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04 DE FEVEREIRO DE 2021, QUINTA FEIRA
FONTE: RC
A Renovação Comunista e as eleições presidenciais
A Renovação torna pública a sua apreciação das presidenciais e do quadro político próximo da sua intervenção
A Renovação Comunista considera que o principal critério para avaliar o resultado das presidenciais, na presente conjuntura, é o alcance que poderá ter na governação e nas condições para aprofundar a colaboração entre o centro-esquerda e a esquerda.

1 - As eleições presidenciais tiveram como característica mais saliente a dispersão dos votos daquilo que tem sido o perímetro maioritário de centro-esquerda e esquerda. Desta vez, os votos distribuíram-se entre Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Gomes e os candidatos à esquerda. Essa dispersão não modificou sensivelmente as condições para a sustentação da futura governação.

O facto de muitos eleitores de centro esquerda, e mesmo de segmentos do eleitorado de esquerda, terem acompanhado a indicação de António Costa para votarem em Marcelo Rebelo de Sousa, não significa que tenham passado a apoiar soluções de governo de bloco central ou que tenham passado a identificar-se com as propostas da direita ou do grande capital.

O país não mudou o seu eixo político maioritário nem deixou de apoiar o governo do PS sustentado em acordos com a esquerda, longe disso.

A interpretação lógica para compreender o voto em Marcelo Rebelo de Sousa assenta no facto dos eleitores valorizarem o seu mais recente posicionamento, centrista, apesar do seu passado de líder da direita e a sua nunca desmentida filiação com esse espaço político. Essa valorização aconteceu mesmo que o seu passado permita levantar a questão de estarmos perante uma mera adaptação tática, do seu discurso, para mais tarde tentar devolver o poder à direita. E reconhecendo ainda a tendência para os presidentes serem mais confrontacionais nos segundos mandatos, por se sentirem livres de ter de disputar uma reeleição.

Apesar destes riscos, os eleitores valorizaram a coabitação do presidente com o governo do Partido Socialista que governa com acordos de orçamento com a esquerda, não obstaculizando, no essencial, a estabilidade governativa nem as condições para a máxima reunião de forças no combate à pandemia.

Ao decidirem votar em Marcelo Rebelo de Sousa, o que muitos eleitores quiseram apoiar foi um mandato de colaboração institucional com o governo, incluindo a sua inédita e positiva característica de se apoiar na esquerda.

É importante sublinhar que a votação do centro-esquerda e da esquerda em Marcelo Rebelo de Sousa acabou por ser decisiva para a sua expressiva vitória.

A direita tradicional, pelo contrário, foi uma contribuinte pouco relevante para a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Não apresentou qualquer proposta política e, ainda por cima, enfraqueceu-se com a deslocação de uma parte do seu eleitorado para a extrema-direita que assim quis castigar a sua crescente irrelevância. Cada vez mais entalada pela sua própria incapacidade, a direita mantém-se em lógica de declínio, está mais desorientada e desesperada pelo longo afastamento do poder, ao ponto de passar a acolher repugnantes discursos de legitimação da extrema-direita como hipotético parceiro político para formar coligações.

2 – Para a Renovação Comunista, o cenário mais favorável numas eleições em que a direção do Partido Socialista não deu indicação de voto e em que António Costa publicou o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa, seria construir uma candidatura polarizadora de uma esquerda abrangente. Uma candidatura capaz de fazer convergir partidos de esquerda e setores socialistas descontentes com a decisão do PS de, fundamentalmente, se ter esquivado ao combate presidencial. Um polo expressivo à esquerda seria porventura um ativo político para dar mais força a mudanças mais estruturais na governação, mais à frente. Prevaleceu, contudo, a opção de marcar territórios eleitorais.

Mesmo perante o cenário irreversível de apresentação de candidaturas separadas, a Renovação Comunista ainda evocou uma velha tradição política de poderem os candidatos convergir e negociar desistências a favor do mais bem colocado. Não foi essa a interpretação das várias candidaturas, e com isso a esquerda desperdiçou uma oportunidade de acumular mais capacidade estratégica de influenciar a governação.

Ainda numa avaliação durante o decurso da campanha, a Renovação Comunista fez apelo ao voto em Ana Gomes por ter considerado que os dados mostravam a sua posição mais vantajosa. Considerou que a candidata se posicionava melhor para superar os votos da extrema-direita, dada a noção de estarem a acontecer importantes deslocações do eleitorado de direita a seu favor. Ainda que o resultado de Ana Gomes não tivesse obtido a expressão que muitos tinham ambicionado, num contexto de eleições com as condições adversas decorrentes da pandemia, foi possível superar a candidatura da extrema-direita e limitar a sua capacidade em se reclamar como alternativa política. Em termos de impacto futuro, o eleitorado de Ana Gomes continuará a contar na construção de uma alternativa à esquerda para Portugal ainda que a candidata não venha a prosseguir uma ação política estruturada com influência real no futuro.

3 – As candidaturas da esquerda quedaram-se por resultados modestos, pela estreiteza partidária em que se colocaram, e por isso não acumularam força negocial para a governação futura. A insistência neste tipo de candidaturas de base estreita não foi compreendida pelo eleitorado mesmo aquele que normalmente vota no Bloco de Esquerda e no PCP preferindo em larga medida votar nos candidatos mais bem colocados.

Quando estamos numa fase histórica, marcada por dificuldades e escolhas difíceis, em que o que importa é construir soluções de poder em convergência com o centro-esquerda, o que deveria mobilizar a esquerda seria o ganhar de força e prestígio político, pela qualidade das suas propostas e pela agilidade nas alianças para influenciar decisivamente as soluções de que o país carece. Insistir em soluções estreitas que não abrem para ganhar novos apoios, de nada serviu neste caso, e acabou até por facilitar uma imagem de fraqueza que não deveria deixar de provocar uma – urgente - reflexão e debate na esquerda.

4 – O que mais importa a partir de agora é agir com todo o centro esquerda e a esquerda para parar a pandemia, promover a vacinação maciça da população e dar resposta à gravíssima crise social e económica. Nesse combate muito exigente, onde a capacidade fazer propostas e de apresentar soluções será porventura ainda mais crítica, no curto prazo, é imperioso dar prioridade à regulamentação da Lei de Bases de Saúde no sentido de fixar uma nova política de saúde, e relançar o SNS profundamente fustigado pela pandemia, avançar para mudanças de fundo na política educativa e nos sistemas sociais, áreas de intervenção que em conjunto melhor poderão responder aos anseios dos portugueses, dar-lhes motivo de esperança, e assim fazer avançar o país em coesão e derrotar demagogia da extrema-direita.


 

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