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29 DE SETEMBRO DE 2018, SÁBADO
FONTE: RC
POR: Serafim Nunes
O Brasil no olho do furacão
Serafim Nunes é um conhecedor da situação brasileira e responde aqui às perguntas da nossa Newsletter sobre o drama político e eleitoral que varre aquele país.
O Brasil no olho do furacão

A ascensão da extrema-direita no Brasil é uma singularidade local ou é parte de uma onda que varre o mundo, Estado Unidos, Filipinas, Turquia e Europa?


Creio que a ascensão da extrema-direita brasileira tem especificidades locais, mas não pode ser desenquadrada do que se passa no resto do mundo. Cresce ao abrigo dos mesmos temas: Corrupção e consequente descrédito dos políticos, criminalidade e insegurança, desemprego, racismo e xenofobia, conservadorismo nos costumes e, também, novos surtos confessionais.

Depois de dois mandatos de Lula (oito anos) bem-sucedidos de todos os pontos de vista, económico, social, político, cultural, que catapultaram o país na cena internacional e o prestigiaram como nunca, e de um primeiro mandato de Dilma também positivo, embora menos conseguido que os de Lula, a direita brasileira apercebeu-se de que não poderia permitir um segundo mandato de Dilma sob pena de Lula voltar de novo no final, como já então de antecipava, e o período de governação do PT se vir a estender por vinte e quatro anos.

Daí que logo que Dilma ganhou as eleições de 2014 renovando o mandato, se tivesse dado início ao roteiro do golpe que foi cumprido inexoravelmente.

A primeira linha de contestação foi tentar pôr em causa o resultado eleitoral com base nos escândalos de corrupção que grassavam no país e na tese de que o PT tinha beneficiado de meios financeiros que os outros partidos não tinham e que com esse poderio económico, além do mais obtido de forma fraudulenta, teria adulterado as condições de uma competição eleitoral sadia e equilibrada.

Este argumento caíu no entanto rapidamente por terra, sobretudo a partir do momento em que a Odebrecht publicou a sua planilha de contributos financeiros para os políticos na qual sobressaiam políticos ligados ao PMDB e ao PSBD, em número e montantes muito superiores aos atribuídos ao PT.

Perante este embaraço, a direita brasileira, e sobretudo as elites paulistas, suportadas nos poderosos midia ao seu serviço, partiu para a segunda fase do plano: Inventou uma ridícula pedalada fiscal e perante a incredulidade do mundo concretizou o impeachment de Dilma naquela sessão inenarrável de 17 de Abril da Assembleia Legislativa que envergonhará o Brasil por muitos anos.

Concretizado o golpe, havia ainda que dar a estocada decisiva: a prisão de Lula e o seu afastamento da disputa eleitoral que se avizinhava. A direita brasileira sabia bem que por mais mentiras e calunias que produzisse contra o PT, por mais que perseguisse os seus militantes e simpatizantes, por mais que a imprensa servil e alinhada fizesse o seu jogo, os brasileiros, sobretudo os brasileiros pobres e a ainda frágil classe média de mais de trinta milhões de brasileiros que Lula e o PT tinham criado, jamais esqueceria Lula e que se Lula se candidatasse voltaria a ser Presidente. Como o provam todas as sondagens recentes.

Para essa estocada final contou com um poder judiciário ignóbil, envolvido desde o início no golpe, e sua parte activa, determinado em cumprir a tarefa que se tinha proposto, o que fez de modo inflexível e inexorável.

Entretanto, sobretudo depois do impeachment de Dilma, a economia, que já vinha demonstrando fragilidades por quase dois anos de absoluto boicote à governação de Dilma desenvolvidos quer pela Assembleia Legislativa quer pelo Senado, entrou em derrapagem, a confiança dos brasileiros caíu a pique, o desemprego explodiu, depois de quase década e meia de pleno emprego, e a sociedade brasileira quase entrou em colapso.

O centro, o centro-esquerda e o centro direita, que tinham estado no epicentro do golpe e que tomaram as rédeas do poder na sequência do impeachment, mostraram uma confrangedora incompetência nestes dois últimos anos e meio em quase todos os domínios, sobretudo na economia, com o PIB a cair estrondosamente, o déficit público e o desemprego a disparar, o investimento nacional e estrangeiro também em queda, vendo-se além do mais envolvidos até à medula em sucessivos processos de corrupção que conduziram à prisão de alguns dos seus principais cabecilhas no golpe.

E como consequência disso a sociedade radicalizou-se e polarizou-se: De um lado o PT e as restantes forças de esquerda, na sombra tutelar de Lula; do outro uma direita radical e fascizante à sombra de um militar falhado e fascitoide, Balsonaro. O centro político colapsou e duvido de que se recomponha tão cedo.


Como podem os eleitores, inclusive da pequena burguesia e setores operários, serem seduzidos pela demagogia fascizante, o irracionalismo e o pensamento mágico da xenofobia e nacionalismo?

Como referi de inicio, pelas mesmas razões dos eleitores de qualquer parte do mundo: Medo, insegurança, criminalidade, desemprego, uma evolução de costumes que têm dificuldade em acompanhar e o ressurgimento do obscurantismo confessional.

Balsonaro colhe apoios na burguesia elitista das grandes cidades e dos estados mais desenvolvidos – São Paulo, Rio, Minas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, a burguesia mais classista que conheço, por razões que têm a ver com interesses de classe. Mas colhe também em sectores operários, industriais ou agrícolas, na pequena-burguesia das periferias e mesmo no lúmpen por razões emocionais que têm a ver com as acima referidas. Como disse, nada de novo, sobretudo para os europeus que têm assistido ao crescimento da extrema direita da Europa. O guião é o mesmo.

Lula percebeu isso bem com a sua rara intuição política. E daí que tenha muito recentemente insistido com Hadadd para prestar atenção às periferias urbanas, tradicionalmente bastiões do PT, sobretudo o ABC Paulista, onde a demagogia populista de Balsonaro tem penetrado facilmente.


Achas que a esquerda brasileira pode transformar as derrotas recentes que sofreu em força suficiente para conter a extrema-direita e alcançar a vitória eleitoral?

A direita mediu bem o perigo que para si representava a candidatura de Lula e por isso o prendeu, mas subestimou a sua capacidade de “cabo eleitoral”, como se diz no Brasil, isto é, a capacidade de arrastar os seus votantes para outro candidato.

Convenhamos que também não tinha grande saída, a não ser que ilegalizasse o PT, o que seriamente chegou a ponderar.

Por outro lado, a direita mais centrista foi surpreendida com a incapacidade eleitoral dos seus candidatos naturais - Alckmin, do PSDB, que governa o Estado de São Paulo desde 2001, com um interregno de cinco anos; e o ex-ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meireles – que não descolaram nas intenções de voto.

E neste momento é claro o desnorte do centro político, divido entre um candidato do PT cujo partido abomina e um candidato de extrema direita boçal e tacanho que lhe causa bastante desconforto. Resta saber como se vai decidir, estando eu em crer que se decidirá maioritariamente por Balsonaro.

A esquerda divide-se entre Haddad, Ciro Gomes e Marina, no primeiro turno, sendo que hoje parece claro para toda a gente que Haddad estará no segundo turno, restando saber como votarão no segundo turno os apoiantes de Ciro e Marina.

Uma coisa é clara: Por razões profissionais frequento os meios financeiros paulistas. Posso testemunhar que só nos últimos dois, três meses, a grande finança brasileira se compenetrou do enorme poder de arrasto de Lula, que pensavam ter fragilizado mortalmente com a sua prisão, ocorrendo exactamente o contrário do que previram, e foi com espanto que os vi antecipar, resignados, que Haddad estaria no segundo turno e com possibilidades de ganhar.

Veremos.

Confesso que depois de ter assistido nos últimos anos ao massacre do PT, ao compreensível recuo da militância, pelos escândalos em que o partido de facto se envolveu, mas também pela verdadeira lavagem ao cérebro conduzida pelos midia, pela perseguição politica dos seus militantes e simpatizantes, pelo verdadeiro clima de caça às bruxas que se instalou no país, tinha expectativas muito baixas sobre o futuro do PT não obstante conhecer bem a influência de Lula e sobretudo o seu extraordinário faro político.

Achei também que demoraram muito tempo a indicar Haddad e que esticaram demasiado a corda de Lula candidato sabendo-se que o poder judicial jamais o permitiria. Mas mais uma vez Lula parece ter visto mais longe do que os outros e o certo é que Haddad é hoje um candidato com firmes razões para poder aspirar a ser o futuro Presidente do Brasil. O que seria um dos factos mais relevantes politicamente deste século na América Latina, pelo estancamento dos processos populistas que grassam pelo continente e pela nova esperança que poderiam trazer à esquerda sul-americana.

Só espero que essa esquerda saiba, a acontecer esta verdadeira redenção, aprender com os graves erros que cometeu, arrepiar caminho e perceber que a seriedade em política é uma condição sine qua non para o futuro.


 

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