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28 DE MARÇO DE 2021, DOMINGO
MATEMÁTICA E NÃO SÓ…
UMA EDUCAÇÃO PARA HOJE E PARA O SÉC. XXI
Fernando Sousa Marques reflete aqui acerca dos problemas da educação e equaciona uma linha para a sua superação. O seu ponto de partida não escamoteia o contexto social em que nos encontramos: "Claro que as desigualdades sociais, económicas e culturais são um gravíssimo obstáculo a uma Educação igual para todos. A ignorância e a pobreza são dos maiores males da Humanidade e causa e efeito do aumento das desigualdades." É com este ponto de partido que temos de intervir para mudar o estado actual das coisas.
"Educação não é memorizar factos mas treinar a cabeça para pensar"

Albert Einstein, 1879-1955

Este tema baila-me na cabeça há muitos anos. É tempo de, face aos desafios que enfrentamos, escrever sobre ele a pensar no que poderemos fazer hoje para uma melhor Educação no séc. XXI.

O arranque, no final do séc. XX, da Educação Pré-Escolar pública e a sua integração no Ensino Básico foi uma boa nova. É urgente alargar a iniciativa a todos os cantos do país.

Outros problemas há para resolver. Por exemplo construir uma sólida base de dados que permita analisar a realidade do mundo da Educação, comparando-a com o que se passa noutros países e promovendo o conhecimento do que se passava e passa e quais os projectos, que se desejam participados, para o futuro. Ou haver programas de formação permanente de docentes e outros profissionais que sejam sistemáticos e adequados às necessidades. Ou promover uma maior participação de pais e encarregados de educação, ou de personalidades da vida cultural, científica, empresarial, ou política de forma a melhor integrar as escolas, os seus alunos e professores, bem como as famílias, no meio social e económico em que vivem.

1. PASSAR NÃO É SABER!

Saber é ter consciência do que se sabe e do muito que não se sabe.

Muitas pessoas pensam que passar de ano, seja de que forma for, é bom. Mas não é. Como, também, não é, ou reprovar um aluno, ou passá-lo “de forma administrativa”. Num caso, é um exemplo de insucesso individual e colectivo. No outro, melhoram-se as notas artificialmente para “passar” o aluno e melhorar o chamado “sucesso escolar”.

A solução passa sempre por analisar a situação e sinalizar para o ano lectivo seguinte a necessidade de um acompanhamento especial e pedagogicamente adequado a cada caso. Mas isso, na esmagadora maioria dos casos, não se faz. E a situação agrava-se nos anos seguintes, generalizando-se o desinvestimento pedagógico, com claro impacte e repercussão no desempenho de muitos alunos e respectivas turmas.

Diziam-me os pais de um aluno “Nesta escola nem sequer se passam alunos! Despacham-se para o ano seguinte!”
Há excepções. Em algumas escolas há programas de apoio.

Noutras há experiências piloto que vão desde considerar o ano lectivo dividido em semestres, até ao estudo transversal e multidisciplinar, num ambiente de participação e crescimento cultural e emocional.

Excepções que têm mostrado como é importante encontrar novas vias e métodos para ajudar a aprender e ir aprendendo também.

Mas em muitas escolas ainda se vivem os velhos paradigmas da escolástica dos séculos XIX e XX. Um professor no estrado a falar para vinte ou trinta alunos como se fossem iguais, estivessem a ouvir a mesma coisa, igualmente interessados ou participativos, todos (!?) empenhados a “empinar regras” que não sabem explicar.

2. ENSINO BÁSICO PARA TODOS!

Claro que as desigualdades sociais, económicas e culturais são um gravíssimo obstáculo a uma Educação igual para todos. A ignorância e a pobreza são dos maiores males da Humanidade e causa e efeito do aumento das desigualdades.

Como construir uma escola inclusiva onde, à partida, há excluídos?

Com o alargamento do período de ensino obrigatório para doze anos, criaram-se responsabilidades acrescidas nas mais diversas áreas a ter em conta para incluir o universo de estudantes nos objectivos definidos. O que tem acontecido é que, chegados ao fim do Ensino Básico (9º ano), há uma significativa percentagem de alunos que não estão preparados para decidir se prosseguem os seus estudos no Ensino Profissional ou na Via Académica e ainda menos preparados para decidir que futuro profissional desejam e completamente impreparados para conseguirem sucesso em qualquer dos caminhos escolhidos.

Um dos problemas tem a ver com a falta de profissionais de orientação vocacional nas escolas. Este papel é exercido por psicólogos devidamente preparados para o efeito. São poucos. Muitas escolas não dispõem destes serviços e, portanto, falha o apoio na orientação vocacional e os pais (que têm condições) optam, muitas vezes, por fazê-lo particularmente.

Por outro lado, a generalidade das famílias desconhece dados estatísticos básicos que as poderiam ajudar a tomar decisões: Qual a empregabilidade expectável de cada uma das opções? Qual a percentagem de alunos que perdem oportunidades de trabalho e de vida ao optar por não entrar no Ensino Profissional? Qual o peso dos alunos que entram no chamado Ensino Secundário e que não o completam ou, concluindo-o, não têm acesso a qualquer tipo de ensino superior? Qual tem sido o futuro de todos aqueles que ainda acabam “cursos superiores” sem qualidade e sem empregabilidade?
Existem estudos do Ministério da Educação, do Conselho Nacional da Educação e de organismos internacionais como a OCDE. Apesar de existirem não são dados a conhecer a alunos, encarregados de educação, professores, escolas. O que falha na comunicação destes dados? Por que não são sistemática e amplamente divulgados?

3. ENSINO PROFISSIONAL. QUE FAZER?

Há que repensar o Ensino Profissional público e aprofundar as relações com o privado. Divulgar os seus êxitos (por exemplo, em matéria de empregabilidade). Ligá-lo, cada vez mais, à Economia, às Empresas, ao apoio a iniciativas individuais, cooperativas ou outras.

Mas, há que redefinir, também, objectivos e currículos no ensino público. Estudar e divulgar exemplos de outros países mais desenvolvidos e prósperos que o nosso e onde há mais alunos a prosseguirem os seus estudos por essa via. Divulgar mais que, iniciado esse processo de aprendizagem e crescimento, não estão coartados caminhos para uma carreira universitária.

4. SECUNDÁRIO OU PRÉ-UNIVERSITÁRIO?

A palavra “secundário” tem, só por si, a carga negativa de parecer uma coisa não importante, desprezável, secundária relativamente ao que é fundamental. Tornou-se um hábito chamar secundário ao que vem a seguir ao básico. Parece-me que é altura de encontrar uma alternativa.

“Ensino pré-universitário”, nome que me parece o mais claro e motivador, tem o risco de diminuir a importância de ser um período complementar a toda a formação que deverá fazer parte do período de ensino obrigatório. “Vestibular” chamam-lhe no Brasil.

“College” em vários países, particularmente de formação anglo-saxónica. “Lycée” em França e outros países. “Gymnasium” noutros.

Se não surgir melhor ideia, a de lhe chamar “Ensino pré-universitário”, em vez de “Secundário”, teria a vantagem de tornar claro que é um período de transição, um traço de união entre uma aprendizagem global e preparatória e o mundo do trabalho, da investigação, ou da especialização baseada numa base cultural sólida e motivadora.

5. MATEMÁTICA. MUITO POR FAZER.

Como educador de matemática, preocupado com os métodos pedagógicos para a compreensão e utilização do seu potencial, saliento um trabalho de anos realizado por um Grupo de Trabalho de Matemática, coordenado por Jaime Carvalho e Silva, Despachos nº 12530/2018 e nº 7269/2019, e publicado em 2020 com o nome “Recomendações para a melhoria das aprendizagens dos alunos em Matemática”.

Das 22 recomendações finais que, obviamente, apontam para a necessidade de um trabalho aprofundado, saliento “Um novo currículo de Matemática global e alinhado... com dois níveis de decisão (nacional e local)... orientado por princípios (universalidade, coerência interna, relevância, foco, nível cognitivo elevado)... baseado na compreensão matemática... que assuma o valor da avaliação pedagógica de natureza formativa... desde a educação pré-escolar, até ao final do período de educação obrigatória (18 anos)... apoiado por recursos adequados... com avaliação em prol do sucesso... acompanhado de programas de formação contínua de docentes...”

É necessária uma forte aposta na formação de professores de Matemática e... Português. Há muitas pessoas, e alunos em particular, que têm dificuldades em interpretar um texto ou um conteúdo, ou exprimir correctamente um raciocínio ou um desejo. As escolas superiores de educação devem actualizar os seus currículos pedagógicos, ensinar novas e multidisciplinares metodologias activas e integradoras, centradas no aluno e nos resultados da aprendizagem e não apenas na avaliação. Sem bons professores (de Matemática e, também, de Português) não se formam bons alunos!

Actualmente, no ensino obrigatório, há várias Matemáticas. A “básica”, até ao 9º ano de escolaridade. E, depois, a “Matemática A”, a “Matemática B”, a “Matemática Aplicada às Ciências Sociais”, a “Matemática para o Ensino Profissional”.

É tempo de definir um novo quadro de ensino da Matemática que organize e sistematize. Que mude e valorize o papel e a importância do Ensino da Matemática. Que aproveite e substitua experiências anteriores, nomeadamente o “Programa e Metas Curriculares”, as “Orientações de Gestão Curricular”, as “Aprendizagens Essenciais”.

A vida ensina-nos que “depressa e bem não há quem”. Não é tarefa para concluir no prazo de uma legislatura. Deve ser por isso participada pelo maior número de agentes da cultura, da educação, do meio político, ou sindical, num enorme esforço que atravesse, na diagonal, a sociedade portuguesa.

Uma última observação apresento desde já. A minha experiência tem mostrado, por exemplo, que o actual programa de Matemática A não é adequado para alunos que queiram prosseguir os seus estudos em áreas como a Gestão, a Economia, as Finanças, ou as Ciências Médicas. O ensino da Matemática na fase posterior à do Ensino Básico pode e deve possibilitar haver uma base comum para todos os alunos (por exemplo, dois ou três semestres) e subdividir-se, nos semestres finais, em várias “Matemáticas”.

Nestes últimos semestres poderia haver várias “Matemáticas Aplicadas”, ideias que apresento para ajudar a motivar as necessárias análises e discussões.
A actual Matemática A para as áreas da própria Matemática, das Engenharias, da Física. A actual Matemática B para as áreas das Artes, ou Arquitectura. A actual Aplicada às Ciências Sociais para estas e para as Humanidades. A que é leccionada, actualmente, no Ensino Profissional para as Actividades Industriais, depois de uma revisão profunda.

E “nasceriam”, por exemplo, uma Matemática Aplicada às Ciências Médicas e uma Matemática Aplicada à Gestão, à Economia e às Finanças.

Sesimbra, Dezembro de 2020

Fernando Sousa Marques, Engenheiro (fernandosousamarques@gmail.com)


 

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