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06 DE JULHO DE 2008, DOMINGO
por Paulo Fidalgo
Paradoxos Liberais
"É a todos os títulos surrealista, no preciso momento em que o choque petrolífero se agrava todos os dias vertigtinosamente, que os sistemas de transporte alternativos, entre os quais avulta o comboio, pertença da economia estatal por excelência, não dê qualquer mostra de disputar e ocupar o espaço que lhe deveria vir parar nas mão fruto do agravamento brutal do custo dos combustíveis."
É paradoxal que o liberalismo apele à salvação dos grandes bancos falidos em vez de deixar a natureza fazê-los pagar com o processo natural da extinsão.

Os mais recentes apelos à intervenção do Estado para salvar o capitalismo contrariam tudo o que tem sido o discurso liberal, numa prova de que os interesses de classe e económicos não cuidam de coerências. O liberalismo, é ou foi, portanto e tão-só, uma vestimenta conjuntural do capitalismo.

Porém, as conveniências e ziquezaques do discurso não descartaram longe disso, a retórica liberal, mesmo quando os governos e as autoridades monetárias passaram à ingerência económica aberta.

Ainda agora José Manuel Fernandes director do Público vociferava em editorial contra uma iniciativa do PCP para que o Estado adopte medidas urgentes de socorro social, face a tão grande crise económica que deixa o país à beira de um grave retrocesso.

Não pretendo avaliar da bondade e dos fundamentos da iniciativa do PCP, nem acerca dos caminhos para lidar com a questão da urgência social subjacente, mas tão-só contestar a argumentação liberal de José Manuel Fernandes.

José Manuel Fernandes contesta que se mexa no preço dos combustíveis porque isso seria perpetuar a hegemonia do petróleo, em vez de a crise induzir, naturalmente, uma mudança de paradigam energético.

Sem dúvida que o paradigma energético deveria mudar e o que mais se pode dizer é que as condições científicas e técnicas, e também de custo, há décadas que estão maduras para alterar a dependência do petróleo. A pergunta portanto é saber porque estando como estão em cima da mesa essas alternativas elas não vingam.

Num modelo abstracto, as energias alternativas deveriam desenvolver-se caso mostrassem vantagem. Porém, isso visivelmente não acontece mesmo agora que estamos em pleno choque petrolífero. Que no entanto não é o primeiro.

A razão para a hegemonia das petrolíferas só pode ser encontrada na pista de Marx que nos ensinou como, no presente período histórico, a produção domina largamente sobre o consumo em termos mundiais. A essa asserção geral devemos acrescentar que a indústria e o comércio do petróleo detêm larguíssima influência no mundo inteiro, coligado de resto como o poderoso sector do transporte rodoviário.

Os seus representantes espalham-se estratégicamente pelos comités de decisão, por tudo quanto é burocracia estatal ou organismo regulador, para não falar nos governos e agências delegadas. Sempre que se vai decidir de uma via de comunicação, sempre que se vai decidir de uma nova aposta industrial, lá estão eles os agentes do lobby, que muitos não hesitam em classificar como o polvo das 7 irmãs para descrever as 7 grandes multinacionais do petróleo, a influenciar as decisões a seu favor.

O que importa de facto compreender é que o sistema vigente não é de modo algum liberal porque as virtudes evolutivas em diversos ramos da economia são activamente contrariadas ou favorecidas por quem detem o poder. Se há relações de poder a determinar o evolucionismo económico, para além e em sobre-determinação às pulsões mercantis, deverá então orientar-se a acção política para o combate aos interesses instalados, deve mobilizar-se a opinião pública para dar contéudo e força ao espaço político. Para um liberal “puro” ou que usa as parábolas liberais como deliberada mistificação é um horror vir alguém com decisões políticas para cima da economia, sobretudo se essas decisões contrariam os interesses instalados.

Um problema particular que assusta o status quo neste momento é o facto das plataformas capazes de impulsionar o evolucionismo para uma nova economia estarem em larga medida no domínio público, embora o conjunto da sociedade ainda não dê o devido valor a esta circunstância.

Na verdade, o maior risco do capitalismo em regressar às subvenções públicas macissas é o de sectores da opinião pública, dos trabalhadores em concreto, poderem exigir que haja intervenção pública sim, mas que isso não signifique salvar o capitalismo. Pelo contrário, o que a situação presente exige aos povos e aos movimentos internacionais de trabalhadores é o de trabalharem para exigências de remodelação económica efectiva, e que em vez de salvarem o captalismo possibilitem abrir caminho para novos mecanismos e novas maneiras de produzir, novas prioridades, que ponham o mundo ao abrigo das aventuras capitalistas, das suas tragédias e misérias.

É a todos os títulos surrealista no preciso momento do choque petrolífero, que os sistemas de transporte alternativos entre os quais avulta o comboio, pertença da economia estatal por excelência, não dêm mostras de querer disputar e ocupar o espaço que lhes deveria vir parar nas mão fruto do agravemento burtal do custo dos combustíveis. A pergunta que importa fazer ao governo e aos seus agentes na CP é a de saber por que não estão desde já a projectar as adaptações e investimentos pertinentes para relançar o transporte de passageiros e de mercadorias?

Em vez de uma resposta evolutiva adequada do transporte ferroviário, o que vemos é o aparecimento deveras extraordinário dos anúncios do lobby rodoviário a tentar contrariar a quebra no uso das auto-estradas, compreensívelmente deprimido pela subida da gasolina. É assim paradoxal que se possam hoje mesmo escutar os anúncios da auto-estrada A4 a propôr aos automobilistas que usem mais essa via do que a via de cintura interna do Porto, para evitarem congestionamentos, ou então que a Brisa promova o seu novo telefone de informação de tráfego a aconselhar os automobilistas sobre qual o itenerário que melhor servirá os seus objectivos. Em período de crise, os rodoviários mexem-se, tem amplo espaço de iniciativa, mas os que podiam e deviam protagonizar a tal mudança de paradigma energético que supostamente um mercado perfeito deveria regular, estão activamente inibidos de o fazer.

Isto não vai lá portanto só com puras vantagens de índole mercantil, embora detê-las não deixe ser um trunfo. Só lá chegamos pela acção política pura e dura, o contário do que advoga José Manuel Fernandes. É por isso que a economia mercantil não pode ser desligada da política e do processo de decisão política, como dizia Marx. É por isso que o que se trata é de compreender o processo de decisão política em economia e, é claro, ter um sentido bem crítico da economia política vigente.



 

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