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26 DE FEVEREIRO DE 2012, DOMINGO
Cipriano Justo
Já lá vão nove meses e o povo não aguenta
O indicador que melhor resume o efeito das políticas aplicadas pela actual maioria é a taxa de 14% do desemprego. Porém, este valor estará bastante subestimado, calculando-se em mais de um milhão os portugueses desempregados. A resposta do governo a esta situação não tardou – criar uma comissão para analisar a situação e propor medidas, querendo fazer crer que não se conhecem as causas e a distribuição do desemprego, mas também criando a expectativa de que existem decisões que vão ser tomadas no sentido de lhe dar resposta.
Tudo para tentar conter a indignação e controlar os danos que já se fazem sentir na base social que elegeu este governo. O que não se percebe é em que algoritmo macroeconómico vai o governo sustentar a criação de emprego, quando se mantém agarrado ao cumprimento das condições e dos prazos do memorando de entendimento.

A primeira medida, e pelos vistos a única, que o governo vai conseguiu aplicar para responder ao empobrecimento que atingiu com maior intensidade os portugueses desde que está em funções, foi desenterrar a sopa dos pobres. Esta é também a medida exacta da ideologia de classe desta direita: para os pobres, sopa de pobres; para os credores, juros dourados. Para a sopra dos pobres, 47 milhões de euros; para os credores, 30 mil milhões de euros. Para uns assistencialismo, para outros uma cornucópias de juros. Para dois milhões de portugueses tapperwears de sopa, para os especuladores cheques com seis zeros. Alarga-se a base da pirâmide social para satisfazer as exigências de quem, fazendo parte da mesma União, deveria ser obrigado a ter um gesto solidário para com aqueles países que passam por um período de dificuldades.

É esse, aliás, o entendimento de um programa de assistência - prover às necessidades financeiras de um país de maneira a poder regressar autonomamente ao crescimento económico e ao desenvolvimento social. Tudo quanto esteja fora deste quadro é negociar um empréstimo com fins lucrativos, colocando a dívida soberana de um país no mercado dos valores financeiros. E quando o negócio tem um horizonte temporal de curto prazo e o valor dos juros exorbitam as capacidades de os satisfazer nesse prazo, o efeito esperado é o que já está à vista no caso da Grécia, e o que acontecerá a Portugal se não for introduzida outra lógica na gestão do memorando de entendimento.

Se o entendimento for, como parece, de manter o euro como moeda dos países que a ele aderiram, e dar mais coesão à União Europeia, então o caminho a seguir só pode passar pela dilatação dos prazos de pagamento do empréstimo, pela diminuição significativa da taxa dos juros anteriormente fixados, do aumento das exportações e da procura interna. Para esse efeito o governo tem de passar de espectador a interventor na redefinição dos compromissos realizados num quadro político bem diferente do actual. A subserviência é inimiga da independência nacional. Se este governo se considera derrotado perante as exigências dos especuladores, então que se consulte o povo e venha outro governo.