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20 DE SETEMBRO DE 2018, QUINTA FEIRA
FONTE: RC
POR: Paulo Fidalgo
Unidade contra a barbárie
Os acontecimentos de hoje parecem reproduzir a atmosfera dos anos 30 do século passado com a ascensão do fascismo na República de Weimar. Esse traço comum é aqui evocado perante o alastramento de forças de extrema-direita na Europa e no mundo
“As noções de “jogo livre das forças de mercado” e o “laissez-faire” na economia são brutalmente substituídas por apelos à regulação estatal estrita” N Bukharin 1936, em “Problemas fundamentais da cultura contemporânea”, discurso em Paris em 3 de Abril de 1936 perante a Associação de Estudo da Cultura Soviética, no encontro organizado por André Malraux, onde compareceu a elite intelectual francesa.

Unidade contra a barbárie!

A pior das desgraças é o esquecimento.

Até a conservadora Angela Merckel afirmou que a memória do horror será esquecida logo que desaparecer a geração que viveu a segunda guerra.

Perante ameaças, e elas crescem em resultado das sequelas da grande crise de 2008, a desmemoriação leva a respostas intuitivas, irrefletidas, falsas, como seja procurar o guarda chuva dos supostos direitos identitários esquecendo, é claro, que tudo isso pode levar à carnificina e à barbárie.

Segundo Bukharine, no seu célebre discurso de Paris em 1936, o nacionalismo, pelo menos nas grandes potências, só na aparência é uma “autarcia”, um isolamento, um virar para dentro, com enganador desinteresse em modificar a correlação de forças internacional. É bem pelo contrário, um estado de preparação para a expansão, mais adiante. Decorre da tese de se encarar a paz como mero intervalo, efémero, que visa acumular condições para a confrontação, ou mesmo a guerra, o estado supostamente natural na nossa espécie segundo a visão ultra da direita. Bukharine, avisou a ilustre plateia francesa, em 1936, um ano depois do movimento comunista ter retificado a suas erradas orientações sectárias das décadas precedentes, no VII Congresso da Internacional que, ou se conseguia uma ampla convergência de forças, liberais, social-democratas e comunistas, ou o mundo retrocederia para uma catástrofe sem precedentes.

Antes adeptos do liberalismo da globalização desregulada, assiste-se agora a uma viragem de sectores do capitalismo a favor de um protecionismo vintage, em busca de um estado nacional que reerga fronteiras e desencadeie guerras aduaneiras. Também na sequência da grande crise de 1929, o capitalismo lançou a cartada do nacionalismo e do autoritarismo, para enganar um povo ingénuo e disponível para acreditar nas patranhas de uma redenção nacional que iria fazer recuperar emprego e salários.

Nos dois períodos históricos, a resposta à crise, dos sectores mais reacionários do capitalismo percorre, pois, caminhos semelhantes. E é isso que não podemos esquecer sob pena de repetirmos sempre os mesmos erros, na loucura vã de obter resultados diferentes.

Esperemos que, à esquerda, não se tarde em encontrar o antídoto por via da aposta na convergência alargada em defesa de um ambiente de segurança coletiva internacional contra as derivas do nacionalismo, e se isolem as forças extremistas no plano político e se erradiquem as suas causas estruturais, na economia.

As forças populares, do trabalho e da democracia, devem convergir para o relançamento económico, em coesão, só possível por uma cooperação e ordem internacionais democraticamente reguladas. Em que essa regulação contrarie os desmandos de um capitalismo predador que especula com a vida e o emprego de milhões de cada vez que faz uma aposta na bolsa ao carregar na tecla enter dos seus laptops.

O eixo da resposta da democracia, é necessariamente político, e é indissociável do eixo da remodelação na economia que afirme a coesão social. Mas é igualmente uma questão cultural e civilizacional tal como Bukharine apelou vibrantemente em 1936 na cidade das luzes perante a elite europeia. Face ao irracionalismo da extrema-direita que joga com o primarismo de sentimentos de medo presentes nos excluídos e ameaçados pela crise, é preciso travar a batalha das ideias e da cultura.

É preciso mostrar que ser nacional de um dado país, pertencer a uma raça ou religião, não é refúgio contra ameaças. Pelo contrário, é gerando uma atmosfera de cooperação que se poderá conter essas ameaças e responder aos anseios de estabilidade e progresso.

É preciso combater a demagogia do caudilhismo, que promete mão firme e a autoridade do Estado para redimir os medos, com o objetivo de acabar com a democracia e esmagar o protesto e a ação organizada das gentes.

É absolutamente necessário combater o engano das forças reacionárias que usam a ideia nacionalista para prometer ao povo um novo compromisso de colaboração de classes na quimera de mais emprego e crescimento salarial supostamente possibilitado pelo protecionismo e o autoritarismo.

Sabemos no que deram essas promessas no ascenso do fascismo dos anos 30 do século passado, na república de Weimar. O nacionalismo não resolve a situação dos debaixo, antes os empurra para as aventuras da confrontação, geralmente com mais empobrecimento, exploração, e retrocesso social, enquanto os de cima prosperam nos seus jogos de guerra. Tudo isto embrulhado ideologicamente na vertigem de uma regeneração nacional e no idílico regresso a uma grandeza nacional passada, próprios de um pensamento mágico dissociativo.

A história económica e política mostra que a brutal concorrência teorizada pelo liberalismo como mecanismo “natural” de compensação de desvios económicos, era falsa e levou à crise. Inicialmente, nos anos 30 do século XX, a resposta dos partidos burgueses foi a de enfrentá-la com receitas de austeridade, reduzindo défices, aumentando o desemprego, depauperando os trabalhadores. Em vez de a superar, ela agravou-se e gerou espaço para as falsas promessas do nacionalismo, do cesarismo de Estado para, no fundo, romper com a austeridade e desencadear estímulos monetários orientados para a indústria de guerra.
Na mesma linha, neste início do século XXI, a grande crise de 2008 faz surgir em setores do capitalismo a tentação para se romper com as receitas liberais precedentes, a favor do protecionismo, em rutura com as receitas da austeridade, só na aparência para favorecer a situação material dos povos. Quem primeiro procura aproveitar as receitas nacionalistas e a reposição dos défices de Estado é o capital desejoso de aceder aos fundos gerados em ambiente monetário soberanista. Se a austeridade foi uma cartada para os grandes interesses do capitalismo financeirizado reciclar os efeitos da crise, e transferir o seu ónus para cima dos povos, as receitas da extrema-direita que agora visam romper com a austeridade, são igual meio de aumentar os negócios do capital, e esmagar concorrentes que se afirmaram na periferia do capitalismo.

Na verdade, a resposta democrática ao avanço da barbárie está já muito atrasada.

Se olharmos ao mapa político da Europa, o panorama é alarmante, com o governo húngaro em funesto destaque no ataque à democracia. Porém, a Hungria está acompanhada cada vez de mais cúmplices num eixo de forças que conquista posições perante o atordoamento das forças populares. Se olharmos à rigorosa análise da Fundação Rosa de Luxemburgo* podemos compreender como a mancha da extrema-direita alastra. Podemos compreender inclusive como o fenómeno se alarga ao continente americano, a sul, e a norte, às Filipinas, Índia e Turquia.

A luta por estabelecer um perímetro democrático para a construção de uma ordem internacional de cooperação e segurança, incluindo obviamente a luta por uma Europa de democracia e união é indissociável da luta contra as manifestações antidemocráticas que rompem com os princípios basilares da democracia. Em caso algum se poderá confundir não-ingerência respeitadora de soberania, com macieza para com o fascismo em ascensão. Combater e punir os desmandos do fascismo não é ingerência é um dever dos democratas. Lembremo-nos do que foi a política de não-ingerência na política europeia nos anos 30 do século XX, uma cartada que fez das potências europeias contempladoras inativas face à agressão fascista contra a Espanha republicana, em 1936. E sabemos como a guerra civil espanhola e o seu desfecho deu estímulo aos preparativos para a outra guerra, a segunda guerra mundial.

O mundo parece mergulhar numa doença sem remissão, da incapacidade dos humanos se entenderem e juntarem forças para resolver os problemas do desenvolvimento. Porém, as manifestações de capacidade de resistir e relançar a ofensiva democrática mostram vitalidade em muitos cantos do mundo. Incluindo nos Estado Unidos onde há muitas décadas o movimento democrático não se tinha mostrado tão ativo. E na Europa, mesmo nas circunstâncias mais desfavoráveis do nacionalismo e autoritarismo em ascensão, há forças crescentes que se batem pela democracia e a cooperação. A esquerda e os comunistas saberão desempenhar um papel construtivo e aglutinador para conjurar os perigos.

*https://www.rosalux.de/en/publication/id/39161/the-far-right-in-government-1/



 

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