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28 DE DEZEMBRO DE 2008, DOMINGO
POR: Harold Pinter
Arte, verdade e política
Em homenagem ao grande dramaturgo e poeta inglês Harold Pinter (1930-2008), falecido a 24 de Dezembro, relembramos aqui o seu discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura de 2005, e que foi previamente gravado no hospital de Londres onde se encontrava internado e mostrado em vídeo na Cerimónia de Entrega daquele o prémio na Academia Sueca, em Estocolmo, a 7 de Dezembro daquele ano.
Em 1958, escrevi o seguinte:
«Não há grandes diferenças entre a realidade e a ficção, nem entre o verdadeiro e o falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou falsa; pode ser ao mesmo tempo verdade e mentira».

Creio que estas afirmações ainda fazem sentido, e ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Assim, como escritor, mantenho-as, mas como cidadão não posso; como cidadão tenho de perguntar: Que é verdade? Que é mentira?

A verdade na arte dramática é sempre esquiva. Nunca a encontramos completamente, mas a sua busca é compulsiva. A busca é claramente o que motiva o empenho. A busca é a nossa tarefa. Muitas vezes, tropeçamos com a verdade na escuridão, chocando com ela ou vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, frequentemente sem nos darmos conta disso. Mas a verdade é que na arte dramática não existe uma verdade única. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, recusam-se mutuamente, reflectem-se mutuamente, ignoram-se mutuamente, provocam-se mutuamente, são cegas umas em relação às outras. Às vezes, sentimos que temos na mão a verdade de um momento, então escapa-se entre os nossos dedos e perde-se.

Perguntaram-me com frequência como nascem as minhas peças. Não sei dizê-lo. Como também não posso resumir as minhas peças, a não ser para dizer que foi isto o que aconteceu. É o que elas dizem. É o que elas fizeram.

A maior parte das peças são geradas por uma frase, uma palavra ou uma imagem. A palavra é com frequência rapidamente seguida pela imagem. Darei dois exemplos de duas frases que na minha cabeça surgiram do nada, seguidas por uma imagem, seguidas por mim.

As peças são The homecoming e Old times. A primeira frase de The homecoming é «Que fizeste com a tesoura?» A primeira frase de Old times é «Escuro».

Em ambos os casos, não tinha mais informação.

No primeiro caso alguém estava, obviamente, à procura de uma tesoura e perguntava pelo seu paradeiro a alguém de quem suspeitava que provavelmente a tinha roubado. Mas eu, de alguma maneira, sabia que à pessoa interrogada pouco lhe importava a tesoura ou, já agora, o interrogador.

“Escuro”, tomei a palavra como a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a uma pergunta. Em ambos os casos vi-me compelido a dedicar-me ao assunto. Isto ocorreu visualmente, numa muito lenta graduação, da sombra para a luz.

Sempre começo uma obra chamando às personagens A, B e C.

Na peça que depois veio a ser The Homecoming, vi um homem entrar numa sala austera e fazer a sua pergunta a um homem mais jovem sentado num sofá feio a ler um jornal de corridas de cavalos. De alguma forma suspeitava que A era um pai e que B era seu filho, mas não tinha provas. Isto foi, no entanto, confirmado pouco depois quando B (que depois seria Lenny ) disse a A (que depois seria Max), «Pai, importas-te que mude de assunto? Quero perguntar-te uma coisa. O jantar que tivemos antes, como se chama? Como o chamas tu? Por que não compras um cão? És um cozinheiro de cães. A sério. Pensas que estás a cozinhar para cães». Assim, como B chama “Pai” a A, pareceu-me razoável assumir que eram pai e filho. E havia também claramente o cozinheiro e a sua comida não parecia ser muito valorizada. Queria isto dizer que não havia uma mãe? Não sabia. Mas, como disse a mim mesmo então, os nossos princípios nunca sabem os nossos fins.

“Escuro”. Uma grande janela. Um céu ao entardecer. Um homem, A (que depois seria Deeley) e uma mulher, B (que depois seria Kate) sentados com bebidas. «Gorda ou magra», pergunta o homem. De quem falam? Mas então vejo, de pé junto à janela, uma mulher, C (que depois seria Anna), iluminada por uma luz diferente, de costas para eles, com o cabelo escuro.

É um momento estranho, o momento de criar personagens que até esse momento não tinham tido existência. O que se segue é irregular, vacilante, mesmo alucinatório, ainda que por vezes possa ser uma avalanche imparável. A posição do autor é esquisita. Em certo sentido, não é bem acolhido pelas personagens. As personagens resistem-lhe, não é fácil conviver com elas, são impossíveis de definir. Certamente não podemos dar-lhes ordens. Até certo ponto, jogamos um jogo interminável com elas, ao gato e ao rato, ao adivinha quem é [blind man’s buff], às escondidas. Mas finalmente descobrimos que temos pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com uma vontade e com uma sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que somos incapazes de mudar, manipular ou distorcer.

Assim, a linguagem na arte continua a ser uma ambiciosa transação, areias movediça, um trampoli, poça gelada que pode ceder sob os pés, os do autor, em qualquer momento.

Mas, como disse, a busca da verdade nunca pode parar. Não pode ser suspensa, não pode ser adiada. Tem que ser enfrentada, ali mesmo, no acto.

O teatro político apresenta uma variedade totalmente diferente de problemas. Há que evitar os sermões a todo o custo. A objectividade é essencial. Deve-se deixar que as personagens respirem por sua própria conta. O autor não pode confiná-las nem constrangê-las para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceitos. Tem de estar preparado para abordá-las de diferentes ângulos, a partir de um sortido amplo e desinibido de perspectivas, talvez, ocasionalmente, apanhá-las de surpresa, mas dando-lhes mesmo assim a liberdade para irem aonde quiserem. Isto nem sempre funciona. E a sátira política, evidentemente, não respeita nenhum destes preceitos, na verdade faz precisamente o contrário, o que é a sua função primordial.

Na minha peça The birthday party creio que permito o funcionamento de um amplo leque de opções numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente me concentrar num acto de subjugação.

Mountain Language não aspira a essa amplitude de funcionamento. Permanece brutal, curta e feia. Mas os soldados na peça sim divertem-se com aquilo. Um por vezes esquece-se que os torturadores se aborrecem facilmente. Precisam de se rir de vez em quando para manter o ânimo. Isto foi, evidentemente, confirmado pelos acontecimentos de Abu Ghraib em Bagdade. Mountain Language dura só 20 minutos, mas poderia continuar hora após hora, uma e outra e outra vez, o mesmo padrão repetido de novo e de novo, uma e outra vez, hora após hora.

Ashes to ashes, por outro lado, dá-me a impressão de ter lugar debaixo de água. Uma mulher que se afoga, a sua mão que emerge das ondas, que se afunda e desaparece, procurando outras, mas não encontrando ali ninguém, seja acima seja debaixo de água, encontrando unicamente sombras, reflexos, boiando; a mulher, uma figura perdida numa paisagem de naufrágio, uma mulher incapaz de escapar ao destino que parecia pertencer apenas a outros.

Mas, como os outros morreram, ela também tem de morrer.

A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se aventura em nenhum destes territórios dado que a maioria dos políticos, segundo as provas disponíveis, não estão interessados na verdade mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas permaneçam na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, mesmo da verdade sobre as suas próprias vidas. O que nos rodeia é portanto uma enorme teia de mentiras, das quais nos alimentamos.

Como sabem todos e cada um dos presentes, a justificação para a invasão do Iraque era que Saddam Hussein possuía um perigosíssimo arsenal de armas de destruição maciça, algumas das quais podiam ser lançadas em 45 minutos, provocando uma terrível devastação. Garantiram-nos que isto era verdade. Não era verdade. Disseram-nos que o Iraque tinha relações com a Al Qaeda e que era co-responsável pela atrocidade do 11 de Setembro de 2001 em Nova York. Garantiram-nos que isto era verdade. Não era verdade. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Garantiram -nos que era verdade. Não era verdade.

A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem o seu papel no mundo e como decide incarná-lo.

Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar o passado recente, refiro-me à política externa dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Creio que é nossa obrigação submeter este período a pelo menos algum tipo de escrutínio, ainda que por força limitado ao tempo de que aqui dispomos.

Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e por toda a Europa de Leste durante o período do pós-guerra: a brutalidade sistemática, as atrocidades generalizadas, a implacável supressão do pensamento independente. Tudo isto foi amplamente documentado e verificado.

Mas o que eu aqui defendo é que os crimes dos EUA no mesmo período só nos foram contados de forma superficial, menos ainda documentados, ou admitidos ou reconhecidos sequer como crimes. Creio que isto deve ser encarado e que a verdade tem muito a ver com a situação em que se encontra o mundo actualmente. Embora limitadas, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as acções dos Estados Unidos por todo o mundo deixaram claro que tinham concluído terem carta branca para fazer o que quisessem.

A invasão directa de um estado soberano nunca foi, na verdade. o método favorito dos Estados Unidos. Na maioria dos casos, preferiram o que qualificaram como “conflito de baixa intensidade”. Conflito de baixa intensidade significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se lançássemos uma bomba sobre eles de um só golpe. Significa que infectamos o coração do país, que estabelecemos um tumor maligno e observamos o desenvolvimento da gangrena. Uma vez o povo subjugado – ou morto à pancada – o que vem a ser o mesmo – e os nossos próprios amigos, militares e grandes empresas, confortavelmente instalados no poder, vamos perante as câmaras dizer que a democracia triunfou. Isto foi um lugar comum na política externa dos Estados Unidos durante os anos a que me refiro.

A tragédia da Nicarágua foi um caso muito significativo. Escolhi apresentá-lo aqui como um exemplo potente de como os Estados Unidos vêem o seu papel no mundo, tanto nessa altura como agora.

Estive presente numa reunião na embaixada dos EUA em Londres nos finais dos anos oitenta.


O Congresso dos Estados Unidos estava prestes a decidir se daria mais dinheiro aos Contras para a sua campanha contra o estado da Nicarágua. Eu era um membro de uma delegação que vinha falar em nome da Nicarágua, mas a pessoa mais importante nesta delegação era o Padre John Metcalf. O líder dos representantes dos EUA era Raymond Seitz (então número dois do embaixador, mais tarde embaixador ele mesmo). O Padre Metcalf disse: «Senhor, dirijo uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, peça ao governo dos EUA que retire o seu apoio a esta revoltante actividade terrorista».

Raymond Seitz tinha muito boa reputação, a de um homem racional, responsável e muito bem informado. Era respeitadíssimo nos círculos diplomáticos. Ouviu, fez uma pausa, e depois falou com alguma gravidade. «Padre», disse, «deixe-me dizer-lhe uma coisa. Na guerra, as pessoas inocentes sofrem sempre». Houve um silêncio glacial. Olhamos para ele. Ele nem pestanejou.

As pessoas inocentes, de facto, sempre sofrem.

Por fim, alguém disse: «Mas neste caso as “pessoas inocentes” foram vítimas de uma horrível atrocidade financiada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso concede aos Contras mais dinheiro, acontecerão mais atrocidades deste tipo. Não é assim? Não é, portanto, o seu governo culpado de apoiar actos de assassinato e destruição contra os cidadãos de um estado soberano?»

Seitz manteve-se imperturbável. «Não concordo que os factos, tal como nos foram apresentados, sustentem as suas afirmações», disse.

Enquanto abandonávamos a embaixada, um assessor estado-unidense disse-me que apreciava as minhas peças. Não respondi.

Devo recordar-lhes que o então presidente Reagan fez a seguinte declaração: «Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores».

Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua durante 40 anos. O povo nicaraguano, liderado pelos sandinistas, derrubou este regime em 1979, uma impressionante revolução popular.

Os sandinistas não eram perfeitos. Tinham a sua quota-parte de arrogância e a sua filosofia política continha um certo número de elementos contraditórios. Mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Propuseram-se estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista. A pena de morte foi abolida. Centenas de milhares de camponeses vítimas da pobreza foram resgatados dos mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de propriedade de terras. Foram construídas duas mil escolas. Uma notável campanha educativa reduziu o analfabetismo no país a menos de um sétimo. Foram estabelecidos uma educação e um serviço de saúde gratuitos. A mortalidade infantil baixou um terço. A poliomielite foi erradicada.

Os Estados Unidos denunciaram estas realizações como subversão marxista-leninista. Do ponto de vista do governo dos EUA, estava-se a estabelecer um exemplo perigoso. Se fosse permitido à Nicarágua estabelecer normas básicas de justiça social e económica, se lhe fosse permitido subir os níveis de saúde e educação e alcançar a unidade social e o auto-respeito nacional, os países vizinhos levantariam as mesmas questões e fariam o mesmo. Havia evidentemente nessa época uma feroz resistência ao statu quo em El Salvador.

Falei anteriormente de “uma teia de mentiras” que nos rodeia. O presidente Reagan descrevia habitualmente a Nicarágua como um “calaboiço totalitário”. Isto foi tomado de forma geral pelos meios de comunicação, e certamente pelo governo britânico, como um comentário correcto e justo. Mas, na verdade, não havia registo de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não havia registo de torturas. Não havia registo de brutalidade sistemática ou oficial por parte dos militares. Nenhum sacerdote foi jamais assassinado na Nicarágua. Havia, na verdade, três sacerdotes no governo, dois jesuítas e um missionário da Sociedade Maryknoll. Os calaboiços totalitários estavam na realidade ali ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos tinham feito cair o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954 e estima-se que mais de 200.000 pessoas tinham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.

Seis dos mais eminentes jesuítas do mundo foram brutalmente assassinados na Universidade da América Central em San Salvador em 1989 por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Esse homem extremamente corajoso, o arcebispo Romero, foi assassinado enquanto dizia a missa. Estima-se que morreram 75.000 pessoas. Por que foram assassinadas? Foram assassinadas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e que devia ser realizada. Essa crença qualificava-os imediatamente como comunistas. Morreram porque se atreveram a questionar o statu quo, o horizonte infinito de pobreza, a doença, a degradação e a opressão que tinham recebido por herança.

Os Estados Unidos finalmente fizeram cair o governo sandinista. Levou alguns anos e uma resistência considerável, mas uma perseguição económica implacável e 30.000 mortos finalmente minaram o ânimo do povo nicaraguano. Estavam exaustos e novamente caídos na pobreza. Os casinos voltaram ao país. A saúde e a educação gratuitas acabaram. As grandes empresas voltaram para valer. A “Democracia” tinha triunfado.

Mas esta “política” não se restringia, de modo algum, à América Central. Foi conduzida por todo o mundo. Era interminável. E é como se nunca se tivesse passado.

Os Estados Unidos apoiaram e em muitos casos engendraram cada ditadura militar de direita no mundo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Refiro-me à Indonésia, à Grécia, ao Uruguai, ao Brasil, ao Paraguai, ao Haiti, à Turquia, às Filipinas, à Guatemala, a El Salvador, e, claro, ao Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 não poderá ser nunca expiado nem esquecido.

Centenas de milhares de mortes tiveram lugar em todos estes países. Aconteceram mesmo? E serão elas em todos os casos atribuíveis à política externa dos EUA? A resposta é sim, tiveram lugar e são atribuíveis à política externa dos EUA. Mas vocês não sabem disso.

Nunca aconteceu. Nada disto alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto acontecia, não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, imorais, cruéis, mas muito poucas pessoas falaram efectivamente deles. É preciso reconhecer isto aos Estados Unidos. Exerceram uma manipulação bastante clínica do poder em todo o mundo enquanto se disfarçavam como uma força ao serviço do bem universal. É um exercício de hipnose brilhante, até espirituoso, altamente bem sucedido.

Digo-vos que os Estados Unidos são sem dúvida o maior espectáculo do momento. Por brutais, indiferentes, desdenhosos e implacáveis que sejam, são também muito inteligentes. Como vendedores não têm rival, e a mercadoria que melhor vendem é o amor próprio. Trata ‑se de vencedores. Escutem todos os presidentes dos Estados Unidos na televisão dizer as palavras, “o povo americano”, como na frase “digo ao povo americano que é hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano que confie no seu presidente na acção que vai empreender em nome do povo americano”.

É uma estratagema brilhante. A linguagem é efectivamente utilizada para manter o pensamento descansado. As palavras “o povo americano” produzem uma almofada de tranquilidade verdadeiramente voluptuosa. Não precisamos de pensar. Basta recostarmo-nos na almofada. A almofada pode estar a sufocar a nossa inteligência e as nossas capacidades críticas, mas é muito confortável. Isto não se aplica, evidentemente, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres prisioneiros no vasto gulag de prisões, que se estende por todos os Estados Unidos.

Os Estados Unidos já não se incomodam com os conflitos de baixa intensidade. Não vêem nenhum interesse em ser reticente ou dissimulado. Põem as cartas na mesa sem pruridos. Estão-se nas tintas para as Nações Unidas, para a lei internacional ou para a discordância crítica, que encaram como impotente e irrelevante. Também têm o seu carneirinho que, balindo, os vai seguindo pela trela, a patética e submissa Grã-Bretanha.

Que aconteceu à nossa sensibilidade moral? Chegámos a ter alguma? O que significam estas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente utilizado nestes dias – consciência? Uma consciência que tem a ver não só com os nossos próprios actos, mas também com a nossa responsabilidade partilhada nos actos dos outros? Está tudo isto morto? Olhem para a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação durante três anos, sem representação legal ou o devido processo, tecnicamente detidos para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Não só é tolerada, mas mal é considerada pelo que se chama a “comunidade internacional”. Esta ultraje criminoso está a ser cometido por um país que se declara a si mesmo como “o líder do mundo livre”. Será que pensamos nos habitantes da Baía de Guantánamo? O que dizem sobre eles os meios de comunicação? Aparecem ocasionalmente – uma pequena menção na página seis. Eles foram consignados a uma terra de ninguém da qual, na verdade, podem nunca mais voltar. Neste momento, muitos estão em greve de fome, a ser alimentados à força, incluindo os residentes britânicos. Não há subtilezas nestes métodos de alimentação. Nem sedativos nem anestésicos. Só um tubo inserido no nariz e na garganta. Vomita-se sangue. Isto é tortura. Que disse o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros sobre isto? Nada. Que disse o primeiro-ministro britânico sobre isto? Nada. E porquê? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um acto pouco amistoso. Ou estais connosco ou contra nós. Assim, Blair cala ‑se.

A invasão do Iraque foi um acto de banditismo, um acto de evidente terrorismo de Estado, que demonstra um desprezo absoluto pelo conceito de direito internacional. A invasão foi uma acção militar arbitrária baseada numa série de mentiras e mais mentiras e numa grosseira manipulação dos meios de comunicação e, portanto, do público; um acto que visa consolidar o controlo militar e económico dos Estados Unidos sobre o Médio Oriente disfarçado – como último recurso – tendo todas as outras justificações caído por si mesmas – de libertação. Uma formidável afirmação de força militar responsável pela morte e a mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

Levámos tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, inumeráveis actos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte ao povo iraquiano e chamamos a isso “levar a liberdade e a democracia ao Médio Oriente”.

Quantas pessoas é preciso matar antes de se estar qualificado para ser descrito como um assassino em massa e um criminoso de guerra? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Por isso, é justo que Bush e Blair sejam levados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Mas Bush foi esperto. Não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Por isso, se algum soldado ou, por maioria de razão, político americano se achar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os marines. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e não está portanto ao abrigo da acusação. Podemos proporcionar ao Tribunal o seu endereço se estiver interessado. É o número 10 de Downing Street, em Londres.

A morte, neste contexto, torna-se irrelevante. Ambos, Bush e Blair colocam a morte bem longe, nas contas atrasadas. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos pelas bombas e mísseis americanos antes de a insurreição iraquiana ter começado. Estas pessoas não têm importância. As suas mortes não existem. São nada. Nem sequer estão registadas como estando mortas. «Não fazemos contagem de cadáveres», disse o general americano Tommy Franks.

No início da invasão foi publicada na primeira página dos jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a bochecha de um rapazinho iraquiano. «Um criança agradecida» dizia a legenda. Uns dias depois apareceu uma história com uma fotografia, numa página interior, de outro rapaz de quatro anos sem braços. A sua família tinha sido despedaçada por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. «Quando terei os meus braços de volta?», perguntou. A história foi deixada cair. Bem, Tony Blair não o segurava nos seus braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a camisa e a gravata quando se está a fazer um discurso sincero na televisão.

Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. São transportados às ocultas para os túmulos. Os funerais são discretos, em lugar seguro. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto da vida. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem ambos, em diferentes tipos de túmulos.

Eis um extracto de um poema de Pablo Neruda: Explico Algumas Coisas:

E uma manhã tudo estava ardendo
e uma manhã as fogueiras
saíam da terra
devorando os seres vivos,
e desde então foi o fogo,
foi a pólvora desde então,
e desde então o sangue.

Bandidos com aviões e com mouros,
bandidos com anéis e duquesas,
bandidos com monges negros abençoando
vinham pelos céus a matar crianças,
e pelas ruas o sangue das crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças

Chacais que o chacal recusaria,
pedras que o cardo seco morderia cuspindo,
víboras que as víboras odiariam!

À vossa frente eu vi o sangue
de Espanha levantar-se
para vos afogar numa só onda
de orgulho e de facas!

Generais traidores:
olhai a minha casa morta,
olhai a Espanha quebrada:
mas de cada casa morta sai metal a arder
em vez de flores,
mas de cada vão de Espanha
surge a Espanha,
mas de cada criança morta sai uma espingarda com olhos,
mas de cada crime nascem balas
que vos acharão um dia o lugar
do coração.

Perguntareis por que a sua poesia
não nos fala do sonho, das folhas,
dos grandes vulcões do seu país natal?

Vinde ver o sangue pelas ruas, ver
o sangue pelas ruas,
vinde ver o sangue
pelas ruas!

Deixem ‑me tornar claro que citando o poema de Neruda não estou de modo nenhum a comparar a República Espanhola com o Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum outro lugar da lírica contemporânea li uma descrição tão visceral e poderosa do bombardeamento de civis.

Disse antes que os Estados Unidos estão agora a ser totalmente francos ao porem as suas cartas na mesa. Esse é o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como “full spectrum dominance” [domínio total em todas as frentes]. Esta expressão não é minha, é deles. “Full spectrum dominance” quer dizer controle da terra, do mar, do ar e do espaço e todos os seus recursos.

Os Estados Unidos ocupam agora 702 bases militares em 132 países de todo o mundo, com a honrosa excepção da Suécia, claro. Não sabemos muito bem como chegaram lá, mas o facto é que estão lá.

Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares activas e operacionais. Duas mil estão em alerta permanente, prontas a serem lançadas em 15 minutos. Estão a desenvolver novos sistemas de força nuclear, conhecidos como destruidores de bunkers [bunk busters]. Os britânicos, sempre cooperativos, estão a planear substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. Para quem, pergunto-me, estão eles a apontar? Para o Osama Bin Laden? Para vocês? Para mimm? Para o Zé dos Anzóis? Para a China? Para Paris? Quem sabe? O que, sim, sabemos é que esta loucura infantil – a posse e a ameaça do uso de armas nucleares – está no cerne da actual filosofia política dos Estados Unidos. Devemos recordar a nós mesmos que os Estados Unidos estão numa permanente postura militar e não mostram sinais de a relaxar.

Muitos milhares, se não milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão manifestamente enojados, envergonhados e zangados com os actos do seu governo, mas tal como estão as coisas não são uma força política coerente – ainda. Mas a angústia, a incerteza e o medo que podemos ver crescer de dia para dia nos Estados Unidos não é provável que diminua.

Sei que o presidente Bush tem muitos escritores de discursos competentes, mas gostaria de oferecer-me como voluntário para o emprego. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer na televisão à nação. Vejo-o solene, com o cabelo cuidadosamente penteado, sério, confiante, sincero, frequentemente sedutor, por vezes empregando um sorriso irónico, curiosamente atraente, um autêntico macho.

“Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é mau. O Deus dele é um mau Deus. O Deus de Saddam era mau, só que ele não tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos as cabeças das pessoas. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia amante da liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Ministramos uma electrocução compassiva e uma compassiva injecção letal. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêem este punho? Esta é a minha autoridade moral. E não o esqueçam”.

A vida de um escritor é extremamente vulnerável, quase uma actividade nua. Não temos de chorar por isso. O escritor faz a sua escolha e fica colado a ela. Mas é verdadeiro dizer que estamos expostos a todos os ventos, alguns seguramente gelados. Está-se por conta própria, no isolamento total. Não encontramos refúgio, nem protecção – a não ser que se minta – em cujo caso, evidentemente, teremos assegurado a nossa própria protecção e, poderia argumentar-se, nos teremos transformado em políticos.

Referi-me à morte bastantes vezes esta tarde. Vou citar agora um poema meu chamado Morte

Onde foi o cadáver encontrado?
Quem encontrou o cadáver?
Estava o cadáver morto quando o encontraram?
Como estava o cadáver encontrado?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai ou filha ou irmão
ou tio ou irmã ou mãe ou filho
do morto e abandonado cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi abandonado?
Foi o cadáver abandonado?
Por quem tinha sido abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

O que o fez declarar morto o cadáver?
Declarou morto o cadáver?
Quão bem conheceu o cadáver?
Como soube que o cadáver estava morto?

Lavou o cadáver?
Fechou ambos os seus olhos?
Enterrou o corpo?
Deixou ‑o abandonado?
Beijou o cadáver?

Quando olhamos para um espelho pensamos que a imagem que nos enfrenta é exacta. Mas se nos movermos um milímetro, a imagem muda. Estamos na verdade a olhar para um interminável leque de reflexos. Mas algumas vezes o escritor tem de estilhaçar o espelho – pois é do outro lado do espelho que a verdade nos olha.

Creio que, apesar das enormes dificuldades que existem, uma firme, inquebrantável, feroz determinação intelectual, como cidadãos, para definir a autêntica verdade das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que nos diz respeito a todos. É mesmo imperativo.

Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não temos esperança de restaurar aquilo que estamos quase a perder – a dignidade do homem.


Discurso pré-gravado, apresentado em video na Academia Sueca, em Estocolmo, a 7 de Dezembro de 2005.

Tradução portuguesa: TMI-AP-JMB (a partir das versões em inglês e francês disponíveis em www.haroldpinter.org).

Reproduzido a partir do texto publicado no site TribunalIraque: Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque

Leia o texto em inglês e francês e veja o vídeo aqui


 

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