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28 DE MARÇO DE 2013, QUINTA FEIRA
Discurso de António Borges Coelho
Diria, como no poema de Bertrol Brecht, que Carlos Brito entrou “nas cidades no tempo da desordem /quando lá reinava a fome.”/Veio “para entre os homens no tempo da revolta / e com eles se revoltou.” Veio para entre os homens no tempo em que a Europa se erguia dos escombros da Segunda Guerra Mundial e Portugal continuava faminto, humilhado, com a pide, os tribunais plenários, a legião, os bufos a garrotarem as liberdades e a criatividade dum povo. Nesse tempo Carlos Brito entrou na revolta e nas perigosas lutas pela liberdade. Passaram mais de 60 anos, década após década, vieram os tempos da grande mudança: não mais suspendeu o combate político.
Nas primeiras duas décadas e meia a luta foi duríssima. Carlos Brito desenvolveu atividades culturais e políticas, ditas legais; conheceu a clandestinidade, as prisões, os espancamentos, as gavetas, a tortura da estátua; fugiu do Aljube; atravessou mais de que uma vez, clandestinamente, as fronteiras do país; lutou cá dentro e lá fora; era membro da Comissão Executiva do PCP, no interior, quando, ao som da Grândola, Vila Morena, os capitães, os soldados e o povo varreram do poder os senhores das trevas.

Durante um ano e meio o povo foi “quem mais ordena.” Em Novembro muitos homens e mulheres choraram nas ruas. No fim, a Assembleia Constituinte estabeleceu as regras de uma democracia avançada, impressas na Constituição da República Portuguesa, hoje nosso programa e baluarte. Carlos Brito integrou os deputados constituintes como vice-presidente do Grupo Comunista e participou durante 16 anos no debate parlamentar. Dirigiu o jornal Avante. Em 1980 foi candidato à presidência da República. Em 1997 recebeu a Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2004, nos trinta anos do 25 de Abril, atribuíram-lhe o Grande Oficialato da Ordem da liberdade.

Carlos, nesta noite de 9 de Fevereiro, em que completas oitenta anos, nós, teus amigos, admiradores e camaradas viemos à Casa do Alentejo, a velha casa onde na década de cinquenta se entoavam poemas e canções revolucionárias, trazer-te a nossa amizade e celebrar a tua vida.

A política marcou os teus passos, mas não preencheu todos os teus sonhos. Escreveste livros: de poemas, contos, uma novela, um romance, ensaios.Em Tempo de Subversão. Páginas Vividas da Resistência, tocaste profundamente os leitores com os episódios da tua vida revolucionária e ajudaste a compreender o contexto social em que iriam desenrolar-se os acontecimentos do 25 de Abril. Em Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente, o teu livro mais denso, testemunhas por dentro a inteligência que, durante anos de combate, induziu o PCP de Álvaro Cunhal a escolher este caminho e não outro no momento em que as ações ainda estavam para entrar na história.

Carlos Brito teve o seu batismo de fogo em Dezembro de 1953, quando, como membro do MUD Juvenil, foi ao aeroporto esperar a escritora Maria Lamas, a mãe dos exilados portugueses de Paris. Regressava da União Soviética, o país proibido. Muita gente foi esperá-la ao aeroporto para a proteger. A Pide estava lá à caça e prendeu mais de cinquenta pessoas, entre elas, o poeta Alexandre O´Neil, membro do MUD Juvenil, António José Saraiva e Keil do Amaral.

O MUD Juvenil formou os principais quadros políticos da nossa geração. Lembro essa organização livre, ingénua, transbordante de generosidade e esperança. Declarava-se legal mas vivia numa semilegalidade ou semiclandestinidade. A Pide estava sempre no seu encalço, prendia, espancava, levava a julgamento. Matou o jovem Alfredo Lima numa praça de jornas em Alpiarça, chicoteou a cavalo-marinho o jovem de 16 anos José Augusto Seabra, futuro embaixador de Portugal na UNESCO. O MUD Juvenil organizava e mobilizava os jovens em torno dos seus problemas, na Universidade, nas coletividades, nas fábricas, nos campos. Sem cuidar de saber se eram católicos ou comunistas ou de qualquer outro ideal ou crença. Boa parte do tempo, o movimento dirigia-se por si próprio, jovens a mobilizar e a organizar jovens, mesmo quando minados por frações clandestinas. A liberdade e a alegria ficaram bem expressas nos Festivais da Juventude de Vila Franca e do Laranjeiro. A Geração dos Anos Cinquenta teve menos visibilidade mas esteve no terreno com muita luta e sacrifício.

O Partido Comunista Português saiu ao caminho de Carlos Brito numa casa junto às Escadinhas da Mãe de Água: - “É uma grande honra que o Partido te concede.” As palavras eram do escultor José Dias Coelho, assassinado, em 1961, a tiro, numa rua de Alcântara. Rua dos Lusíadas se chamava. Nome simbólico. José Dias Coelho era um lusíada camoniano. Era um homem de tipo novo, fraterno, apaixonado pela sua arte, com os olhos voltados para Portugal e o mundo.

Um ano e meio mais tarde tornavas-te funcionário do Partido Comunista Português. Chamou-te o camarada Abel, de seu nome Américo de Sousa, um rapaz de Alfama, que aos 16 anos foi inaugurar o Campo de Concentração do Tarrafal. Em Outubro de 1956, à Rua António Pedro, tentaste escapar ao cerco. Eram muitos os pides e empurraram-te para dentro da ”ramona." Fecharam-te nas gavetas do Aljube, cela 7. Sujeitaram-te à tortura do sono. Caxias. De novo, o Aljube.

Os presos mais perigosos foram transferidos para o último andar frente aos muros e à rosácea da Sé de Lisboa. Por fora da tua janela gradeada corria o algiroz. Aguentaria o peso dum homem? Como serrar a grade? Como disfarçar o ruído? Uma corda de lençóis fez-vos deslizar para o telhado vizinho. Seguistes pelos telhados até a um segundo prédio e saltastes para a varanda dum andar devoluto. Fácil? Descestes as escadas. A ronda continuava no seu giro. Subistes a pé até à Graça. O teu nome, o do Américo de Sousa, o Abel, e para a estória ficar completa, o do pobre Verdeal, que não aguentaria mais tarde o tormento das gavetas, ficarão ligados duradoiramente á história da velha prisão medieval.

Carlos Brito viveu 10 anos em “casas clandestinas”. Andou com elas às costas. De cada esquina, por mais estudados e cronometrados que fossem os passos, podiam saltar as brigadas da Pide. Disfarces, chapéus, olhos vendados, reuniões dias e noites, a alegria das pequenas vitórias, mas também o chamamento da vida legal, as saudades da família, dos amigos, do teatro, do cinema, os sonhos que sempre ardem nas nossas entranhas.
Em Junho de 1959, à Picheleira, os pides caíram de novo sobre ti à coronhada pelo corpo e a cabeça. O sangue correu abundantemente. No caminho até ao Hospital de São José ouviram-se os teus gritos de protesto. Os médicos não deixaram entrar os pides na sala de operações. O estrondo propagou a nova da tua prisão.

Trilhaste de novo o caminho do calvário: Aljube, Caxias, julgamento, Fortaleza de Peniche, Ao todo, oito anos cortado da vida. Os dias seguiam-se aos dias, não havia marcas para o tempo. “Assim se temperou o Aço” titulava um romance, devorado pelos jovens dos anos Cinquenta.

Ainda mal respiravas o ar da liberdade, quando, no café da Place de Clichy, em Paris, Álvaro Cunhal te desafiou outra vez para o combate. De novo a clandestinidade, a travessia das fronteiras, a direção clandestina da luta até à madrugada libertadora.
Neste últimos trinta e nove anos, muitas vezes a esperança subiu e desceu no mastro da vida, muitas vezes a alegria saltou de graça dos nossos olhos e das nossas mãos. A tecnologia mudou as nossas vidas, mudou, mas nos sentidos que as vontades coletivas e contraditórias em última instância determinaram.

A tecnologia mudou-nos. No princípio dos anos Quarenta, ouvi pela primeira vez, em Trás-os-Montes, uma voz a sair da rádio, no meio do nada. Agora, se as vozes e as imagens ainda nos espantam, diria que em todo o lado nos perseguem, nos isolam, nos submergem, nos infantilizam, nos enganam. Mas também nos mobilizam. Assistimos ao vivo à violação diária dos compromissos, ao roubo sobre o trabalho, ao ajoelhar face ao capital financeiro entregando-lhe a nata dos nossos impostos.

Melhores ou piores, os governantes sempre declararam que estavam ao serviço do povo, que procuravam o seu bem-estar. Agora dizem-nos que a grande reforma consiste em empobrecer os cidadãos, em aumentar sem pagamento a jornada de trabalho. E que o desemprego, expulsando os jovens, abre novas oportunidades. Dizem e fazem. Todos os dias sentimos os de cima empurrarem os de baixo cada vez mais para baixo; todos os dias vemos milhares e milhares de famílias lançadas para a sopa dos pobres, para o abandono na vida e na morte. O lucro máximo deixou de ser um meio para se tornar o fim a que submetem todos os valores.

Esta é a tua festa, Carlos! Ela reuniu gente dos mais diferentes quadrantes que quiseram manifestar-te a sua amizade e admiração. Gostaria que as minhas palavras deixassem no ar um canto de alegria. Alegria no combate. Este não é o tempo de revolver as feridas ou de ficarmos sentados no conforto das nossas crenças. Este é um tempo de abrir caminhos novos que libertem Portugal da mentira e das amarras que o sufocam.


 

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