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Manolis Gleezos comunista, heroi nacional da Grécia e deputado europeu pelo Syriza
22 DE FEVEREIRO DE 2015, DOMINGO
POR: Manuel Oliveira
Afinal, foi da Grécia que veio uma lufada de ar fresco!
Manuel Oliveira procura responder à pergunta sobre as motivações do grupo dominante no Eurogrupo: se as finanças da Grécia têm pouco relevo na macroeconomia da União, quais são então as questões de "princípio" do ponto de vista das classes dominantes que determinam um tão alto nível de confronto? E convocamos o exemplo de Manolis Glezzos, o heroi comunista grego, hoje deputado europeu do Syriza e que teve o atrevimento de subir à Acrópole e arrancar a bandeira da suástica, em plena ocupação nazi de Atenas (na foto).
Decorridas algumas semanas sobre a vitória alcançada pelo Syriza nas recentes eleições na Grécia e em tempo recorde formado o Governo e aprovado o seu programa e iniciadas as negociações com as instituições internacionais, com especial relevo para a U.E. já é possível ver com alguma nitidez os contornos políticos desenhados pelas ondas de choque provocadas pelo turbilhão politico que tal vitória desencadeou, avaliar os seus efeitos e perspectivar os seus desenvolvimentos, bem como retirar os devidos ensinamentos para uma acção politica consequente.

E a primeira coisa que ocorre constatar é que há “um antes e um depois” desta vitória do Syriza. De facto, e sejam quais forem as consequências dessa vitória, nada ficará como dantes, na Grécia e na U.E. Não mais será possível dizer que não há alternativas. Não mais será possível impor medidas sem o escrutínio do contraditório. Não mais será possível envolver a acção política no secretismo dos gabinetes. Voltou, enfim, o primado da política e da democracia. E tanto assim é, que poucos dias decorridos, a Troika … já era!

Constatamos, de seguida, que esta alteração só foi possível porque se modificou positivamente a correlação de forças politicas existente. E não fora a previsível capitulação de alguns governos “socialistas”, as consequências desta alteração seriam bem mais radicais. E esta é uma lição que convém não esquecer: as reformas politicas, económicas e sociais que a U.E. precisa para resolver a crise actual e reforçar a coesão e a solidariedade do projecto europeu, só serão possíveis se se continuar a aprofundar a modificação positiva da correlação de forças politicas existente.

Mas, talvez, a constatação mais importante e mais subtil nos tenha sido revelada pelas reacções da Direita à vitória do Syriza.

Num primeiro momento, ainda atordoados, não a levaram a sério. Uma vez chegados ao Governo, diziam com displicência, a realidade vai moderá-los! Afinal, não tinha sido assim com o Hollande? Depois, ao verificarem a determinação do Governo Grego e o seu crescente apoio popular, deixaram cair a máscara e passaram à táctica da chantagem. E era o pagamento da dívida, o cumprimento dos acordos e a observação das regras, que era preciso respeitar a qualquer custo, como se isso não fosse a causa da caótica situação a que a Grécia chegou, e como se não fosse precisamente contra isso que os gregos tinham votado! E, então, há que rejeitar qualquer proposta por mais sensata que fosse.

Porém, o que preocupa a Direita não é nada disto, já que no conjunto da U.E. é perfeitamente possível amortecer os impactos de eventuais incumprimentos. O que verdadeiramente preocupa e assusta a Direita é que o novo Governo Grego execute o seu programa eleitoral, designadamente o aumento do salário mínimo, a reposição do 13º mês nas pensões abaixo dos 700 Euros, a reintegração dos funcionários públicos despedidos compulsivamente, o congelamento das privatizações e a taxação das grandes fortunas. Ou seja, existindo um problema económico e financeiro que é necessário resolver e que ninguém nega, a verdadeira questão é eminentemente política e ideológica. E quase sem darmos conta, com outras roupagens, num contexto democrático e nas próprias instituições, eis que se revela com toda a naturalidade, a nossa velha conhecida luta de classes. E é esta a razão que levará a Direita a tudo fazer para “dobrar”o Governo Grego. E as cedências que eventualmente faça terão a ver, apenas, com razões geoestratégicas ou com o receio das consequências imprevisíveis da saída da Grécia da Zona Euro.

Mas se as intenções e a estratégia da Direita é relativamente compreensível, já o mesmo não se pode dizer dos Governos “socialistas” e “social democratas” . De facto, é incompreensível que se tenha formado no Euro Grupo, cujo presidente é “socialista” convém lembrá-lo, um bloco de dezoito países afinados pelo diapasão intransigente da Alemanha.

Como incompreensível é que os Partidos Socialistas que na oposição têm uma retórica contra as politicas de austeridade, não tenham evidenciado qualquer discordância com o arrogante comportamento do Euro Grupo, e em particular com a atitude do ministro das finanças alemão. E nem a implosão do PASOK foi suficiente para fazer ver aos socialistas que esta era uma excelente oportunidade para tentar inverter o rumo das políticas europeias.

No nosso caso, é confrangedor ver a discrepância entre a retórica e a prática do PS de A. Costa. Depois de meses a fio a falar na renegociação da divida e na necessidade de reduzir os seus encargos para injectar na economia esse remanescente, não só faz agora tabu desse tema, como cala até aqueles que, num passado recente, a defenderam publicamente. Evidentemente, não se esperaria de A. Costa uma proposta acabada, até porque há várias soluções que podem ser aplicadas. Mas defender a realização de uma Conferência Internacional para debater esta questão central da política económica e financeira da U.E. (como propôs o Governo Grego) era o mínimo que se lhe exigia.

Todos nos lembramos que ainda recentemente A. Seguro ao mesmo tempo que negociava acordos à sua esquerda, indicava para cabeça de lista às eleições para o P.E. o principal “teórico” do Bloco Central! Constatamos, agora, que essa manhosa estratégia continua com A. Costa.

Ora, é neste complexo contexto político que o Tempo de Avançar decidiu meter ombros a uma empreitada de difícil concretização. E por isso impõe-se concentrar todos os esforços naquilo que é verdadeiramente essencial: a eleição de um grupo significativo de deputados. O tempo urge. Então, aproveitemos bem estes escassos sete meses que nos separam das eleições legislativas para fazer o que tem de ser feito: escolher bons cabeças de lista, dar a conhecer o programa (com pouca retórica e com medidas práticas que todos compreendam), contactar as populações e auscultar os seus problemas. Como diz o Cipriano Justo “Se é para avançar, avancemos então”. Decididamente, acrescento eu!
Porto, 20/2/2015 - Manuel Oliveira







 

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