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02 DE JANEIRO DE 2022, DOMINGO
FONTE: RC
POR: Carlos Brito
Vasco Gonçalves
Celebrou-se em 2021 o centenário do nascimento de Vasco Gonçalves, figura incontornável da revolução portuguesa e do movimento das forças armadas. Carlos Brito é uma testemunha (e ator) autorizada para aqui evocar o seu legado, e nos dar uma avaliação do significado desse período e da figura de Vasco Gonçalves. Figura que perdura no amor e na memória coletiva do povo por ter sido impulsionador das mais profundas transformações e democratização que o país viu em 8 séculos de história. O presente artigo foi escrito a 28 de dezembro de 2021.
No ano que está quase a terminar, ocorreu o centésimo aniversário do nascimento do General Vasco Gonçalves. A «Renovação Comunista» vê na efeméride uma boa oportunidade para lembrar o «companheiro Vasco» e prestar homenagem ao revolucionário, político e estadista para quem «política e moral andam de par».(1)

À data do 25 de Abril, Vasco Gonçalves era o oficial mais velho e mais graduado da Comissão Coordenadora do MFA que dirigiu o golpe histórico que derrubou a ditadura fascista. Mas não foi principalmente por isso que, uma vez também derrotadas as manobras de Spínola para se assenhorear do poder, os seus camaradas o elegeram para dirigir a governação do País no processo de transição para a democracia. Era também o mais preparado politicamente, e já tinha tido um papel preponderante na redação do Programa do MFA, «um programa de acordo com as reivindicações e aspirações do movimento antifascista português», como ele escreveu.

Por influência de um explicador, Vasco Gonçalves contactou muito jovem com o marxismo. É ele que recorda que na sua juventude, «dezoito, dezanove, vinte anos» «já aspirávamos à nacionalização dos principais meios de produção, já aspirávamos à reforma agrária.»(2)

Moderados pela sua condição de oficial do quadro permanente, estes ideais juvenis acompanharam-no toda a vida e estiveram presentes nas suas mais altas missões e grandes opções. Apesar disto, quando da sua nomeação para o cargo de primeiro-ministro, o General Costa Gomes, descreveu-o como «uma pessoa equilibrada, sem posições políticas radicalizadas».(3)

Primeiro-Ministro de quatro dos seis Governo Provisórios, três dos quais de coligação, entre o MFA e os principais partidos políticos (PCP, PS, PSD), de Julho de 1974 a Setembro de 1975, recaiu sobre os ombros do General a principal responsabilidade de conduzir o País, saído da ditadura, num entusiástico processo de libertação, inevitavelmente, turbulento e conflituoso.

Foram os seus governos que deram concretização política e institucional às transformações revolucionárias que proporcionaram uma significativa melhoria das condições de vida dos trabalhadores e de todo o povo e alteraram em profundidade a estrutura sócio-económica do País, ficando conhecidas pela designação de «conquistas da revolução.»

A parte mais avançada e polémica destas transformações – nacionalizações, reforma agrária, controlo operário – teve aprovação numa assembleia do MFA, liderada pelo General, que se seguiu à derrota da tentativa de golpe de Estado spinolista, de 11 de Março, e foi depois incorporada no programa do IV Governo Provisório.
Passado um mês, realizaram-se as eleições para a Assembleia Constituinte que deram a vitória ao PS, seguido do PPD. O PCP que era, no plano político, o principal impulsionador das transformações revolucionárias não foi além dos 12%. Este resultado deu grande força à contestação da parte do PS e do PPD da orientação política de Vasco Gonçalves e despoletou a divisão do MFA, com surgimento de um poderoso sector moderado – o «Grupo do nove».

O PCP e Vasco Gonçalves contrapuseram a essa contestação as teses de que as eleições tinham um objectivo único - a eleição da Constituinte – e que a «dinâmica eleitoral» não podia sobrepor-se, sem mais, à «dinâmica revolucionária». A realidade objectiva era, no entanto, a mudança da correlação de forças no País, pois o sector moderado, no terreno militar, e o PS e o PPD, no terreno político, além das suas próprias forças, tinham a empurra-los toda a direita, incluindo a reacção revanchista.

O PCP percebendo que nesta nova situação podia ser esmagado numa confrontação armada, distanciou-se de toda a conspiração militar, do esquerdismo e do próprio gonçalvismo. Ao mesmo tempo procurou a reaproximação com o «Grupo dos Nove» e com o PS, tentando assim restabelecer a fronteira que separava os defensores do 25 de Abril, que estes eram, e os seus inimigos da direita, incluindo a mais reacionária.

Pelo contrário, Vasco Gonçalves e os apoiantes procuraram aumentar as suas forças aliando-se ao esquerdismo, que tinha algum peso militar, e deixando-se influenciar e arrastar por ele. O General, agarrado à tese da superioridade da «dinâmica revolucionária» e desvalorizando do resultado das eleições para a Constituinte, foi ficando cada vez mais isolado politicamente e sobretudo no MFA, até ser destituído do cargo de Primeiro-Ministro e de todos os lugares de topo militar e obrigado a passar à reserva, depois do 25 de Novembro e do esmagamento da esquerda militar.

Estes acontecimentos mostram, pela negativa, como Vasco Gonçalves não era comandado pelo PCP, ao contrário de toda a intriga movida contra ele. Pela força das suas próprias ideias, foi aliado e convergiu com o PCP, mas nem sempre, como ainda melhor se evidencia no episódio seguinte. Álvaro Cunhal, baseado nas análises do PCP sobre a influência reacionária no Norte do País, foi sugeri-lhe o adiamento da data das eleições para a Constituinte. O General reagiu indignado, afirmando que a realização de eleições no prazo de um ano era um compromisso de honra dos militares do MFA e que iria ser cumprido. Foi tal a impressão que causou em Cunhal que este propôs a proibição de qualquer alusão pública do partido ao adiamento das eleições.

Até ao fim da vida, Vasco Gonçalves manteve contactos e diálogo com o PCP, mas sempre senhor da sua opinião. Não escondia que se sentia injustiçado por todo o processo que o levou à reforma compulsiva. Mas não era amargo. Como marxista, que sempre foi, acompanhava atentamente os acontecimentos no País e no mundo numa atitude de esperança no avanço das esquerdas. Sentiu-se recompensado com a Constituição da República que consagrou muitas das reformas de que foi um dos principais obreiros

Regozijou-se muito especialmente com a constitucionalização do princípio da «transição para o socialismo», o futuro que o General antevia e desejava para País e para a humanidade.
Carlos Brito

Notas

1.Famoso discurso do General em Almada. 2. «Vasco Gonçalves, um General na Revolução.» Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro. 3. «Ao Leme de Portugal, Vasco dos Santos Gonçalves» de Gabriel Mateus de Albuquerque.





 

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