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18 DE SETEMBRO DE 2021, SÁBADO
FONTE: RC
A Renovação Comunista presta homenagem a Jorge Sampaio
Jorge Sampaio e a construção de uma maioria de convergência comunista e socialista
No desaparecimento de Jorge Sampaio, importa salientar a sua contribuição para o derrube da ditadura, a instituição do regime constitucional e a contribuição para a convergência na esquerda e entre comunistas e socialistas. Jorge Sampaio fica como exemplo de inquietação e busca constantes dos caminhos viáveis, de efetiva mudança e é esse debate e reflexão que se deve iniciar para honrar o seu legado levando por diante a luta pelo socialismo.
O país despediu-se de Jorge Sampaio com uma impressionante expressão de homenagem e pesar pelo falecimento de uma figura maior da construção da democracia.

A unanimidade aparente no momento de homenagem não deve fazer esquecer o que foi o percurso real de Jorge Sampaio, das suas escolhas concretas, com disputa de campos contrários, muitas vezes nada consensuais portanto.

Embora a análise histórica aguarde melhor oportunidade, a Renovação Comunista não pode deixar de sublinhar nesta hora que todo o sentido das escolhas de Jorge Sampaio foi favorável à geração de entendimentos entre o Partido Socialista e o Partido Comunista. Jorge Sampaio ajudou a construir um clima de convergência, com iniciativas audaciosas, como aconteceu na sua decisão de avançar com o PCP para a disputa da Câmara Municipal de Lisboa. Foi um ato deveras singular, ocorrido num clima internacional de grande retrocesso comunista no mundo com a implosão da URSS, precisamente no ano de 1989.

A valorização de entendimentos entre PS e PCP foi perseguida como desígnio indispensável, porventura como caminho único possível neste horizonte histórico, para se alcançar uma maioria à esquerda capaz de reformar o país e rasgar a perspetiva socialista.

Essa perspetiva, é hoje partilhada por gente do PS e por muitos no campo comunista e foi esse terreno que Jorge Sampaio cultivou, fertilizou e que irá frutificar desejavelmente.

Sempre que Portugal der passos no caminho de um país novo, mais socialista, o nome de Jorge Sampaio estará na galeria dos que impulsionaram o processo do entendimento e abriram caminho ao trabalho das novas gerações.

Sem dúvida que na contabilidade dos fins e dos meios na ação política, importa não só ajustar a mecânica da conexão e adequação entre uns e outros, mas importa sobretudo apurar os fins, isto é, apurar o modelo e o sonho do que será sociedade do futuro. Sem esquecer a tremenda exigência que esse futuro nos coloca como afirmou na sua entrevista de setembro de 2019 ao Público:” «O país não tem nem estrutura física, nem produtiva para, de repente, avançar para um amanhã que canta, qualquer.» Exigência que só poderá ser cumprida pelo esforço constante da teoria, e da análise crítica do que foi a prática da convergência de Jorge Sampaio. Tem de ser apurado o método político assente no desenvolvimento da nossa democracia e da nossa constituição, tem de ser consensualizado o espectro de políticas económicas e sociais que promovem o desenvolvimento solidário e respeitador do ambiente, tem de ser recriada a visão internacional da cooperação e da aproximação no espaço supranacional. Só com este trabalho será possível dar sequência à herança de Jorge Sampaio, começando por reconhecer que ele esteve muitas vezes na linha da frente, ombro a ombro com os mais avançados.

Esteve no movimento associativo unitário dos estudantes em 1962, esteve na unidade democrática, na CDE, em 1969 e em 1973. Foi dele a iniciativa de se avançar para a unidade PS com PCP na Câmara de Lisboa. E devemos contabilizar a convergência na primeira eleição presidencial em que os candidatos à esquerda, do PCP (Jerónimo de Sousa) e da UDP, desistiram a seu favor permitindo assim derrotar Cavaco Silva.

Esteve na frente na conjugação de esforços internacionais a favor da causa de Timor.

Se é verdade que Jorge Sampaio pertence à galeria dos que procuraram desfazer sectarismos e posições unilaterais que continuam a dificultar a convergência entre socialistas e comunistas, será útil continuar a debater as diferenças que dividem a esquerda, que dividiram por exemplo Jorge Sampaio e o PCP com quem divergiu de modo enfático em relação às posições anti união europeia acantonadas na sua direção.

Sampaio, sempre defendeu que a União Europeia deveria ser palco do terreno de luta da esquerda para a tornar num lugar mais aprazível para se viver com paz e solidariedade. Sampaio foi acompanhado por muitos comunistas, como é o caso da Renovação Comunista, que com ele partilham essa visão de luta por uma Europa da democracia e solidariedade. Neste tema deveras candente não foi Jorge Sampaio quem se colocou necessariamente do lado errado da história. E, se queremos aprender com o seu legado, socialistas e comunistas, todos teremos de superar as posições de autarcia nacional que implicariam na desconexão do nosso país da UE. Este persistente desacordo dificulta a construção de um vasto compromisso para a transformação do país.

As palavras de Jorge Sampaio continuarão a perdurar na construção de um Portugal novo na perspetiva do socialismo. Afirmou ao Público em 15.09.2019: “Temos feito um caminho que tem sido áspero, mas é um caminho se houver possibilidades de investimento público, políticas públicas, educação, ciência, tudo o que significa adaptar as leis do trabalho à estabilidade do trabalho, ao combate aos contratos precários.»

Os trabalhadores sabem instintivamente qual foi a contribuição de Jorge Sampaio para aprofundar a democracia no plano social, económico, cultural e do exercício da liberdade, e essa aguda compreensão explica a impressionante mobilização do país no momento da despedida.




 

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