa o ideário descendente do Consenso de Washington; 2) políticos ligados a frações do sindicalismo que deixaram de ter o SPD como referência; 3) remanescentes de correntes socialistas da Alemanha Oriental, inclusive do antigo Partido Comunista da RDA; 4) um conglomerado de tendências e movimentos socialistas, pequenos na maioria, e que representam tradicionalmente a esquerda mais radical. Os dois líderes máximos da Linke representam a dissidência social-democrata (Oskar Lafontaine) e os antigos socialistas (Lothar Bisky).

Outro político de grande expressão no partido, também procedente da antiga RDA, é Gregor Gysi. Gysi, advogado de formação, no passado defendeu dissidentes do lado oriental; mas também fizeram-lhe uma série de acusações de ter sido informante da Stasi, a polícia política do antigo regime.

O surgimento da Linke provocou uma maré de críticas na imprensa e em outros meios políticos mais conservadores levantando o argumento de “uma volta ao passado”, devido a ter o partido, ao contrário do SPD, acolhido o nome “socialismo” em seus programas e declarações. Além disso, a Linke marcou uma posição histórica por ser o único partido que defendeu, desde sempre, a retirada das tropas alemãs que fazem parte da presença da OTAN no Afeganistão. Ainda recentemente Gregor Gysi, perguntado sobre o tema por uma cadeia de TV alemão, respondeu que é posição do partido a idéia de que combater o terrorismo com uma ocupação militar só pode produzir mais terrorismo.

A vida da Linke tem sido marcada pelas tensões entre seu ideal socialista, que permanece no horizonte, e a necessidade de defender políticas imediatas dentro da moldura do capitalismo triunfante na Alemanha, na Europa e quase no mundo todo – com exceção de Cuba. A ala liderada por Lafontaine (e também por muitos políticos da ex-RDA) contempla, inclusive, a possibilidade de fazer alianças eventuais com o SPD – como acontece hoje, por exemplo, em Berlim, freqüentemente mencionada como a cidade da “aliança vermelha-vermelha (rot-rot)”, numa menção à esquerda do SPD, liderada pelo prefeito Klaus Wowereit, e aos “Linkes” que o apóiam.

Além da questão da aliança ou não com social-democratas (que em geral rejeitam a Linke, sobretudo na ex-Alemanha Ocidental (RFA), que desagrada sobretudo os grupos mais à esquerda, outros pontos de dissensão aparecem quando se trata de assumir uma crítica mais global e total do capitalismo como expressão principal do partido, ou uma série de propostas políticas mais ligadas ao contexto imediato, coisa que o partido tem feito preferencialmente, como adotar um salário mínimo (que não existe na Alemanha e é uma bandeira sindical significativa), melhorar o seguro desemprego e diminuir a idade exigida para a aposentadoria, que hoje é de 67 anos, e ainda ter uma política mais includente em relação aos imigrantes.

Refletindo essas tensões e a necessidade do partido ter propostas claras para a eleição de setembro, é que Gregor Gisy declarou, em meio a uma esfuziante ovação (que, esperemos, signifique realmente um passo adiante), que o partido precisava “se preocupar mais em atingir os eleitores, e se ocupar menos de nós mesmos”.


 

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