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28 DE OUTUBRO DE 2015, QUARTA-FEIRA
FONTE: DN
POR: Entrevista de Sílvia Freches
Entrevista de Carlos Brito ao Diário de Notícias
"Com o PCP não tenho dúvidas, acordo assinado é acordo cumprido"
"O renovador comunista que depois de se autossuspender do partido defendeu mudanças ideológicas e o entendimento com o PS, confessa que ficou surpreendido com a decisão de Jerónimo de negociar com Costa. Diz haver condições para um acordo de esquerda para quatro anos"

Sílvia Freches DN -Ficou surpreendido com a abertura dada por Jerónimo de Sousa para PS liderar um governo com o apoio do PCP?

Carlos Brito - Sim, foi uma surpresa muito positiva. Mas atenção, ao longo da campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa deu alguns sinais de mudança. Ao mesmo tempo que criticava severamente o PS, ia anunciando que o PCP assumiria as suas responsabilidades, inclusive em relação à questão do governo. O BE também deu inequívocos sinais de mudança, especialmente quando Catarina Martins convidou António Costa a encontrarem-se no dia seguinte às eleições «para tratar do governo». Estas mudanças radicam, quanto a mim, na necessidade de travar os tremendos estragos provocados pela política de austeridade.

Sílvia Freches DN - Cavaco Silva tem razões para temer um governo/aliança de esquerda?

Carlos Brito - Não, não tem. Em democracia a única matriz para avaliação dos partidos políticos é a Constituição. Ora Cavaco Silva, com várias décadas de político profissional, ainda não percebeu isto. O seu crispado discurso de indigitação de Passos Coelho é inadmissível na boca de um Presidente da República em qualquer democracia digna desse nome. Ainda mais inadmissível no Portugal Democrático, que nasceu de um revolução que pôs termo a uma ditadura de quase meio século, que fazia da discriminação e da perseguição dos adversários políticos um dos seus principais métodos de governação.

Sílvia Freches DN - É uma frente condenada à partida face ao que ideologicamente separa os três partidos?

Carlos Brito - Os três, ou melhor os quatro partidos, incluindo o PEV, decidiram concentra-se naquilo que os aproxima e que é essencial: a rejeição de política de austeridade, com o seu rosário de desgraças, e a construção de uma alternativa de mudança que abra novas perspectivas de desenvolvimento ao nosso país. Trata-se de um desígnio patriótico, que é difícil de concretizar, mas tão importante, que merece todos os esforços e o sacrifício momentâneo, por parte de cada um dos partidos, de outros objectivos ideológicos que legitimamente mantêm nos seus programas. O programa comum que for alcançado e que será o Programa do Governo garantirá a solidez da solução.

Sílvia Freches DN - Até que ponto há que recear que o PCP e o Bloco rompam o acordado com o PS quando em cima da mesa se discutirem assuntos/legislação contrários ao que os dois partidos tradicionalmente defendem?

Carlos Brito - O acordo que for alcançado deve compreender o princípio da consulta e do diálogo permanente para superar as imensas dificuldades que se irão defrontar pelo caminho. O desígnio patriótico que levou à aproximação, à negociação e ao acordo, se for conseguido, tem que estar sempre presente ao longo da execução da dura tarefa governativa.

Sílvia Freches DN - Tem condições para ser um governo para 4 anos?

Carlos Brito - É uma condição quase indispensável que o acordo a que se chegar tenha um horizonte de 4 anos, a legislatura. Acho isso da maior importância do ponto de vista do interesse do nacional, do sucesso da solução e da justificação do envolvimento da cada uma das forças participantes.

Sílvia Freches DN - Com esta aliança de esquerda, o PCP não corre o risco de perder a sua identidade?

Carlos Brito - Em política, só há alianças entre diferentes, os iguais fundem-se que é o que está a acontecer ao PSD e ao CDS/PP. Em política, as alianças também não apagam as diferenças, até as sublinham, tanto realçam a matéria da convergência, como acontece agora com a rejeição da política de austeridade e a construção da alternativa, como salientam a identidade própria de cada um dos aliados, como também acontece presentemente com o reconhecimento geral da personalidade própria do PS, do PCP, do BE e do PEV.

Sílvia Freches DN - Se esta frente entre PS, PCP e Bloco não correr bem, a esquerda portuguesa não será altamente prejudicada?

Carlos Brito - É claro, as derrotas pagam-se. Mas à partida há que ousar o futuro! Há que derrubar o tabu que tem impedido a esquerda e o centro de se entendam. É preciso, sem dúvida, prevenir erros e más avaliações. Mas é imperioso acabar com a situação regalada em que a direita tem vivido, desfrutando os conflitos na esquerda. A grande novidade do presente quadro parlamentar resulta da circunstância da maioria numérica de esquerda (condição que já se verificou noutras legislaturas) convergir com a vontade determinada dos partidos que a constituem de transforma-la em maioria política e de governo (condição que se verifica pela primeira vez). É isto que faz carpir a direita e alegar que se estão a desrespeitar os «costumes».

Sílvia Freches DN - E um dos costumes diz que deve governar quem ganha as eleições?

Carlos Brito - Sim, em democracia deve governar quem fica a frente, mas só deve se for capaz de o fazer. Ora a coligação da direita está a demonstrar que não é capaz de fazer as alianças necessárias para obter a investidura parlamentar.

Sílvia Freches DN - Preferia que PCP fizesse parte do governo ou ficasse apenas como um partido que viabilizará um governo PS?

Carlos Brito - Preferia que o PCP tivesse pasta ou pastas no futuro governo, mas considero que não é essencial. Um acordo de incidência parlamentar é um instrumento político muito sólido para garantir a estabilidade de uma solução governativa. No caso do PCP, não tenho dúvidas, acordo assinado é acordo cumprido.

Sílvia Freches DN - Se o programa da coligação for rejeitado o que deve fazer Cavaco?

Carlos Brito - Deve indigitar o líder do segundo partido mais votado - António Costa. A maldosa ideia de deixar em gestão, ao longo de seis a oito meses, o governo PSD-CDS/PP, recusado pela AR, que terá passado pela cabeça de Cavaco Silva, é um atentado contra os interesses do país, e além do mais inconstitucional.





 

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