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05 DE OUTUBRO DE 2007, SEXTA FEIRA
POR: comunistas.info
À conversa com Falah Alwan!
dirigente dos sindicatos e do Partido Comunista dos Trabalhadores do Iraque
No dia 1 de Outubro realizou-se um encontro entre Falah Alwan, dirigente dos sindicatos iraquianos e do Partido Comunista dos Trabalhadores Iraquianos, com a Associação Política Renovação Comunista, representada pelos camaradas Paulo Fidalgo e Luís Carvalho. Debateu-se naturalmente a situação no Iraque mas igualmente o estado de maturação do campo comunista mundial ainda profundamente marcado pelas derrotas do leste e carente de profunda reorganização e redefinição programática. São as notas dessa conversa que hoje aqui reproduzimos.
Não deixa de emocionar o calor do seu verbo, com discurso fácil e cheio de referências a Marx, ao falar com confiança na Revolução. Como é possível, vindo das profundezas do obscurantismo religioso e da divisão étnica que hoje, mais do nunca, sujeita o Iraque, trazer alguém a mensagem da transformação?

A táctica comunista iraquiana face à ocupação americana
Falah Alwan fez-nos de novo entender (depois da anterior visita de Houzan Mahmoud) como é hoje prioritária a organização popular laica em contraponto ao desenvolvimento de uma insurreição armada, quando nem a mínima base organizativa existe para o desenvolvimento de acções militares. Armados estão e até aos dentes os bandos e seitas religiosas e étnicas, de obediências várias, estrangeiras, usurpadores dos sentimentos patrióticos que são fortes na população. “Eles querem a força militar para se posicionar na partilha do poder e não para livrar o povo da tirania e da opressão”. “Eles querem ganhar peso para ocupar posições no exercício dessa mesma opressão”, diz mais ou menos por estas palavras o nosso camarada. Estas posições do partido e das forças democráticas iraquianas são de resto bem conhecidas ainda que mal compreendidas por muita gente da esquerda em Portugal. Neste aspecto, a situação iraquiana mantém-se difícil, ainda que a recente greve dos trabalhadores do petróleo tenha sinalizado avanços sensíveis nos sindicatos e na organização das forças populares.

A conversa derivou afinal para um debate mais estrutural da estratégia da esquerda e dos comunistas.

A fragilidade principal dos comunistas no mundo de hoje
A Falah Alwan puxa-lhe a palavra para a reversão geral da correlação de forças no poder político, o entendimento vulgar de revolução, como condição para construir uma nova economia. “Sem conquistar o poder não se pode avançar na economia” diz com convicção, o que pressupõe que os revolucionários tenham presente o plano da sua edificação. Plano, como sabemos, bastante ausente da prospecção das forças revolucionárias, no Iraque e no Mundo, como reconhece Falah Alwan. É aí que ele desenvolve uma amadurecida crítica do modelo soviético, com o seu estatismo que usurpou, sem remédio, a auto-organização e reapropriação laboral do sobre-produto em vez de evoluírem os trabalhadores para formas de associativismo cooperativo. Foi portanto fácil o entendimento – com comunistas.info – no sentido de uma nova economia dever fundamentalmente percorrer caminhos contrários ao pós-bolchevismo na URSS. A resposta não pode estatizar e tornar o Estado em motor coercivo de extracção de mais-valia, por via da sujeição dos trabalhadores à opressão assalariada, deverá antes libertar o seu génio criativo, energia e motivação produtivos para expandir a economia na magnitude e qualidade adequadas às necessidades de progresso e bem-estar populares. Expansão económica eficiente em resposta à quase estagnação das economias capitalistas desenvolvidas, em estado vegetativo e sem músculo em contra-ciclo, apenas, com a (forte) excepção da bolha asiática.

O problema do campo comunista é o de moldar um plano de crescimento centrado nos interesses populares por via de uma vasta mobilização da sociedade civil de trabalhadores auto-oganizados a operar em novos moldes e com novas relações de produção. Afirmar isto é com certeza fácil. Concretizá-lo carece de estudo e transferência da investigação marxista, tantas vezes académica, para as organizações populares e partidos comunistas.

Falah Alwan é posto à prova – por comunistas.info - na sua enraizada convicção de que a história da nova economia apenas começa depois da tomada do poder. Portador que é do esquema clássico do bolchevismo e do marxismo. “Sem tomar o poder não é possível transformar a economia” defendeu enfaticamente. Sabemos contudo que esta visão – e sabemos que a visão é indispensável na orientação da acção – contraria bastante a ideia primordial de que a economia e as crises sociais é que determinam a política e não são os políticos e as instituições da política e os aparelhos do Estado que comandam a economia e a sociedade. Haverá com certeza momentos de antecipação das tendências da chamada base económica na esfera da consciência, mas a criação da nova economia não pode resumir-se a um plano que se edifica de cima para baixo. É compreensível esta simplificação, quando a ambição dos comunistas é a de se apropriarem das leis cegas da economia e orientá-las conscientemente, como o meteriologista nos dá a opção de nos resguardamos da chuva quando a sua probabilidade de acontecer é elevada. É porém uma temeridade pensar que se pode domar a economia por voluntarismo, sem conhecer e penetrar na revelação das suas leis e tendências, conhecimento que, como sabemos, está em contínuo aprofundamento e longe de nos dar essa capacidade de intervenção pertinente. Actuar com consciência na economia, não é fazer dela “o que nos vier à cabeça” podemos dizer parafraseando Nikolai Bukharine na sua disputa com os comunistas de esquerda no Comité central do partido bolchevique nos anos 20 do século XX. Há visivelmente uma necessidade de revisitar e de refinar o modelo clássico de transformação económica, e Falah Alwan acabou por concordar, mais uma vez, que a agenda prioritária da esquerda está na questão económica da revolução.

Para uma realidade como o Iraque de hoje, o processo de transformação surge naturalmente de forma um tanto simplificada porque a economia iraquiana tem uma base atrasada, no plano tecnológico e no plano da formação da mão-de-obra. É uma evidência que o Estado iraquiano está em desaparecimento e não existe espaço económico do Estado, ao contrário da sua importantíssima expressão no capitalismo desenvolvido, em particular na Europa. Por isso, perdura talvez a ideia de que a transformação é sobretudo a reversão do conselho de administração da empresa capitalista a favor dos trabalhadores – a expropriação dos expropriadores – desde que antes se tenha revertido o conselho de todos os conselhos de administração, o governo burguês. Para Marx, como sabemos, o governo burguês não é mais do que o comité geral de negócios dos capitalistas – tese bem pertinente, aliás - e daí que a sua reversão se constitua no alvo dos alvos da acção política na visão de um revolucionário a actuar nas terras da Mesopotâmia.

Falah Alwan não deixa de reconhecer que ao contrário desta visão da transformação do capitalismo em socialismo, foi suportada a revolução francesa pela nascente economia capitalista já em plena operação no feudalismo. Havia portanto uma base económica capitalista que financiou e lançou as bases da revolução na esfera política. O novo poder burguês quase se limitou a libertar as teias e entraves jurídicos e de Estado que antes oprimiam a formação económica nascente. O que é operativo na evocação da revolução burguesa é a admissão por correntes marxistas de que há já hoje no capitalismo desenvolvido fenómenos de divergência económica e de potencialidade alternativa a operar em pleno capitalismo. Como é o caso da economia estatal. Esta pode muito bem evoluir para novas relações de produção, para um quadro de autonomia dos seus trabalhadores e para um motor intrínseco de valorização e expansão, susceptível de se constituir em modalidade competitiva com o próprio capitalismo convencional. Evoluirá com certeza se uma nova consciência e táctica forem adoptadas pelos seus trabalhadores, com vista a reclamar a autonomia, valorização e desassalariamento das empresas públicas, antes mesmo de acontecer a reversão do poder burguês, constituindo-se porventura em base de pressão para essa mesma reversão. Nesta visão, a revolução na esfera política pode acontecer com outro tipo de sequência em relação à transformação económica diferente do que aquela que Falah Alwan imaginava. Em vez de representar o disparo da transformação, pode acontecer a revolução como o culminar de um processo de transformações na economia e em parcelas do Estado, que se afirmam pela sua vantagem e apoios.

A luta iraquina anti-imperialista e o conceito actual de imperialismo, globalização, e Estado-nação
Falah Alwan argumenta depois com grande pertinência para o significado mundial da batalha que se trava hoje no Iraque, para o bem e para o mal. Para o nosso camarada, os EUA pretenderam ao fim e ao cabo sujeitar a região “aos moldes da globalização capitalista”. Terá sido esse o sentido estrutural, efectivo, da intervenção, ainda que outras sinaléticas possam ser reconhecidas em variantes do discurso imperial. O que Falah Alwan nos diz, e não temos dúvidas hoje da verdade desta afirmação, é que os EUA falharam rotundamente neste propósito. A derrota da globalização ao estilo norte-americano, no Iraque e em toda a região, desencadeará ondas de choque, para a super-potência e para todo o mundo, seguramente.

A afirmação de Falah Alwan é questionadora do que é ainda hoje percebido como construção do conceito de imperialismo. Para parte do campo comunista, imperialismo é antes de tudo domínio territorial de colónias ou neo-colónias, para controlo de fontes de matéria-prima e imposição de termos de troca desfavoráveis, a favor de super-lucros da metrópole. Império, nesta acepção, é antes de tudo domínio territorial directo, ou por governo fantoche. Para Falah Alwan, a invasão do Iraque, se bem que evocativa pela ocupação militar do regresso ao domínio territorial, procura afinal algo de bastante diferente: ordenar o país e a região segundo as forças do mercado, da globalização capitalista e dos seus mecanismos jurídicos, de Estado e de coerção. Por se apresentar como pólo recalcitrante na aceitação dessas regras, o Iraque e a região careciam de punição e da acção decidida da “comunidade internacional”, o eufemismo que nomeia o sistema hierárquico internacional de estados garantes dessa mesma ordem. A punição ambicionava não só a aceitação por parte do Iraque dessas regras, entre as quais se deve incluir a regulação/coerção sobre a mão-de-obra operária necessária à expansão do capitalismo, mas ambicionava mesmo a reversão geral dos mecanismos dessa recalcitrância, a sua prevenção definitiva, com a montagem de uma ordem interna conforme ao modelo vigente.

A percepção de Falah Alwan ajusta-se à noção de globalização como organização do mercado mundial capitalista segundo um sistema hierárquico de Estados, com relações de dominação e subordinação entre si, com os EUA à cabeça. Esta tese formulada por Ellen Maiksens Wood (EMW), a prestigiada marxista canadiana, opõe-se à ideia de globalização como sistema de poder descentrado do espaço nacional territorializado. Segundo algumas ideias precipitadas, a globalização seria a construção de um sistema mundial dominado por multinacionais e aparelhos sem pátria, onde o Estado nacional deixaria de ocupar poder. Para EMW, a globalização é pelo contrário a manutenção de uma lógica de Estados, que asseguram na ordem interna as condições jurídicas e de poder essenciais à navegação mundial do capital e dos seus negócios e garantem, sobretudo, as condições de subordinação da mão-de-obra assalariada. Para o capitalismo, a forma Estado nacional, ainda que remodelada e sujeita a relações hierárquicas que limitam a soberania revela-se a moldura ideal para a operação mundial do capital. Daí a actual proliferação de Estados, que se sujeitem ou se rebelem contra o sistema da globalização. Foi essencialmente esse sistema que os EUA quiseram implantar no Iraque e estender à região. Nesse modelo, o Estado nacional não serve apenas os propósitos de controlo de matérias primas e do saque ao estilo colonial, mas surge como o espaço ideal para a produção e comercialização competitiva de mercadorias, para a extensão afinal a novas regiões das relações de produção capitalistas. Esse projecto americano falhou de forma rotunda no Iraque.

Para Falah Alwan, o Iraque é hoje um território fragmentado por áreas de influência religiosa e étnica sem qualquer obediência a um Estado com poder central, onde as influências localistas negoceiam directamente com companhias estrangeiras, em condições de resto, com risco para os negócios. O retrocesso do Estado-nação foi o resultado da intervenção americana e a questão que se levanta aos comunistas na região é a de saber como responder à crise do Estado, para refazer um clima de entendimento e coesão multi-étnica e multi-religiosa, o que naturalmente pressupõe avanços no laicismo.

Falah Alwan argumenta que a estratégia da esquerda só pode ser a de empunhar a reconstrução de uma forma Estado, laica e de base multi-nacional. A história parece de novo empurrar os comunistas para objectivos de edificação do Estado, um tipo de programa bastante diverso das ambições originais de uma humanidade universal substancialmente associada à superação da própria nação em si e do Estado que a enforma. A sensibilidade do nosso camarada vai todavia mais longe no sentido de defender que a reconstrução de um projecto regional de tipo Estatal, pressupõe o compromisso da esquerda internacional com um programa de globalização alternativa apontado a uma efectiva cooperação internacional, onde se afirme uma ideia de regulação internacionalista oposta e muito para além dos desígnios de mera organização da navegação mundial do capital. “O mundo exige uma reactivação do internacionalismo” e a “formação de uma plataforma mundial dos comunistas” que saibam disputar, no plano mundial e regional, a hegemonia política e institucional ás forças burguesas. No caso do mundo árabe, essa pulsão tem de associar o restabelecimento nacional à formação de alianças e mecanismos supranacionais e regionais de associação que construam uma globalização a sério, na senda de uma humanidade universal. O que Falah Alwan nos está a querer fazer compreender é que no Iraque se joga a viragem para uma nova era de crescimento e maturação das condições para uma globalização alternativa, na esteira do fracasso estrondoso da solução manu militare com que os americanos jogaram na sua arrogância de protestantes anglo-saxónicos dotados de uma suposta superioridade civilizacional, senão mesmo étnica sobre o resto do mundo.

Em resumo, a posição de Falah Alwan convoca nos marxistas um urgente debate em torno do problema da transformação económica e da urgente definição das suas condições definidoras, da sua relação com o problema da revolução na esfera política – a questão da tomada do poder-, e levanta uma profunda reflexão acerca do que é hoje o imperialismo, a globalização e das pertinentes vias para a vencer. Para Falah Alwan, sem um novo patamar mais avançado de organização internacionalista dos trabalhadores e dos comunistas não é sequer imaginável qualquer perspectiva de avanços sensíveis na correlação de forças.





 

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