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01 DE JULHO DE 2015, QUARTA-FEIRA
A guerra por outros meios
O movimento mobilizador da ação democrática na Grécia convoca uma reflexão sobre a Política, e o ponto de vista clássico, de von Clauzevitz, de que a "guerra é a continuação da política por outros meios". Neste caso, a luta no seio da União Europeia está na realidade a inverter o aforismo clássico no sentido em que de uma guerra se trata provocando movimentos quase-bélicos. É o que Justo tenta aqui evocar e convocar.

Qualquer que venha a ser o resultado da consulta que o governo da Grécia vai fazer à população no próximo dia 5 sobre as novas condições de austeridade que as autoridades europeias lhes querem impor, depois de uma semana de negociações em que o propósito dos representantes dos credores foi sempre impor as suas condições, inviabilizando por essa via o mandato que o Syriza recebeu nas eleições, a única decisão que resta aos protagonistas dessas negociações é considerarem-se derrotados e demitirem-se.

Tanto Jean Claude Juncker, como Mário Draghi e Jeroen Dijsselbloem alguma vez estiveram à altura dos acontecimentos nem em circunstância alguma honraram a Carta dos direitos fundamentais da união europeia, a qual, logo no segundo parágrafo do seu preâmbulo afirma que “Consciente do seu património espiritual e moral, a União baseia-se nos valores indivisíveis e universais da dignidade do ser humano, da liberdade, da igualdade e da solidariedade; assenta nos princípios da democracia e do Estado de direito. Ao instituir a cidadania da União e ao criar um espaço de liberdade, segurança e justiça, coloca o ser humano no cerne da sua acção”.

Durante uma semana aquelas autoridades não passaram de porta-vozes de quem, de facto, tomava as decisões: Christine Lagarde e Wolfgang Schauble. Se estes desempenhavam o papel que os credores lhes atribuíram, cabia a quem representava os povos europeus nesta contenda considerar a impraticabilidade das exigências dos credores escolhendo, para o efeito, o campo de quem representava o povo grego. Não foi isso que aconteceu. No final da semana prevaleceu a decisão de rasgar a Carta dos direitos fundamentais, de fazer da liberdade, da igualdade e da solidariedade uma espécie de banha da cobra, e apelar aos gregos para derrubarem o governo que poucos meses antes tinham eleito por larga maioria. Tudo resumido, politicamente foi esta a mensagem que Bruxelas quis transmitir à Europa e ao mundo.

Como se desconhecessem as regras do jogo, sobretudo deste jogo, só um exercício de extremo cinismo consegue explicar que estas personalidades tenham ficado surpreendidas com a convocação de um referendo para que democraticamente os gregos façam ouvir a sua voz e de que lados estão. O que faz um general quando as conversações de paz fracassam? Rende-se? Não, regressa para o seio das suas tropas e prepara-as e prepara-se para a guerra porque é disso que afinal se trata quando se apela ao povo que se faça ouvir. Foi isto, afinal, que Alexis Tsipras fez. O seu regresso a Atenas e a decisão que tomou é o sinal de que está preparado, a partir de agora, para todos os combates. E o primeiro é já no próximo domingo. E mesmo que perca o combate de domingo há sempre maneira de continuar a guerra por outros meios. E a primeira é não se O primeiro dos quais é não se demitir. Tratando-se agora de um conflito aberto, o governo grego precisa de aliados, de todos aqueles que na Europa ergam bem alto a bandeira da liberdade, da igualdade e da solidariedade.


Cipriano Justo


 

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