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16 DE NOVEMBRO DE 2008, DOMINGO
FONTE: Dirio de Notcias, 16/11/08
POR: Manuel Alegre
"No me admira que surjam novas foras polticas direita e esquerda"
Transcrevemos, pela sua grande importncia poltica, a entrevista que Manuel Alegre deu a Joo Marcelino, do Dirio de Notcias, e Paulo Baldaia, da TSF, e que vem publicada no DN.
expectvel que apresente uma moo alternativa de Jos Scrates no prximo congresso do PS?

No, no, isso j disse que no fazia... J fiz isso uma vez, para abrir um espao de debate. Isso foi bom para o prprio Jos Scrates, projectou o PS na vida pblica, contribuiu at, estou convencido, para o prprio resultado que o partido obteve [nas eleies legislativas]. Mas h um tempo para tudo. Depois j fui candidato Presidncia da Repblica... H um tempo e uma idade para tudo.

Vai ao congresso discutir ideias?

Tambm preciso dar lugar aos mais novos, sobretudo na vida partidria. preciso que se criem alternativas. Uma das minhas preocupaes que no vejo isso acontecer nos congressos federativos.

Mas no congresso que pode discutir a linha que est a seguir o PS?

Mas antigamente havia alternativas! Fui das primeiras direces do PS, e o Mrio Soares nunca teve, mesmo no perodo decisivo da democracia, em 75, as maiorias que outros secretrios-gerais tiveram.

Porque o partido era mais democrtico?

O partido era mais aberto, havia mais convices, mais ideologia. As pessoas pensavam. No tinham medo de pensar pela sua cabea. Havia diferentes sensibilidades, diferentes correntes, ningum tinha medo! Havia enfrentamentos. Lembro-me de discusses tempestuosas dentro do PS. claro que todo o Pas e toda a sociedade viviam dessa maneira e as coisas projectavam-se assim dentro dos partidos.

Mas deixe-me insistir na pergunta: no importante ir ao prximo congresso discutir as alternativas do PS?

Fiz aquilo que tinha a fazer em 2004. Teria muita coisa a contar sobre isso (sorriso), mas ficamos por aqui. Foi muito interessante o debate que travmos, e isso foi um bom treino at para o prprio Jos Scrates, foi uma coisa muito animada que dignificou o PS. Mas agora h outros mais novos, as pessoas tambm tm de aprender que a poltica se faz com rupturas, se faz com risco, se faz com ousadia! uma coisa que me preocupa na nova gerao: aqueles que vm das juventudes so muito programados, so muito prudentes, fazem contas a tudo.

Fazem contas aos lugares que podem ter no futuro?

Fazem contas aos lugares, fazem contas se a altura prpria ou se no a altura prpria... As coisas acontecem. Ou se tem um destino, ou no se tem um destino. E tambm se cria o destino. As coisas acontecem muitas vezes por inspirao e por revelao. Nunca programei ser candidato Presidncia da Repblica, nem nunca esteve nos meus horizontes, ao contrrio do que as pessoas...

Desculpe interromp-lo, mas h quem diga que muitas das suas posies so pautadas com o cultivar desse espao, para poder voltar a ser candidato Presidncia da Repblica.

Mas esto enganados. So pessoas que pensam pela sua cabea, mas esto enganados. Naquela altura fui porque havia uma forte corrente, como os resultados o demonstraram, nesse sentido, e porque entendia tambm que era um dever cvico faz-lo, responder s solicitaes das pessoas.

Falou num dfice da oposio. H quem diga que isso acontece porque o PS invadiu a direita, e portanto a oposio tem estado a fazer-se esquerda. Acha que efectivamente as polticas do PS invadiram o territrio que outrora era do PSD?

O PSD, que um partido que vive muito do poder, tem uma crise de liderana h muito tempo. Teve um grande lder, o Dr. S Carneiro, depois o Dr. Cavaco e podia ter tido uma lder que por um conjunto de razes ficou no caminho, que era a Dr. Leonor Beleza, e foi pena para a democracia. O PSD tem tido um problema de liderana porque um partido que no tem uma ideologia clara. Isso foi a sua fraqueza e tambm a sua fora. Vive muito da fora ou do carisma dos lderes, que no encontrou... E est hoje muito dividido...

Mas esquerda a oposio est forte, ou no?

Penso que h um sentimento de esquerda no Pas, e h grandes descontentamentos. Penso que h movimentos sociais que ainda no tiveram uma expresso poltica. E quando falo da esquerda...

E o PS ter capacidade de virar esquerda ainda?

No fcil. Infelizmente, no fcil.

Se isso no acontecer, votar PS na mesma, em 2009?

Mas o problema que o eleitorado do PS, grande parte do eleitorado do PS, mesmo de esquerda, so trabalhadores! O dr. Francisco Van Zeller [presidente da Confederao da Indstria Portuguesa - CIP], com quem, alis, tenho uma relao cordial, elogiou o Cdigo do Trabalho, mas no ele que vota PS, ele vota sempre direita, no ? Ora, os trabalhadores, as pessoas da classe mdia...

E o senhor vota PS, ainda? A este tempo de distncia das eleies...

Votei sempre PS. Em princpio, estando no PS, votarei PS.

Estando no PS?...

Pois, daqui at l...

J sentiu vontade de deixar o PS e passar a ser deputado independente, por exemplo?

No, isso nunca faria. Passar a ser deputado independente no, sendo eleito pelo PS. Se deixasse de ser do PS...

J aconteceu, dentro do PS e noutros partidos...

Sim, mas eu no faria isso.

Mas, no estando no PS, onde que o senhor poderia estar?

Eu estou no PS. E estou no PS h mais tempo que a maior parte dos seus actuais dirigentes. Fui uma das pessoas que construram este PS e que o enraizou na sociedade portuguesa. Os dirigentes do PS sabem isso muito bem, tanto que, quando tivemos um confronto - confrontos internos j no vale a pena porque j sabemos como aquilo - nas urnas, na opinio pblica, eles sabem qual foi o resultado, no devem ter esquecido.

A este tempo de distncia, v-se a participar numa campanha eleitoral ao lado do seu camarada Jos Scrates?

Isso um problema! Estou, digamos, num perodo de reflexo. Fui candidato s eleies presidenciais, tive aquela votao, no foi um milho, foi mais de um milho, foi um milho e cento e trinta mil...

Peo desculpa pelo arredondamento [feito no lanamento da entrevista na rdio].

[risos] Foi um milho e cento e trinta mil. E isso deu-me uma certa responsabilidade. H muita gente que se volta para mim, e eu no sou a Santa da Ladeira, e me pede uma soluo milagreira. Eu no tenho nenhuma soluo milagreira no bolso, mas tenho uma responsabilidade cvica perante aqueles que confiaram em mim. No posso envolver-me numa campanha eleitoral se no estiver de acordo com o programa poltico nem com as polticas. Nem posso apoiar pessoas que nada tm a ver comigo, quer do ponto de vista poltico quer de outros pontos de vista.

No partido ou no Governo?

No partido e no Governo.

E est a falar de Jos Scrates, que o lder do PS e primeiro-ministro?

Com o Jos Scrates, tenho tido uma boa relao pessoal. Por vezes muito tensa do ponto de vista poltico, como agora o caso, mas boa do ponto de vista pessoal. at interessante conversar com ele. Mas para apoiar Scrates terei de apoiar alguns dos seus apoiantes, e isso no posso fazer. E teria de apoiar algumas polticas... Teria de fazer, digamos assim, de impor condies que no sei se ele estaria disposto a aceitar ou se teria possibilidade, mesmo, de as levar prtica.

Isso significa que no ser candidato a deputado nas prximas legislativas?

Dificilmente.

Quais so os ministros que considera mais esquerda neste Governo? At para tentarmos perceber quem so as pessoas que efectivamente v a mais ao lado do primeiro-ministro.

No vou fazer apreciaes dessa natureza. No quero assistir degradao da democracia. E uma coisa que degrada a democracia a confiscao do Estado por interesses poderosos, interesses que no so sufragados.

Sobretudo econmicos?

Interesses econmicos. E tambm penso que no bom para a democracia que haja uma confuso entre os negcios e a poltica. perfeitamente legtimo que as pessoas se entreguem aos negcios, faam a sua vida nos negcios, que ganhem dinheiro, faam riqueza...

Com este Governo, essa confuso aumentou?

... O que no aceitvel, nem recomendvel, que uma pessoa exera cargos polticos e depois passe para os negcios ou misture negcio e poltica. Contamina a confiana das pessoas na democracia e isso no possvel. No estou a falar do Scrates, mas de pessoas que tm andado por a no PS, no PSD. Vo dos ministrios para a gesto das empresas onde o Estado tem participao, e vice-versa, e isso no bom. Descredibiliza a democracia. Tivemos h pouco tempo a discusso da questo da Lusoponte com trs ex-ministros! No bom! Independentemente das pessoas, e no estou a pr em causa as pessoas de algumas das quais at sou amigo, isto no bom, no so.

Afastou definitivamente a hiptese de patrocinar a criao de uma nova fora poltica que trouxesse novidades a esse nvel?

Ns nunca podemos dizer "definitivamente" em poltica, uma coisa que j percebi. Sobretudo numa situao destas, em que se fechou um ciclo, est a nascer um novo ciclo, est a haver uma mudana de paradigma, muitas coisas podem acontecer! Est a haver uma recesso econmica, que vai trazer consequncias sociais imprevisveis...

A recesso est na Europa, mas ainda no est aqui, em Portugal. Acredita que ns escapamos?

No, no escapamos. No acredito nisso, no podemos escapar. Alis, no estamos a escapar. Ontem saiu mais uma estatstica: na sade camos sete pontos. Dos pases europeus s temos abaixo a Romnia e a Bulgria. Aqueles ndices da OCDE dizem que estamos nos trs onde h maiores desigualdades. Abaixo de ns s a Turquia e o Mxico. E somos o pas da Unio Europeia onde h maior desigualdade na distribuio da riqueza, portanto...

Mas at para isso, para que esse combate possa ser feito, perguntava-lhe se v necessidade de existir uma nova fora poltica?

Se a crise social se agravar... Os Estados Unidos resolveram o problema, elegeram o Obama, que uma resposta nova para uma situao de crise. Vai ser difcil, ele sabe, porventura muitas das promessas que fez no podero ser imediatamente cumpridas, mas no creio que v desiludir muito. H uns cpticos que esto espera que ele falhe, e ficariam satisfeitos se isso acontecesse. Eu espero que no falhe. J na Europa no vejo, neste momento, grandes solues alternativas. Portanto, no me admira que venha a haver grandes rupturas e que surjam novas foras polticas direita e esquerda.

E mesmo em Portugal?

Mesmo em Portugal. No se esqueam de que a ascenso do fascismo e do nazismo fez-se depois da grande depresso! E nessa altura havia a Unio Sovitica, havia partidos comunistas fortssimos, partidos socialistas fortes, tinha havido a Frente Popular em Frana, e havia sindicatos fortssimos. Neste momento, a esquerda est muito debilitada. Pergunto mesmo, onde que est a esquerda como soluo poltica? Foi essa a pergunta que fiz no artigo que escrevi para o Dirio de Notcias.

Mas estaria disponvel para patrocinar o nascimento de...

Independentemente do que fizer ou no fizer no futuro, estou disponvel para facilitar o dilogo e o encontro entre pessoas de diferentes quadrantes, para pensar em polticas, polticas pblicas, polticas alternativas, para reflectirem sobre novos rumos e sobre um novo paradigma.

E essas pessoas podem estar dentro do PS, dentro do Partido Comunista (PCP) e do Bloco de Esquerda?

Dentro do PS, do PCP, do Bloco de Esquerda, ou ser independentes, que o que so a maior parte delas. Porque h muitas pessoas que querem participar na vida pblica, j participaram. Algumas delas foram at referncias da construo da democracia e acabaram por se cansar. E hoje querem participar e no tm como nem onde...

Acredita que pode haver uma unidade de esquerda?

Unidade de esquerda, em termos de unidade interpartidria, no.

E se o PS ganhar as eleies e no tiver maioria? esquerda que se deve aliar?

Era com a esquerda que devia dialogar. O PS devia dialogar sempre com a esquerda. Alis, o PS deve dialogar com todos, a democracia feita de confronto e feita de dilogo, h coisas em que deve dialogar...

No falo em dilogo, falo mesmo em aliana para governar...

difcil, do ponto de vista inter-partidrio. Primeiro, o PCP, basta ler as suas teses, tal como est no me parece que queira aliana nenhuma ou que esteja nessa disposio. Alis, nunca a quis, e foi um dos males da nossa democracia em 74/75. O PCP privilegiou um entendimento com um sector do MFA (Movimento das Foras Armadas) em detrimento da aliana com o PS. Portanto, no creio que seja possvel. No Bloco de Esquerda h pessoas que tentam criar pontes, criar convergncias, e penso que esse dilogo se deveria fazer. Mas no s interpartidos. Fora dos partidos h muita gente boa! Esto a essas revistas on-line, gente que no pertence a partido nenhum, que pensa sobre os grandes temas, sobre o sindicalismo, sobre a educao, sobre a sade...! Esto nas universidades, nas empresas, na vida civil... preciso dialogar com toda essa gente! H uma coisa relativamente qual sou contra, o Bloco Central. Isso uma coisa fatal para a democracia. Levar a vrias rupturas, direita e esquerda.

O primeiro-ministro dizia, h 15 dias, que o Partido Socialista (PS) tinha "muito orgulho" de si, mas acrescentou agora que "o senhor est disponvel sempre para dar razo a toda a gente menos ao Governo e ao PS". Como que comenta?

O PS um partido livre e plural. Irritei-me com a ministra da Educao e ele ficou um bocado nervoso com as coisas que eu disse, embora tambm tenha acrescentado que eu tinha o direito a ter a minha opinio. Respondi que gostaria que me dessem boas razes para no ter tantas razes de crtica.

E tambm ficou irritado ao ouvir essa afirmao?

No, no. At me ri!

Mas a verdade que tem estado contra muitas das polticas do PS. Esteve contra a propsito do Cdigo do Trabalho, da educao, da sade, dos funcionrios pblicos. Pergunto-lhe: o que que o Governo tem feito de bem?

Olhe, a reduo do dfice, apesar dos custos... Assumiu e cumpriu aquilo que estava estabelecido com Bruxelas. O que est mal Maastricht, as imposies de Maastricht e de Bruxelas. Mas o Governo conseguiu cumprir o dfice e acertar as contas pblicas. No um fim em si mesmo mas uma condio de se poderem fazer outras coisas. E houve outros temas em que votei a favor: a lei do divrcio, a procriao medicamente assistida, a interrupo voluntria da gravidez. Mas penso que o Governo aplicou muitas das receitas, que so as chamadas receitas do pensamento nico, veiculadas pela OCDE e tambm, atravs da OCDE, por Bruxelas, e que levaram situao em que estamos agora de grande colapso financeiro. Esta iluso de que o sistema financeiro se podia auto-regular, de que o Estado devia diminuir o seu papel interventor, o seu papel regulador... Foi por isso que chegmos onde chegmos. As receitas eram as mesmas para todo o lado: menos regulao de Estado, menos papel do Estado, esvaziar os servios pblicos, flexibilizao. Se aqui h uns meses estivssemos a falar da nacionalizao de um banco, diziam que ns estvamos malucos, no ? E agora so os ideologicamente derrotados, os defensores do Estado mnimo, que pedem interveno do Estado.

Jos Scrates tem dito, ultimamente, que a grande derrota do liberalismo...?

Tem razo, estou de acordo com ele! O que preciso definir o que deve ser a interveno do Estado e qual o sentido que tem a prpria interveno do Estado nesta questo da nacionalizao da banca ou noutras nacionalizaes que eventualmente podero surgir se a crise se agravar. No se trata s de socializar as perdas, no ? Trata-se tambm de definir prioridades. Os investimentos pblicos so necessrios. Foi assim, alis, que o Roosevelt venceu a grande crise do incio do ps-guerra e de 29, com o New Deal. Mas preciso definir tambm que investimentos pblicos. Grandes obras pblicas, sim senhor, que preciso criar emprego, mas necessrio investir tambm no sector produtivo e nos seus ncleos mais competitivos: Investir na agricultura, em bens agrcolas, porque temos de diminuir a dependncia do exterior e garantir a soberania nacional! Acabou-se com a agricultura, acabou-se com as pescas e acabaram-se com as indstrias tradicionais em Portugal como consequncia da nossa entrada na Unio Europeia (UE). A questo da agricultura foi mal pensada, mal resolvida, mal negociada. E a das pescas tambm! Teve no s consequncias econmicas, mas tambm sociais e culturais. A agricultura e as pescas fazem parte da nossa prpria identidade e da nossa soberania. Portanto, o investimento na agricultura importante, porque a terra a principal riqueza, a terra nunca se desvaloriza, e ns estamos entalados entre a Espanha e o mar... Tudo, neste momento, muito voltil, tudo, neste momento, muito incerto, no ? Somos uma velhssima nao que foi pensada por grandes homens em momentos decisivos e atravs dos sculos e temos de saber garantir a nossa autonomia. Porque o facto de estarmos na UE - e sou partidrio de estarmos na UE porque devemos estar na vanguarda e no centro das decises - no significa uma dissoluo nacional.

Defende que se tem de mudar as polticas a nvel europeu?

As polticas a nvel europeu, sim! Ainda agora, no dia 11 de Outubro, o Stiglitz escreveu um importantssimo artigo no Le Monde, como eu tambm vrias vezes o disse, defendendo que a Unio Europeia devia mudar os 3% do dfice pblico. No possvel fazer face crise actual impondo aquele limite dos 3% de dfice pblico.

Mas tambm no possvel um Estado sobreviver se tiver permanentemente dfices pblicos elevados. Isso acarreta dvida e algum tem de pagar...

Para ter investimento pblico, e para poder combater a depresso e criar emprego, etc., tem de se ter alguma margem de manobra, sobretudo nos Estados mais fracos. Os limites so muito, muito rgidos. Stiglitz tambm recomenda mudar os estatutos do Banco Central Europeu (BCE), porque privilegiam o controlo da inflao. Isso garante a estabilidade, mas depois estrangula o crescimento econmico. E estrangulando o crescimento econmico provoca-se desemprego.

Acha, portanto, que os Estados deviam ter mais interveno no BCE? Menos autonomia para o BCE, mais poltica?

Devia rever-se os estatutos nesse sentido de ser menos rgido no controlo da inflao e que agora a UE devia ter mais flexibilidade em relao ao dfice pblico. Aqueles pases nrdicos que tantas vezes se elogiam so os pases com maior dfice pblico. E, no entanto, so os pases com maiores nveis de vida, embora agora tambm todos apanhem por tabela, porque ningum est fora desta crise.

H poucos dias escreveu no Dirio de Notcias um artigo em que dizia que era preciso reinventar a esquerda. O que que isso significa concretamente? Estamos a falar de se mudarem programas? De aparecerem novas foras?

A esquerda tinha modelos. Tinha o modelo sovitico e das democracias populares, e depois o modelo chins e albans e o modelo cubano. Os socialistas tinham o modelo da social-democracia europeia. Caiu o Muro de Berlim, esperava-se que viesse o socialismo democrtico mas veio foi a globalizao.

No h um novo paradigma?

No h um novo paradigma! Quer dizer, agora est-se a esboar um novo paradigma, que por acaso vem da Amrica, dos Estados Unidos, com a eleio do Obama, que , em si mesma, uma grande revoluo cultural.

Francisco Lou diz que Obama no um homem de esquerda?

No contexto americano, ! E penso que em muitas das suas polticas com certeza mais esquerda do que alguns pretensos esquerdistas europeus. E aquilo uma grande mudana, cvica, democrtica, cultural...

E pode influenciar esse novo paradigma?

[Passando por cima da questo] Sou da gerao que veio de Angola para Portugal no Vera Cruz... Recebemos a notcia da morte do Kennedy, depois do irmo e do Martin Luther King. Conheci o Eldridge Cleaver, essa gente toda... Se h trinta e tal anos me perguntassem se isto era possvel diria que no! Portanto, isto uma grande lio de vitalidade da democracia americana.

Repito: e pode influenciar esse novo paradigma?

Isto o fim de um ciclo, que comeou com o Reagan, teve reflexos na Inglaterra... em todo o lado. Teve reflexos aqui, na imprensa, nos comentadores, nos partidos polticos, em tudo. Mas as pessoas cansaram-se e esse ciclo acabou. Talvez se inicie ali agora a busca de um novo paradigma, no de um modelo global, porque no possvel um modelo global, mas de novas polticas e sobretudo de novas polticas pblicas necessrias democracia.

Tem escapado disciplina do grupo parlamentar em algumas das votaes no PS. Sente-se uma espcie de provedor da esquerda?

No, no. H l pessoas de esquerda que eu respeito muito, como o presidente do grupo parlamentar o camarada Vera Jardim no sou provedor de coisa nenhuma. E no tenho escapado disciplina parlamentar; respeito a Constituio e est l: "O deputado exerce livremente as suas funes" e no pode ser...

Certo, mas h uma disciplina...

... No pode haver procedimento, nem criminal, nem cvel, nem disciplinar. Respeito a Constituio e sou julgado por aqueles que me elegeram. Mas sei que, evidentemente, sendo eleito em lista partidria h algumas coisas em que se deve observar a disciplina mesmo no estando de acordo: no oramento, no programa, nas moes de censura e de confiana.

Os partidos da oposio tm falado em asfixia democrtica. Tambm acha que vivemos uma situao de asfixia?

No, no acho que haja uma situao de asfixia. Temos eleies livres, estamos aqui a falar livremente, os partidos da oposio podem falar... Se calhar tambm h um dfice de oposio, h com certeza um dfice de oposio e um dfice de alternativas. De tal maneira que s vezes parece que eu que estou a fazer a oposio! Mas sempre houve vozes crticas dentro do PS.

Haver um dfice de oposio porque o PS invadiu o espao tradicional da direita?

As maiorias absolutas - no que elas sejam antidemocrticas e s vezes at so necessrias em democracia -, num pas como o nosso so propcias ao aparecimento de certos tiques. J aconteceu assim com o PSD! Ontem, por acaso, estive a ler um discurso que fiz de crtica ao PSD e ao primeiro-ministro Cavaco Silva. Algumas das crticas que so feitas agora a esta maioria absoluta eram as crticas que ns prprios fazamos outra.

Preferia ter o PS no Governo sem maioria absoluta?

Preferia era que, mesmo com maioria absoluta, a conscincia crtica existisse, o pluralismo fosse uma vivncia; e que, como se dizia antigamente, fizesse parte do socialismo, e dos valores do socialismo, a existncia de mecanismos de contra poder mesmo quando se exerce o poder.

E eles falham agora, na actual maioria?

Sim, porque o partido neste momento uma mquina eleitoral, uma mquina de poder. Deixou de ter uma vida prpria e uma vida autnoma, a direco do partido
o Governo.

Mas isso no tem a ver tambm com a qualidade dos deputados? O senhor tem esse peso especfico e utiliza-o...

Bom, mas isso a mim ningum mo deu. Essas coisas a vida que...

isso que lhe estou a perguntar: no h falta de qualidade tambm na vida poltica portuguesa?

H uma coisa que est mal, mas penso que isso vai acabar: o problema da substituio dos deputados. H um cabea de lista, depois h os deputados, mas uns vo para o Governo, outros vo para aqui, outros vo para ali, e quando se chega a meio da legislatura j s l esto os suplentes e s vezes os ltimos suplentes, deputados pouco conhecidos ou quase annimos...

Houve tambm uma fase da vida do PS em que muitos funcionrios ascenderam a dirigentes polticos?

Este sistema eleitoral foi feito para consolidar os partidos polticos e estava certo. Mas os partidos afunilaram muito a sua vida, e h um divrcio hoje, no s aqui, muito grande entre a vida poltica partidria e a sociedade e os cidados.

E como que se resolve isso no estando ainda vista um sistema melhor que esse?

Aparecem movimentos... A minha campanha presidencial um exemplo disso.

Movimentos de cidadania?

A democracia participativa complementa, alis est na Constituio, a democracia representativa, mas preciso que os partidos se reformem. Os partidos so irreformveis. muito difcil mudar um partido por dentro. Um partido pode mudar pela presso da opinio pblica ou por alterao da prpria lei eleitoral. Aqui j se pensou nisso, fazer crculos uninominais e um crculo nacional...

H agora uma nova proposta em estudo...

... Mas acaba por nunca funcionar. Isso levaria mudana do tipo de deputados que temos, porque numa eleio uninominal, por exemplo, nos Estados Unidos ou na Inglaterra, os deputados preocupam-se com o seu eleitorado, respondem perante o seu eleitorado. Claro que tm uma ligao ao partido, mas uma ligao diferente. Tm sobretudo uma ligao ao seu eleitorado e se no respeitarem os compromissos assumidos com o seu eleitorado, ele no os reelege. Tal como "isto" funciona, quase que no vale a pena haver 230 deputados. Fazem-se as eleies, estabelece-se uma proporo, fica um por bancada e votam na proporo dos votos obtidos nas urnas.

E sai mais barato!...

Isto no bom. Eu, que estou l desde a Constituinte e que vivi outros momentos com outra vivacidade nos debates, porque estavam ali as grandes figuras da nossa democracia da esquerda direita, tenho de reconhecer que havia outra qualidade e outro tipo de actos. evidente que se fala, aqui tambm, dos privilgios dos polticos. Os polticos tm muito poucos privilgios, sobretudo no que respeita aos seus vencimentos, embora os portugueses tambm os no tenham, de uma maneira geral. Mas hoje as solicitaes e as remuneraes na vida privada so muito mais atraentes...

Apoiaria uma alterao s remuneraes dos polticos?

Sim, apoiava.

Sem medo de enfrentar um eleitorado?

preciso coragem tambm para enfrentar isso, no s para diminuir nos salrios dos funcionrios e cortar naquilo que so considerados privilgios e que muitas vezes so direitos adquiridos. Porque corremos o risco de no haver uma renovao de qualidade. Os quadros novos, as novas elites, seguem outros caminhos, no vo querer meter-se em partidos polticos muito fechados em si mesmos, com muita mediocridade l dentro e, sobretudo, muito afunilados. No quer dizer que no se interessem pela vida pblica. Tenho filhos, conheo amigos dos meus filhos, muita gente nova. Na minha campanha tive esse privilgio de ter muita gente nova, gente que me dizia que era a primeira vez que abraava uma causa. Mas no esto para suportar essa coisa de estar num partido, sujeitos a um presidente de federao que funciona com um cacique. No esto para isso, vo vida deles! Isto no bom para a democracia.


O ttulo da entrevista da responsabilidade do jornal que a publicou


 

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