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09 DE MAIO DE 2008, SEXTA FEIRA
Por Marta Harnecker
Bolívia: afinal, quem ganhou o referendo de 4 de maio?
Fonte: O Vermelho
Após resultados incertos, os dois grupos em disputa se atribuem o triunfo em relação ao referendo sobre o Estatuto de Autonomia realizado no departamento de Santa Cruz, na Bolívia, no último domingo, 4 de maio. Como determinar quem tem razão?
Para poder julgar o medir os resultados de uma ação, é fundamental ter em conta qual era o objetivo que cada ator buscava por meio dela.


A oligarquia de Santa Cruz perseguia conquistar uma assistência massiva nas urnas: era a única maneira de ganhar força contra o argumento do governo sobre a ilegalidade do processo; se conseguisse esse objetivo, poderia então argumentar que ainda que não fosse um processo legal, era um processo legítimo, a população em massa haveria expressado seu respeito pela idéia de autonomia e o governo teria que levar em conta esse sentimento popular.


Por sua parte, o governo, o MAS e os movimentos sociais se propuseram conseguir a maior abstenção possível para tirar peso dos resultados que se deram nas urnas, onde se pronunciava um amplo apoio ao SIM.


A essa proposição da abstenção gerada pela propaganda oficial, se juntou logo a idéia de votar NÃO, proposta lançada por alguns setores pensando nas pressões que a oposição estava usando para obrigar a população a votar.


Ainda que as cifras disponíveis não sejam oficiais e provavelmente não serão nunca – porque não houve uma instância neutra que observasse o processo, além do número de cédulas previamente marcadas com o SIM – se tomarmos os números divulgados pelos meios de comunicação e usadas pelo governo, pode-se dizer que a abstenção foi maior que a esperada: em Santa Cruz, chegou a 17% no referendo de 2006 e agora alcançou 39%. Essa cifra somada aos votos para o NÃO e aos votos nulos chega a representar quase metade do eleitorado: 48,3%.
A partir dessa análise, o governo e seus apoiadores podem se dar por satisfeitos. No entanto, haverá de se perguntar se é possível falar em triunfo quando um pouco mais da metade da população eleitoral de Santa Cruz se expressou contra o projeto de país que representa Evo Morales, e apoiou conscientemente ou sob manipulação aos grandes grupos oligárquicos que dominam econômica, ideológica e politicamente a região.


E também haveria de se pergunta se poderá atribuir tal fato somente à maquiavélica ação da oligarquia local apoiada pelo imperialismo.


Parece mais provável que hajam julgado também erros e debilidades do próprio governo e do MAS, seu instrumento político fundamental. Por acaso Evo Morales não chamou a votar NÃO pelas autonomias no referendo de 2006, realizado no mesmo momento em que se elegiam as pessoas que comporiam a Assembléia Constituinte, deixando a bandeira da autonomia nas mãos da reação (algo que os próprios dirigentes do MAS logo reconheceram)? Por acaso não se aplicou ao oriente do país esquemas organizativos e critérios que se chocam com a idiossincrasia própria dessas terras baixas? Não se tendeu a catalogar de oligarcas secessionistas a todos aqueles que, seguindo um sentimento que vem de gerações, se manifestaram a favor da autonomia, ignorando as contradições que existem entre os grandes oligarcas pró-imperialismo e uma parte importantes dos setores médios urbanos brancos que, ainda que críticos a determinadas ações e políticas do atual governo, de modo geral o apóiam porque representa por fim a dignidade dos povos indígenas e a afirmação da soberania da pátria?


Mas se é possível debater acerca de quem triunfou eleitoralmente e cada grupo traz distintos argumentos para se atribuir a vitória, o que é indiscutível é que o projeto de país encabeçado por Evo Morales saiu reforçado. A maioria dos setores populares da Bolívia, especialmente os movimentos camponeses indígenas e os trabalhadores das cidades. conseguiu entender o que estava em jogo por trás desse projeto da oligarquia de Santa Cruz, eu usa de modo demagogo a bandeira da autonomia. E também reagiram nesse mesmo sentido importantes setores de profissionais e técnicos. Especialmente significativo foi o grupo "Santa Cruz Somos Todos", que, em plenas entranhas do monstro, elevou sua voz discrepante e votou NÃO.


O que essa oligarquia buscava e segue buscando é derrocar o primeiro presidente indígena da América Latina para voltar a controlar as imensas riquezas que passaram a ser controladas pelo Estado. Uma oligarquia que nunca compreendeu o chamado para realizar uma verdadeira reforma agrária e para distribuir mais eqüitativamente a riqueza na América Latina, conforme propusera há quase meio século o então presidente dos EUA, John Kennedy. Há que se lembrar que quem fizera esse chamado era um liberal burguês, que jamais poderá ser catalogado de comunista e só o fazia para deter o avanço da revolução em nossa América.


Mas esse povo não-somente compreendeu o que estava em jogo, mas também sentiu a necessidade de articular suas lutas para golpear com um só punho a pequena elite, que, apoiada pelo governo dos EUA, busca reverter o processo de revolução democrática e cultura que vive o país.


As organizações populares bolivianas parecem ter entendido que a unidade de todos os setores que defendem o projeto de país humanista e solidário, que respeita as diferenças e a natureza que representa o presidente Evo Morales, é o único que fará esse processo ser irreversível.


E falando da unidade, gostaria de recordar as seguintes palavras de Fidel Castro, o grande artífice da unidade do povo cubano:


"Eu também pertenci a uma organização. Mas as glórias dessa organização são as glórias de Cuba, são as glórias do povo, são as glórias de todos. E eu um dia deixei de pertencer àquela organização. Qual dia foi? Foi o dia em que nós havíamos feito uma revolução maior que nossa organização [...] E ao marchar através dos povos e cidades, vi muitos homens e muitas mulheres; centenas, milhares de homens e mulheres tinham seus uniformes vermelho e negro do Movimento 26 de Julho; mas mais e mais tinham uniformes que não eram vermelhos nem negros, mas sim camisas de trabalhadores e de camponeses, homens humildes do povo. E desde aquele dia, sinceramente, deixei aquele movimento sob cujas bandeiras lutaram os companheiros e, fui para o povo; pertenci ao povo, à revolução, porque realmente havíamos feito algo superior a nós mesmos.


* Marta Harnecker é socióloga e jornalista.



Tradução: Fernando Damasceno


Fonte: Rebelión