Comunistas.infoComunistas.infoComunistas.info
QUEM SOMOS
ACTUALIDADE
-
20 DE JANEIRO DE 2009, TERÇA FEIRA
FONTE: Público de 19/01/09
POR: André Freire
O esquerdismo na Europa após a Guerra-Fria
"O esquerdismo na Europa após a Guerra-Fria. Com a queda do muro de Berlim e o colapso da URSS, as correntes esquerdistas europeias têm mudado bastante". Leia este interessante artigo que André Freire publicou ontem no Público.
O esquerdismo na Europa após a Guerra-Fria

Com a queda do muro de Berlim e o colapso da URSS, as correntes esquerdistas europeias têm mudado bastante


Os partidos situados à esquerda do PS têm estado no centro do debate político pelo menos desde finais de 2007. Primeiro, porque têm evidenciado uma performance notável e consolidada em termos de "intenções de voto". Segundo, porque se houvesse disponibilidade de qualquer das partes, o que parece não ser o caso, em caso de maioria relativa do PS poderia eventualmente formar-se um governo de tipo "esquerda plural", comum na Europa após 1989. Seja como for, com dois congressos (BE e PS) e três eleições em perspectiva, é pertinente reflectir sobre o "esquerdismo" na Europa do pós-Guerra-Fria. Baseio-me num estudo do politólogo Luke March: Contemporary Far Left Parties in Europe. From Marxism to the Mainstream?, Fundação Friedrich Ebert, 11/2008. Uma leitura que recomendo, nomeadamente aos dirigentes das esquerdas.
Com a queda do muro de Berlim e o colapso do socialismo soviético, as correntes esquerdistas europeias têm mudado bastante. Continuam bastante diversas, mas algumas renovaram-se bastante e, no conjunto, apresentam graus de sucesso diferenciados. O estudo aborda vários tópicos que não posso cobrir aqui. Abordarei hoje o perfil das várias correntes e as razões do seu sucesso relativo.
Luke March define os partidos esquerdistas (far left) como aqueles que se definem a si mesmos como estando "para a esquerda", e não apenas "à esquerda", dos social-democratas, os quais consideram não serem suficientemente de esquerda ou serem sequer de esquerda. E separa-os em duas grandes categorias. Primeiro, os "partidos da esquerda radical": defendem mudanças radicais no sistema capitalista. Embora muitas vezes designados por "extremistas" pelos seus opositores, aceitam a democracia, embora combinem tal aceitação com aspirações "muitas vezes vagas" no sentido da democracia participativa. O seu "anticapitalismo" envolve fundamentalmente uma oposição à globalização neoliberal associada ao "consenso de Washington" (liberalização do comércio, mercadorização da sociedade, privatizações, etc.), mas já não defendem uma economia planificada, antes uma economia mista. A esmagadora maioria inclui-se neste grupo: 18 em 24 partidos da UE, Islândia e Noruega. Segundo, os "partidos da extrema-esquerda" (6 em 24) são aqueles que têm maior hostilidade à democracia liberal, renunciam usualmente a qualquer compromisso com os "partidos burgueses", incluindo os social-democratas, enfatizam as lutas extraparlamentares e o seu "anticapitalismo" é bastante mais profundo do que o do grupo anterior (as lógicas de mercado são um anátema).
Cada grupo é depois subdividido em várias famílias, mais precisamente cinco, embora alguma delas pertençam apenas a um dos dois grandes grupos. Nomeadamente, os "renovadores comunistas" (Partido Comunista da Boémia e Morávia, Refundação Comunista/Itália, PCE, AKEL/Chipre e PCF) estão todos no campo da "esquerda radical"; os "comunistas conservadores" (KKE/Grécia, Partido Comunista da Eslováquia, PCP e Partido Comunista da Letónia) estão todos na "extrema-esquerda". Assim também, os "socialistas democráticos" (Aliança de Esquerda/Finlândia, o Partido de Esquerda/Suécia, o Partido Socialista Popular/Dinamarca, os Socialistas de Esquerda/Noruega, o Movimento da Esquerda Verde/Islândia, o BE/Portugal e a Coligação "Synaspismos"/Grécia) estão concentrados na "esquerda radical" (só a Aliança Vermelho-Verde/Dinamarca está na "extrema-esquerda"). Juntando o Die Linke/Alemanha e o Partido Socialista Holandês/SP, incluídos na família dos "socialistas populistas"/"esquerda radical", temos os quatro subgrupos que abarcam o maior (22) e mais relevante leque de partidos.
Vejamos o que os diferencia. Os "comunistas conservadores" caracterizam-se por se autodefinirem como marxistas-leninistas, por apresentarem uma visão pouco crítica da herança soviética, por se organizarem na linha leninista do "centralismo democrático" e por verem o mundo pelo prisma do conceito de "imperialismo" (dos tempos da Guerra Fria) - apesar de inflexões nacionalistas e populistas. Os "renovadores comunistas" descartaram grande parte do modelo soviético, nomeadamente o "centralismo democrático", e têm adoptado grande parte da herança da nova esquerda após 1968 (feminismo, ambientalismo, democracia participativa, estilos de vida alternativos, etc.).
Os "socialistas democráticos" definem-se a si próprios como simultaneamente críticos do "totalitarismo comunista" e da "social-democracia de pendor neoliberal", abraçando plenamente não só as causas da nova esquerda mas também uma abordagem "não dogmática" e, em muitos casos, "não marxista" do socialismo, abraçando ainda as causas da nova esquerda após 1968. A corrente dos "socialistas populistas" segue idêntica linha mas junta-lhe abordagens anti-elite e anti-establishment.
Apesar da sua subrepresentação no leste, a maioria dos países têm partidos esquerdistas cuja performance têm estabilizado ou crescido desde os anos 1980. Os mais bem sucedidos são os que conheceram uma significativa evolução ideológica e estratégica: superaram o dogmatismo e têm quadros carismáticos e pragmáticos que se centram em tópicos de campanha específicos e conjugam a sua acção institucional com a luta extraparlamentar. Os mais bem sucedidos, nomeadamente os "socialistas democráticos", promovem uma agenda "eco-socialista" e tentam influenciar os social-democratas pela esquerda, nomeadamente participando em (ou apoiando) governos. E se é verdade que há alguma erosão resultante dessa participação, ela não é na maioria dos casos significativa e, sobretudo, "tais perdas não são piores do que aquelas que ocorrem quando estão na oposição". Mas a relação dos esquerdistas com os socialistas, e vice-versa, fica para um próximo artigo. Politólogo (ISCTE) (andre.freire@meo.pt)


 

O seu comentário
Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório

Digite em baixo os caracteres desta imagem

Se tiver dificuldade em enviar o seu comentário, ou se preferir, pode enviar para o e-mail newsletter@comunistas.info.