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27 DE SETEMBRO DE 2018, QUINTA FEIRA
FONTE: RC
POR: Cipriano Justo
Que nada lhe falte, à esquerda
"Não será insistindo nas diferenças, que estiveram sempre presentes, que se prossegue o que ainda só começou a ser construído. Será no exercício de identificação do que entretanto ficou mal feito e do que não está feito que se há-de encontrar a melhor formulação para prosseguir o caminho das transformações sociais que estão aí a bater à porta a cada dia que passa. Este não é o tempo de nos ficarmos por este ponto de partida, esta é a altura de ir mais além."

Se a avaliação que se faz da solução política encontrada para que o PS formasse governo é globalmente positiva, significando que foram tomadas medidas no sentido de tornar as condições de vida mais desafogadas para a generalidade da população, e se as diferenças relativamente ao governo anterior têm não só expressão nos indicadores macroeconómicos mas são também sentidas por aqueles que mais penalizados foram pelas políticas de austeridade, então o tempo que resta para concluir a legislatura há-de servir para fazer todas as contas políticas e delas serem retiradas as lições que interessam. Do lado do PS tudo leva a crer que, salvo algum acontecimento inesperado, já foi escrita a conclusão desta convergência que realizou com o BE, PCP e PEV, em sede da Assembleia da República. Tem sido repetido pelo seu líder, mas também por influentes dirigentes e figuras históricas do partido, como Manuel Alegre, que na noite de 6 de Outubro de 2019, depois de contados todos os votos, que o PS estaria pronto para retomar, no formato que dê mais garantias aos outros partidos, os acordos, revistos e aumentados, sejam eles escritos ou verbais, que tornaram possível, numa Europa assolada pela vertiginosa ascensão da extrema-direita, mesmo onde menos se esperava, configurando uma solução virtuosa que tornou Portugal um caso de estudo.

Portugal ter-se tornado um caso de estudo não é exclusivamente um assunto académico. Vai além dessas considerações. É, sobretudo, um caso onde foram investidos todos os argumentos que a razão podia invocar. Se as consequências políticas dos resultados de 6 de Outubro de 2015 podiam ser outros? Podiam, e houve quem os tentasse. Mas naquela altura a escolha era entre quem se preparava para estender por mais quatro anos os anos do empobrecimento criativo e quem, tudo visto e contado, estava em condições de promover o que antes nunca tinha acontecido: juntar e alinhar o que era mais importante e colocar um parêntesis naquilo que de momento representava uma discórdia. Foi um momento em que a razão política conseguiu impor os seus argumentos, mau grado os estados de alma de cada uma das partes resultantes de muitos anos de querelas e rancores. Tem sido este balancear entre razão e emoção que tem constituído a interface entre os subscritores dos acordos de 10 de Novembro de 2015. Porém, não tem sido esse aspecto que mais tem influenciado a condução da solução política. E esse é o lado da razão. É a valorização que tem sido feita dos resultados o que melhor tem vindo a representar o acerto das decisões tomadas nos dias que se seguiram ao acto eleitoral.

Importa, por isso, equacionar o que se deve seguir àquele acto que dividiu a história da democracia portuguesa em um antes e um depois do XXI governo constitucional. Tal como a situação política se apresenta, a nacional e a europeia, tudo indica que deverão ser valorizadas todas as vontades que visem reforçar e alargar o denominador comum entre o centro-esquerda e a esquerda. Não hão-de ser as picardias, mesmo as mais contundentes, ou as diferenças programáticas, que se devem sobrepor à avaliação que as respectivas bases sociais e eleitorais de apoio fazem destes três anos de governação, considerando que as suas expectativas não saíram defraudadas quando, em 2015, manifestaram a vontade de um entendimento político-partidário entre eles. Não será insistindo nas diferenças, que estiveram sempre presentes, que se prossegue o que ainda só começou a ser construído. Será no exercício de identificação do que entretanto ficou mal feito e do que não está feito que se há-de encontrar a melhor formulação para prosseguir o caminho das transformações sociais que estão aí a bater à porta a cada dia que passa. Este não é o tempo de nos ficarmos por este ponto de partida, esta é a altura de ir mais além.

Também não há-de ser a problematização da solução governativa que deverá ocupar as agendas do PS, BE, PCP e PEV. A acontecer, iriamos assistir a uma discussão sobre a forma mais do que sobre as matérias que estão em causa, uma vez que uma terá de ser a consequência da outra. Será na consideração dos programas de cada um daqueles partidos e no grau de compromisso que conseguirem alcançar que a solução governativa deverá ser encontrada. A presença do BE, PCP e PEV no governo só será relevante se representar, no plano programático, mudanças significativas na orientação política, por exemplo, a descentralização, a fiscalidade, os rendimentos, a saúde e o ensino. Está a dizer-se que estes partidos têm condições e estão à altura para ocupar lugares no aparelho do governo e que a sua presença representaria uma garantia de que politicamente se iria tão longe quanto possível.

Sendo este entendimento interpartidário incontornável para acrescentar quantidade e qualidade ao que já foi feito, a mobilização extra-partidária não poderá deixar de estar presente.

A ela compete manter em agenda a importância da cooperação entre os actuais actores políticos de esquerda, mas também o que interessa para a saída limpa da austeridade, que ainda não foi feita. Porque concretamente, e no final das contas, é isso que está em jogo: o fim da austeridade e a entrada numa era de prosperidade social.


 

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