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08 DE JANEIRO DE 2022, SÁBADO
FONTE: RC
POR: Cipriano Justo
MAIORIAS
Que maiorias poderão formar-se no próximo parlamento e onde estará a clivagem mais apropriada para servir de motor do processo político. O mais lógico é promover uma vasta convergência centrada nos interesses dos assalariados, pertençam eles à classe média ou à classe operária.
Eleitoralmente, o que vai estar em causa nas eleições de 30 de janeiro, mais do que o partido que irá ter a maioria dos votos é, na divisão esquerda/direita, qual delas poderá estar em condições políticas para formar governo. Embora a história raramente se repita, e quando se repete é para nos ensinar que não se devia ter promovido a sua repetição, é por isso que as esquerdas nem devem querer repetir o modelo de 2015, nem o de 2019. O primeiro, porque sendo diminuto acabou por ser a antecâmara do segundo. Ou seja, se o primeiro não se tivesse limitado a repor uma certa normalidade do modo de vida, tivesse ido mais além, naquilo em que passaria a existir uma nova normalidade, em que se tivessem verificado mudanças socialmente assinaláveis, as razões apresentadas para que o segundo só tivesse cumprido metade do seu mandato não teriam existido; estaríamos neste momento a equacionar as medidas indispensáveis para se continuar a ir mais além.

Se, nas democracias liberais, é no parlamento que se tomam as principais decisões quanto à governação do país, frequentemente têm de se realizar, entendimentos políticos, alianças, para que o governo tenha robustez parlamentar e possa exercer o seu mandato com os graus de liberdade suficientes para equacionar as alternativas mais desejáveis, e aplicá-las. Além do exercício aritmético de somar deputados para se obter um valor superior ao do adversário, o que deve interessar, sobretudo à esquerda, é o ponto de vista sobre que soluções devem ser aplicadas. As maiorias que se formam não terminam na contagem dos deputados que contribuem para essa maioria, continuam na sua representação social, e quantidade e qualidade estão intimamente associadas. Isto é, quem representa quem, que interesses estão a ser representados. Será legítimo fraccionar a resposta aos interesses consoante o peso eleitoral de cada parceiro ou, pelo contrário, as respostas devem ser equacionadas à luz do seu valor social? Dito de outra maneira, quanto da fracção numérica deve estar presente nas soluções políticas e quanta fracção social devem representar? Em teoria, a fracção quantitativa devia ser instrumental relativamente à fracção social, mas sabe-se que isso não se passa assim.

Na maior parte das alianças, ou equivalentes, os deputados alienam os interesses de quem representam e passam a defender, quanto muito, uma aproximação a esses interesses. Por exemplo, que base social representa o partido socialismo? Se dissermos que é maioritariamente a classe média, não andaremos longe da verdade. Mas esta classe média é, por outro lado, maioritariamente assalariada, com preocupações quanto ao rendimento, o emprego, os serviços de saúde, a escola, a segurança social, a mobilidade, o ambiente. Estas preocupações estarão assim tão longe das preocupações dos operários, eles também assalariados? Havendo distinções entre eles, não. Se for assim, o que se pede ao partido socialista é que represente bem a classe média, cuja mobilidade social é conhecida, e daí a sua instabilidade, uma vez que ascensão leva, por vezes, a mudanças na representação política. Será, então, na intersecção daqueles dois interesses, cuja área vai variando, que se pode encontrar o numerador do entendimento entre formações políticas de esquerda.

Percebe-se que o partido social-democrata deseje invadir o espaço eleitoral do partido socialista, uma vez que à sua direita a representação política começa a ficar saturada. Cabe, por isso, ao partido socialista travar esse assédio, não caindo na tentação de atrair o eleitorado à sua esquerda, porque não é essa a sua vocação, e quando o faz vai cair em contradições insanáveis, que só prejudicam os interesses de quem circunstancialmente pretendeu representar. Se fizer isso, serão os sociais-democratas a sofrer uma pesada derrota; o contrário, contará sempre com adversários cuja capacidade de resistência é conhecida. Não interessa, por essas razões, responder ao desafio dos social-democratas sobre a viabilização de governos minoritários, isso é um exercício cujas variáveis são, até 30 de janeiro, incógnitas, ainda não são o problema. Por mim, diria ao líder daquele partido que tivesse paciência, trinta dias passam num instante.

O que interessa, de facto, é, sem menosprezar os interesses de todos, cada partido dirigir-se concretamente à base social que reclama representar. Se fizer isso, se procurar convencer, no limite, esse eleitorado, mais facilmente se encontrará uma solução governativa para entendimentos com base nos interesses que cada um defende.


 

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