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31 DE DEZEMBRO DE 2008, QUARTA-FEIRA
FONTE: Resistir.info.
Apelo de um conjunto de intelectuais de diversos países
O que vemos e o que esperamos: declaração de solidariedade com o levantamento na Grécia
"Queremos antes de mais nada dizer um sim colectivo ao levantamento na Grécia. Somos artistas, escritores e professores conectados neste momento por amigos e compromissos comuns. Estamos globalmente dispersos e estamos a observar, com esperança, de longe. Mas alguns de nós estão em Atenas e têm estado nas ruas, sentiram a fúria e o gás lacrimogéneo, e vislumbraram o espectro do outro mundo que é possível." Leia aqui, com alguns dias de atraso, o apelo de um conjunto de intelectuais de diversos países publicado originalmente na MRzine, da revista de esquerda americana Monthly Review, e traduzido pelo site Resistir.info.
O que vemos e o que esperamos:
declaração de solidariedade com o levantamento na Grécia


Queremos antes de mais nada dizer um sim colectivo ao levantamento na Grécia. Somos artistas, escritores e professores conectados neste momento por amigos e compromissos comuns. Estamos globalmente dispersos e estamos a observar, com esperança, de longe. Mas alguns de nós estão em Atenas e têm estado nas ruas, sentiram a fúria e o gás lacrimogéneo, e vislumbraram o espectro do outro mundo que é possível. Não clamamos por nenhum direito especial a falar e a sermos ouvidos. Ainda assim, temos algo a dizer. Pois isto é também um momento global para falar e partilhar, para ter esperança e pensa em conjunto...

Ninguém pode duvidar que o movimento de protesto e ocupação que se espraiou por toda a Grécia desde o assassinato pela polícia de Alexis Grigoropoulos em Atenas, a 6 de Dezembro, é um levantamento social cujas causas são mais profundas do que o obsceno evento que o desencadeou. A fúria é real e é justificada. As ruas cheias, as greves e manifestações, as escolas, universidades, municipalidades e estações de televisão ocupadas refutaram as primitivas tentativas oficiais de descartar a explosão social como o trabalho de um pequeno número de "jovens" em Exarchia, Atenas ou outros lugares na Grécia.

O que falta ver é se o movimento que agora emerge tornar-se-á uma força política efectiva – e, se o conseguir, se será contido dentro de um horizonte liberal-reformista ou objectivará uma transformação social e política mais radical. Se o movimento tomar o caminho liberal-reformista, então o máximo que pode ser esperado será a substituição de um partido corrupto no poder pelo seu corrupto competidor, acompanhado por umas poucas concessões simbólicas embrulhadas na retórica vazia da democracia. Isto certamente seria a cortina de fumo para uma onda reaccionária de novos poderes repressivos mascarados como medidas de segurança. Só exigências radicalmente democráticas e emancipatórias, claramente articuladas e resolutamente combatidas, poderiam impedir este resultado e abrir espaço para uma ruptura num sistema global destrutivo de dominação e exploração. Como nos alinhamos entre aqueles que experimentam este sistema como a negação violenta do espírito e potencial humanos, só podemos saudar uma tal ruptura como uma reafirmação da humanidade em face de uma política repressiva de medo.

Ao observar os acontecimentos na Grécia e o discurso oficial e dos media corporativos que se desenvolvem em resposta a eles, notamos a emergência do que começa a parece como um novo consenso da elite. A "perturbação violenta" na Grécia, dizem-nos com frequência crescente, é a revolta da "geração 700-Euro" – isto é, de jovens educados excessivamente com poucas perspectivas de uma posição decente e de rendimento. A solução, segundo este conto, é revitalizar a sociedade grega através de mais ajustamentos estruturais para tornar a economia mais dinâmica e eficiente. Uma vez que todos estejam convencidos de que serão bem vindos e integrados na realidade do consumidor e premiados com poder de compra proporcional ao seu investimento educacional, então as condições desta "revolta" terão sido eliminadas. Em suma, tudo estará bem e toda a gente feliz, uma vez que alguns ajustamentos tenham tornado o capitalismo na Grécia menos desperdiçador dos seus recursos humanos.

Já vimos esta estratégia antes, em resposta aos levantamentos nos subúrbios de Paris e em torno das "reformas" CPE [1] em França vários anos atrás. Na verdade, desde a década de 1960 isto tem sido a estratégia perene e preferida pelo poder para todos os levantamentos que se mostram relutantes em desaparecer de imediato. As suas funções são claras como cristal: canalizar o movimento neutralizando-o numa direcção liberal-reformista e provocar divisões por meio de iscos e promessas. Aqueles que não morderem o isco são isolados e podem seguramente ser alvo da repressão.

Esperamos que os que estão nas ruas e todos aqueles que com eles simpatizam e os apoiam fora da Grécia perceberão esta estratégia e a denunciarão. Estamos certos de que há muito mais em jogo, e muito mais a ser imaginado, esperado e combatido do que está a ser oferecido pela pílula sonífera neoliberal. E esperamos que, no espaço aberto pela fúria real e pela coragem do povo que deixou a passividade e a desesperança para trás, este movimento social organizar-se-á numa força política durável capaz de desdenhar tais seduções recuperativas.

À luz do exposto, declaramos abertamente que:

1) Estamos comovidos pela coragem e humanidade daqueles que reiteradamente encheram a ruas e estão agora a ocupar escolas e campus universitários em Atenas, Tessalonica, Patras e cidade por toda a Grécia. A nossa solidariedade para com eles não será abalada por tentativas oficiais para dividir o movimento entre "bons" e "maus" protestários. Face ao assassinato pela política de um jovem de 15 anos – apenas o mais recente numa longa série de tais assassinatos por responsáveis do estado – e em face da triturante desumanidade e implacável militarização da vida diária sob a guerra capitalista de todos contra todos, a destruição da propriedade privada não nos inquieta. Para sermos claros: Não endossamos a violência cega; de facto queremos que as acções se tornem mais selectivas, mais políticas, a cada dia. Mas sabemos quão desagregadora pode ser a fixação sobre a "violência" dos protestatários em momentos como este. Assim, recusamos avançar com tentativas de isolar certos grupos. Aqueles que actuam com tal roteiro permitem-se serem utilizados de um modo que entrega outros à repressão directa.

2) Apelamos à imediata libertação e amnistia incondicional para todos aqueles presos que participaram no levantamento – mais de 400 pessoas no momento em que isto se escreve.

3) Rejeitamos todas as tentativas de trivializar este levantamento reduzindo-o à revolta da excessivamente educada "geração 700-Euro".

4) Rejeitamos categoricamente qualquer tentativa de manchar este levantamento com a etiqueta de "terrorismo". O único terror de que é apropriado falar aqui é o terror em curso do estado infligido sobre os autonomistas de Exarchia, sobre imigrantes, sobre os pobres e vulneráveis e sobre aqueles que se recusam a conformar-se e submeter-se às negras e violentas condições da normalidade capitalista. Condenamos qualquer tentativa, agora ou no futuro, de aplicar draconianas leis "anti-terrorismo" e medidas contra aqueles que participam neste movimento.

Brett Bloom (Urbana)
Dimitris Bacharas (Athens)
Rozalinda Borcila (Chicago)
Peter Conlin (London)
Alexandros Efklidis (Thessaloniki)
Markus Euskirchen (Berlin)
Nathalie Fixon (Paris)
Bonnie Fortune (Urbana)
Kirsten Forkert (London)
John Fulljames (London)
Jack Hirschman (San Francisco)
Antoneta Kotsi (Athens)
Isabella Kounidou (Nicosia)
Henrik Lebuhn (San Francisco)
Ed Marszewski (Chicago)
Jasmin Mersmann (Berlin)
Anna Papaeti (Athens)
Csaba Polony (Oakland)
Katja Praznik (Ljubljana)
Gene Ray (Berlin)
Tamas St. Auby (Budapest)
Gregory Sholette (New York)
G.M. Tamás (Budapest)
Flora Tsilaga (Athens)

[1] CPE: Contrat première embauche, Contrato de primeiro emprego

O original encontra-se no MRzine, da revista de esquerda americana Monthly Review.

Esta declaração encontra-se em Resistir.info.


 

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