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06 DE AGOSTO DE 2017, DOMINGO
POLEMICAR: o Brexit ainda está para durar
Paulo Fidalgo
Os britânicos (e os europeus também) ainda andamos às voltas com o Brexit. O The Guardian discute a questão como uma contradição insanável que pode levar à reversão do referendo. Um brexit soft faria do UK um satélite da Europa pois participaria num espaço regulado sem contribuir para a sua regulação o que dificilmente fará algum sentido. Uma saída hard ou o remain são as opções que restam. Ora, se a força do remain no parlamento subiu com a eleição pode ver-se como todo o processo está a patinar. No Conselho Nacional e na Direção da Renovação a questão foi debatida na altura das eleições da forma que se segue.
Os que são por um planeta “sem nações, sem nada por que matar ou por que morrer”, e que são fiéis a uma humanidade sem segmentações, agem por uma supranacionalidade democrática, de entendimento, regulação e cooperação globais. É afinal a ideia da Internacional, uma terra sem amos, em última análise dependente de uma sincronização político-económica e social entre países e regiões.

Com base nesse desígnio, o Brexit, fortemente rebocado que foi pelas classes dominantes inglesas só pode ser olhado como retrocesso no processo de construção Internacional. Atraiu igualmente setores populares que encaram como ameaça a UE hegemonizada pela direita e pelo neoliberalismo e a imigração como o pior dos males. No essencial, o brexit representa a vitória de um ponto de vista nacionalista, protecionista, virado para a montagem de barreiras cambiais, taxas e portagens que travam o caminho do progresso e acabam por levar ao prejuízo a situação da classe trabalhadora. O protecionismo e o nacionalismo são o contrário da visão primordial de Marx e Engels e de tantos outros.

Ora, o Labour de Corbyn foi leal à ideia supranacional ao opor-se ao brexit na altura do referendo, sem nunca abdicar de forte crítica ao estado atual da UE. Fê-lo, apesar dos ventos soberanistas na esquerda britânica (e inclusive em comunistas além-mancha). E não ganhou o referendo, como se sabe. Conseguiu, porém, manter intacta a base militante e eleitoral para as batalhas subsequentes, assegurando a convivência mínima entre soberanistas e defensores do remain. Essa capacidade de manter a convergência contra a política de direita doméstica é, e foi afinal, um elemento crucial de tática: garantir as condições ulteriores de luta contra a direita doméstica e edificar uma alternativa de governo, sem dúvida a questão central da qual dependem todas as reversões e conquistas porque ambicionam os trabalhadores.

Agora, uma coisa é ser contra o brexit, outra totalmente diferente, é batalhar logo de seguida pela reentrada, por via de uma reversão referendária quando o contexto da UE é tão adverso pelo reacionarismo dos membros do diretório europeu, Shauble, Dijsselbloom e companhia. Insistir no regresso a uma UE enredada em contradições e arcaísmos, seria dar de bandeja às classes dominantes inglesas o pretexto para fingir fazer a “crítica” da actual UE e, o que mais perigoso seria, eximir-se à denúncia da sua política nacional antipopular e pró-austeritária. E para não falar da reabertura provável da clivagem entre soberanistas e internacionalistas na esquerda. Na verdade, a luta de classes permanece focada largamente no terreno nacional e ignorá-lo por fidelidade internacionalista abstrata seria uma ingenuidade e um serviço à reação. Portanto, uma coisa é fazer oposição à saída outra, bem diferente, seria lutar pela entrada nas presentes circunstâncias de uma UE em crise profunda. São contextos bem diversos que têm de ser tidos em conta na linha pela vitória.

Muitos internacionalistas criticaram num primeiro momento Corbyn, por não ter colocado no centro da batalha legislativa a reversão do brexit e ter na aparência deixado cair a questão internacional. É bom recordar que a batalha foi armada, de resto, pelo golpismo de Theresa May quando se convenceu que lhe sorriria a sorte de reforçar uma mais sólida maioria dos ultras nacionalistas da direita e assim pugnar pelo chamado hard brexit (uma saída da UE, dura) e a sua mais segura aprovação nos comuns. Theresa May, ela sim, tudo fez para centrar no Brexit a campanha eleitoral porque pensava que do outro lado iriam assumir e corresponder a esse movimento na frente de batalha. Mas saiu redondamente enganada. E foi o surpreendente dispositivo tático do labour que a deixou nos maus lençóis em que se encontra. É bom esclarecer que a saída “dura” representará necessariamente mais profundos retrocessos para a classe trabalhadora e abrirá caminho para transformar a Gran-Bretanha, ainda mais, no centro mundial da pirataria financeira que é afinal a agenda das classes dominantes.

Ora, o que o labour escolheu foi, precisamente, colocar todo o enfoque na política doméstica e nos termos concretos do (eventual) acordo de brexit. Defendeu taxativamente que só dará a sua concordância a um acordo de brexit se os seus termos forem favoráveis ao interesse popular, algo que dificilmente Theresa May concordará. Ainda não sabemos se a nova composição do parlamento está mais próxima ou afastada de uma saída hard ou de uma saída soft. No anterior parlamento eram 156 os apoiantes explícitos do brexit, em 650 deputados.

Alcançar um bom acordo, recusar tudo o que represente novos retrocessos sociais e políticos merece uma boa campanha de massas. É em torno, pois, do processo negocial, concreto, que a batalha política irá decorrer e, poderemos ter até a circunstância em que haja uma recusa de um mau acordo, por via referendária ou eleitoral, o que levaria a uma re-discussão mais profunda da relação do UK e da UE. Debate em que ambos reconheçam a necessidade de ajustamentos nas suas condutas. A questão do brexit vai trazer ao de cima importantes clivagens de classe e a “bola” também vai ser jogada do lado europeu. Isto quererá dizer que se o diretório europeu permanecer atascado nas suas orientações austeritárias e liberais, sem relançamento democrático da Europa, os negociadores da UE também deixarão a sua marca no brexit. Os internacionalistas de aquém mancha têm aqui a obrigação de contribuir (e lutar) para um bom arranjo supranacional na Europa. Uma UE virada para mais democracia e para a coesão e expansão económicas, agirá perante os tories por forma a manter o UK fortemente associado à UE, obrigando os defensores da pirataria a encolher as unhas. Uma UE como a atual facilitará a retórica nacionalista e securitária das classes dominantes inglesas e deixará tudo resvalar para o chamado hard brexit.


 

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