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03 DE JULHO DE 2020, SEXTA FEIRA
FONTE: RC
POR: Paulo Fidalgo
Pela semana dos 4 dias...
“A águia levanta voo à sexta-feira” (“Stormy monday”, conhecido blues de Chicago de T-Bone Walker)
O confinamento mostrou que podemos fazer melhor com menos carga horária de trabalho. Há que assumir a luta pelo encurtamento do tempo de trabalho.
“Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, forneceu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

Paul Lafargue. O Direito à preguiça . Nova Alexandria. Edição do Kindle.



Um benefício emergente, não planeado, do contágio de uma infeção é que a única forma de o combater quando não se dispõe de meios farmacêuticos, é trabalhar menos e não mais, para garantir distanciamento. Esta resposta necessária tem o efeito na economia dominante que uma greve de trabalhadores pode ter: parar/emperrar a máquina de extração de valor excedentário. A greve tem sido, de resto, a forma dos trabalhadores imporem a redução da jornada de trabalho ao longo da história.

De acordo com os clássicos, reduzir o tempo de trabalho é uma forma de combater a exploração. Foi assim com a vitória das 10h00 de trabalho na Inglaterra do século XIX, foi assim com as 8h00 de trabalho nos campos do Alentejo* e será assim com novos avanços no encurtamento da jornada de trabalho.

Paul Lafargue encontra inspiração nas tradições grega e romana – “Platão e Aristóteles, esses pensadores gigantes (...), queriam que os cidadãos de suas Repúblicas ideais vivessem na maior ociosidade, pois, acrescentava Xenofonte, ‘o trabalho tira todo o tempo e com ele não há nenhum tempo livre para a República e para os amigos". (Paul Lafargue. "O Direito à preguiça". Nova Alexandria. Edição do Kindle).

Ainda que subsistam ambiguidades na noção de trabalho, sabemos que há emprego monótono, embrutecedor, e há trabalho votado à criação de obra e que a noção de ócio dos antigos se dirigia precisamente a excluir as formas de sujeição e não as de criação.

A pandemia, pela paragem forçada que determinou, veio revelar como desorganizada é a vida social, como perdemos horas em transportes de má qualidade, como nos esfarrapamos em mais de um emprego para conseguir sobreviver sem que nos interessemos pelo que estamos a fazer. Ao parar, vimos que podíamos fazer outras coisas se mantivermos o rendimento. A nova organização do tempo, nem sempre levou a coisas especialmente interessantes, pode ter servido para perder o tempo a ver séries disparatadas na TV, mas também percebemos que podíamos e devíamos ter tempo para fazer algo de construtivo, adotar um estilo de vida saudável, ler livros em atraso, empreender projetos. O mundo podia ser melhor se tivéssemos mais tempo para nos concentrarmos numa produção aperfeiçoada, para cuidarmos de nós e dos nossos.

A paragem provocada pela pandemia veio precipitar a questão da redução do tempo de trabalho como objetivo do movimento dos trabalhadores, que já vinha amadurecendo antes do COVID 19. Aliás, Portugal legislou no tempo de António Guterres** sobre a semana de 4 dias aplicável a setores da função pública embora determinando uma redução significativa de vencimento de 20%. Daí, porventura, a sua menor utilização, ou então tendo em vista sobretudo acumular com segundos empregos, aspetos que acabam por lhe retirar impacto na evolução da economia e da sociedade. Por outro lado, o movimento sindical tem reclamado em Portugal a redução de horário para 35h00 por semana.


If you can have parents spending more time with their children, how is that a bad thing?” (se tivermos pais que podem despender mais tempo com os seus filhos, como é que isso pode ser uma coisa má?) Andrew Barnes, fundador da Perpetual Guardian empresa pioneira na semana de 4 horas,de Aotearoa (Nova Zelândia)

Porquê lutar pelo encurtamento da semana de trabalho?
Desde logo é necessário cortar com a sobrecarga de trabalho que hoje domina de forma crescente as economias. Portugal é um dos países europeus com maior carga semanal para o emprego principal, ao qual se deve juntar a carga de segundos empregos, transporte e trabalho doméstico que sobrecarrega sobretudo a mulher. Com a ruptura dos compromissos sociais do “new deal” americano e dos consensos europeus do pós-guerra, segundo os quais a classe operária poderia ambicionar uma progressão salarial e uma ascensão social transgeracional, embora desligada do crescimento dos lucros, o que aconteceu com a hegemonia do neoliberalismo foi a progressiva estagnação e desvalorização salarial, em que os trabalhadores foram forçados a defender o rendimento por via do pluriemprego e o recurso ao crédito. Com a hegemonia do neoliberalismo cessou o movimento histórico a favor do encurtamento da jornada de trabalho no mundo.

Numerosos estudos mostram que, com a semana dos 4 dias, a produtividade não depende tanto da enorme carga horária mas do bem-estar do trabalhador, níveis de fadiga e da sua saúde geral. O relatório*** do historiador económico Robert Skidelsky vem precisamente estabelecer como é possível passar do desejo para a viabilidade prática da redução do tempo de trabalho.

Os dados**** mostram também que a produtividade do trabalho tem uma tendência praticamente inversa na sua relação com a carga de trabalho, com países de alta produtividade a apresentarem menor carga (p. Ex: Alemanha) e os que têm baixa (p.Ex: México), a apresentarem elevada carga.

A redução do tempo de trabalho é também uma resposta ao desemprego, à remodelação para trabalho online e às necessidades de intensificar a procura como instrumento de resposta à estagnação económica. Foi precisamente este último aspecto que levou a primeira ministra trabalhista de Aotearoa (Nova Zelândia), Jacinda Arden , de avançar com a proposta da semana dos 4 dias como expediente para estimular o aumento do turismo interno, lazer e indústria da cultura.

De acordo com as propostas do grupo AUTONOMY , uma semana mais curta de trabalho ajudaria a mitigar a ameaça da crescente automatização e do desenvolvimento da inteligência artificial, instrumentos que visam precisamente libertar a humanidade do trabalho penoso e embrutecedor. Ajudaria seguramente a reduzir a pegada de carbono e a conjurar a catástrofe climática. Notámos todos aliás o efeito benéfico profundo que o confinamento produziu nas emissões de carbono. Porventura, ainda mais importante seria o efeito favorável na igualdade de género, uma vez que o maior encargo laboral não remunerado penaliza sobretudo a mulher e a redução do tempo de trabalho pressionaria maior partilha de tarefas nos cuidados com a família. A verdade é que a liberdade é vista como elemento nuclear das nossas sociedades, e o aumento do tempo livre é precisamente uma condição para fruir a liberdade.

Precisamos de reclamar a ideia de que o tempo e o espaço do trabalho que preenchem as nossas vidas é uma escolha política e não uma necessidade económica. A semana de 4 dias sem perda de rendimento pode tornar-se a pedra angular do que significa a liberdade para o século XXI.

* http://dorl.pcp.pt/index.php/histria-do-pcp-menumarxismoleninismo-103/85-momentos-da-historia-do-pcp/226-as-8-horas-de-trabalho-no-campo

**https://www.verbojuridico.net/legisl/1999/dl99_325.html

*** https://progressiveeconomyforum.com/wp-c

**** https://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2019/02/05/where-labor-p


 
Te Economist
Enviado por Paulo Fidalgo, em 09-08-2020 às 09:14:22
Atenção ao artigo de Adam Grant no The Economist

Adam Grant
professor e dirigemte sindical
Enviado por António Miguel Silva Avelãs, em 06-07-2020 às 17:29:36
Nos serviços que têm de funcionar todos os dias - e alguns de forma ininterrupta- a semana de 4 dias obrigaria a um aumento do emprego, e isso era bom. Por outro lado, articulando aumento de mão de obra, fruto da redução para 4 dias de trabalho e mais emprego com uma maior eficiência tecnológica, aumentaríamos as produções; estaríamos a facilitar uma sociedade hiperconsumista, de certo modo o contrário da tese aqui defendida. Mas viva a luta pela semana de 4 horas!

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