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21 DE FEVEREIRO DE 2009, SÁBADO
POR: Guilherme da Fonseca-Statter
A Propósito do Abandono do Keynesianismo por parte da União Europeia
Lei mais um dos interessantes artigos de Guilherme Statter sobre economia, desta vez a "A Propósito do Abandono do Keynesianismo por parte da União Europeia".
A Propósito do Abandono do Keynesianismo por parte da União Europeia

Em artigo recente, publicado na revista “Temas para el Debate” de Fevereiro de 2009, o Prof. Vicenç Navarro defende a tese de que o desemprego aumentou mais na União Europeia do que nos EUA, durante o período entre 1986 e 2005, porque a União Europeia teria abandonado o keynesianismo, ao contrário dos EUA que o teriam mantido.
Parece-me que estamos aqui em presença de uma tese, no mínimo, extremamente polémica... Até pode ser que seja essa intenção do autor: provocar a discussão em volta do tema “causas do desemprego” ao mesmo tempo que faz a crítica das instituições que são supostas fazer a regulação da economia da União Europeia. O autor coloca-se claramente numa posição de crítica às políticas económicas do neo liberalismo e critica severamente as teses neoliberais para explicar o aumento do desemprego (“rigidez do mercado de trabalho”... “protecção social excessiva”...). O autor diz-nos ainda que, pelo contrário, nos EUA haverá menos desemprego pelo facto de naquele país ter continuado a prevalecer aquilo a que chama de “keynesianismo de Estado”.
Assim, diz-nos a certa altura o seguinte:
¿Cuál es, pues, la causa de que el desempleo sea mayor en la UE-15 que en EE.UU.? La respuesta es fácil de ver; es el abandono por parte de las instituciones de la UE-15 de las políticas macroeconómicas keynesianas y la adopción, en su lugar, de las políticas liberales.

Por outro lado, parece fazer alguma confusão em volta do que se entende por keynesianismo. Desde logo importa esclarecer que as ideias relativas à intervenção do Estado ao nível da macroeconomia, ideias essas associadas com o keynesianismo, tinham já começado a ser desenvolvidas pela Escola de Estocolmo, designadamente por economistas como Knut Wicksell, Gunnar Myrdal ou Bertil Ohlin. Importa ainda e também referir o nome de Michal Kalecki, economista polaco que (também ele) antecedeu John Maynard Keynes no desenvolvimento de ideias sobre o funcionamento e a regulação da economia por parte do Estado. Por outro lado, importa esclarecer que “keynesianismo" avant la lettre foi também o da política económica de Hjalmar Schacht, ministro das finanças do Terceiro Reich de Hitler... O que nos remete para um dos aspectos do “keynesianismo” dos EUA ao longo das últimas décadas: o papel económico do complexo militar industrial, denunciado logo nos seus primeiros tempos pelo Presidente Eisenhower.
De facto, ainda Keynes não tinha publicado a sua obra magna (“A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”) e já o governo nazi aplicava as políticas económicas propostas por Keynes para resolver o problema do desemprego sistémico e reanimar a economia, designadamente o lançamento de grandes obras públicas (a rede de auto-estradas...) e, para o caso, o rearmamento maciço das forças armadas alemãs. Isto, naturalmente, para além de políticas fiscais e monetárias adequadas.
Defender a tese de que o desemprego tem sido menor nos EUA do que na UE, porque os EUA têm sido o país "mais keynesianismo", passando de lado em relação a coisas como a animação da economia por via do consumo desenfreado (e a crédito) à custa de um descomunal aumento do défice comercial é, no mínimo, extremamente polémico.
Por outro lado, o Prof. Vicenç Navarro parece passar de lado em relação ao facto de nos EUA existe uma população prisioneira (a qual não é contabilizada como "desempregada"...) muito maior do que nos países da UE. Parece ainda passar de lado em relação ao facto de nos EUA não haver um “motor estatal” da economia, a não ser o já referido complexo militar-industrial. Se considerarmos que uma das ideias mestras do keynesianismo é o conceito de “procura efectiva” (o poder de compra realmente existente...) e se considerarmos que nos EUA não há segurança social que se veja, quando comparada com a média dos países da União Europeia, então o nosso espanto aumenta ainda mais perante as teses defendidas pelo prof. Vicenç Navarro.
Aqui importa no entanto referir que a política fiscal e de Segurança Social (designadamente o financiamento dos pagamentos de subsídios de desemprego) nos EUA é substancialmente diferente do que é praticado na União Europeia. Enquanto que nos EUA há fluxos financeiros compensatórios a nível da Federação, no caso da União Europeia cada país trata de si... Tal diferença permite explicar alguma menor diferença nos níveis de desemprego entre os diversos Estados da federação norte-americana. Coisa que não acontece no interior da União Europeia.
Entretanto, o nosso autor parece passar de lado em relação ao que acontece na União Europeia, em que um dos motores da economia têm sido os gastos públicos em infra-estruturas (TGV, auto-estradas...), enquanto que nos EUA o que se tem verificado é a degradação de tudo e mais alguma coisa de infra-estruturas de interesse público: estradas, pontes, escolas...
Aparentemente a tese do Prof. Vicenç Navarro basear-se-ia no facto de o papel institucional da Reserva Federal incluir de facto uma preocupação objectiva de luta contra o desemprego. Ora bem, para contrariar as tendências naturais do sistema, que fez o anterior presidente do conselho de governadores da Reserva Federal, o sr. Greenspan?... Diminuiu a taxa de juro, na premissa não keynesiana de que os empresários iriam investir mais porque o dinheiro custava menos... Como explica a teoria keynesiana convencional, esse tipo de incentivo, que deixa a iniciativa dos investimento aos “animal spirits” dos empresários, seria assim como procurar "empurrar uma carroça com uma corda". Fico-me por aqui.


Guilherme da Fonseca-Statter

Fevereiro de 2009



 

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