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31 DE OUTUBRO DE 2008, SEXTA FEIRA
Os Palavrões e a Política
Guilherme da Fonseca-Statter
Leia a crónica de Guilherme da Fonseca-Statter sobre as palavras interditas made USA. “Nos Estados Unidos … o combate ideológico foi de tal ordem bem sucedido, que ao longo das últimas décadas era “pecado mortal” pronunciar em público palavras que tivessem algo a ver com Marx, marxismo e socialismo. Os políticos da “ala esquerda” do Partido Democrata podiam, sem dúvida, procurar implementar políticas socializantes ou de cariz “proto-socialistas”. Não podiam era pôr-lhes o nome ou o adjectivo... Isso seria muito, mas mesmo muito, perigoso para qualquer carreira política. “
De acordo com Harry Schwartz (economista, jornalista e especialista em “sovietologia”), em fins do Verão de 1960 o sr. Allen Dulles, então director-geral da CIA, fez um discurso apelando a que nas escolas dos Estados Unidos fosse implementada e difundida formação escolar sobre, imagine-se bem, o comunismo... A ideia parece que era a de “conhecer melhor o inimigo a abater”. Mas parece também que os mais esclarecidos da direita norte-americana, não foram em conversas e o estudo das ideias de Marx foi confinado às Universidades (enfim, a algumas...) e, mesmo aí, remetido para departamentos específicos de estudo de curiosidades intelectuais ou de paradigmas alternativos.
Por outro lado lembro-me, ainda hoje, do título de um livro tipo pocket book que vi à venda na Livraria Portugal (Lisboa), nos idos de fins dos anos Cinquenta. Red Carpet: Socialism - the Royal Road to Communism. A ideia mestra era sempre a de pregar contra os perigos de quaisquer “desvios de esquerda” ou de coloração “vermelha” (ou apenas “cor de rosa”), indiciados sob a capa de uma perigosa social-democracia europeia. Aliás o autor, Ezra Taft Benson, era mesmo pregador e presidente de uma Igreja Cristã dos Santos do Último Dia, tendo sido também “secretário da agricultura” do governo de Eisenhower.
Há muitas vezes entre o pessoal de esquerda a ideia de que “a direita portuguesa é a mais estúpida do mundo”. Já agora assinalo que há o mesmo síndroma entre muitas outras esquerdas por essa Europa fora. Digamos que cada europeu de esquerda terá a sua “direita mais estúpida da Europa ou do mundo”... Por mim acho que não. Creio mesmo que se calhar as nossas esquerdas, não sendo de todo estúpidas (nem pouco mais ou menos) pecam por vezes por subestimar o adversário.
Erro fatal de avaliação em qualquer estratégia de acção política.
Se é verdade que os nossos economistas (os convencionais, é claro...) percebem só de modo enviesado o funcionamento da economia política, sabendo embora muito de econometria e de contabilidade nacional, também é verdade que os nossos empresários (estou a pensar ao nível dos países da Tríade, como um todo) sabem muito bem como é que funciona a economia. E, sem se preocupar muito com conceitos esotéricos como a “lei do valor” ou a “taxa de valor excedente”, lá vão paulatinamente tentando extrair o mais possível de valor excedente das suas “forças-de-trabalho”. Os mais esclarecidos até gostam de ter as ditas cujas, disciplinadas e enquadradas por sindicatos fortes e bem organizados. Até ao dia do “juízo final”, que é como quem diz, o dia da crise...
Pois as tais “direitas mais estúpidas do mundo” sabem bem, melhor que ninguém, que qualquer pequena guinada ou esboço de movimento “para a esquerda” é sempre complicado de “corrigir”, de modo a procurar inverter a marcha da História. Por exemplo, eles sabem que a educação pública ou qualquer esquema de segurança social pública, são pequenos passos em direcção a um qualquer “socialismo”. Eles sabem também que a criação e desenvolvimento de um qualquer Sistema Nacional de Saúde, ou ainda que a partilha dos custos de transportes públicos são também mais outros pequenos passos para o “socialismo”. Eles sabem isso tudo. E não gostam.
Pois, voltando aos Estados Unidos, pátria do individualismo do “cowboy solitário” que resolve todos os problemas sozinho, o combate ideológico – por parte de mais uma “direita mais estúpida do mundo” – foi de tal ordem bem sucedido que ao longo das últimas décadas era “pecado mortal” pronunciar em público palavras que tivessem algo a ver com Marx, marxismo e socialismo. Os políticos da “ala esquerda” do Partido Democrata podiam, sem dúvida, procurar implementar políticas socializantes ou de cariz “proto-socialistas”. Não podiam era pôr-lhes o nome ou o adjectivo... Isso seria muito, mas mesmo muito, perigoso para qualquer carreira política.
É assim que vejo, com espanto, reportagens nos jornais referindo que a Sra. Sahra Palin teria pronunciado a palavra “S” (assim mesmo...), por analogia com o outro palavrão proibido ou interdito nos discursos sociais de pessoas bem-educadas. Pessoas bem-educadas não dizem “f...” a famigerada “palavra F”. Pessoas igualmente bem-educadas não dizem “s.........”, a agora famigerada “palavra S”...
Entretanto, a Srª. Sarah Palin estava, claro, a acusar o sr. Barak Obama de querer praticar o “socialismo”!... Coisa que deveria horrorizar todo e qualquer bom cidadão norte-americano.
Descobrimos portanto, ainda que com algum gozo, que nos Estados Unidos a palavra SOCIALISMO passou a ser um palavrão impróprio de pessoas bem-educadas.
Para ajudar à festa dos termos impróprios para consumo público, uma locutora de uma cadeia nacional de televisão, entrevistando o sr. Biden (candidato democrata à vice-presidência), perguntou-lhe se ele estava de acordo com a citação “de cada um segundo o seu trabalho a cada um segundo as suas necessidades”... E a srª. locutora insistiu e clarificou “trata-se de uma citação de Karl Marx”!...
O sr. Biden, limitou-se a perguntar se aquilo era mesmo uma pergunta ou se era uma anedota...
Como o candidato democrata a vice-presidente é suposto ser católico militante, terá certamente preocupações de tipo social, mas muito naturalmente também não deve querer saber de Karl Marx para nada. Por outro lado, os norte-americanos foram paulatinamente endoutrinados na ideia singela de que lá nos States não há classe trabalhadora. Tirando os bilionários que não se podem (nem querem) esconder, é tudo “classe média”! É assim que quaisquer medidas de cariz social-democrata são sempre medidas anunciadas como sendo dirigidas ou elaboradas em benefício da “classe média”, à qual pertenceriam uns 95% dos eleitores americanos... O sr. Barak Obama, nunca fala em “trabalhadores” ou “povo”, mas sim, sempre, em “classe média”.
Seja como for, é caso para dizer que andam por aí no ar muitos e estranhos sinais de mudança. Como diz a sabedoria popular, não há fumo sem fogo. E, no que diz respeito à(s) marcha(s) para o socialismo, os cristãos de língua portuguesa diriam também, talvez, que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Ou ainda que “devagar (devagarinho...) se vai ao longe”.

Guilherme da Fonseca-Statter
28 de Outubro de 2008


 

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