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30 DE ABRIL DE 2008, QUARTA-FEIRA
FONTE: Público
POR: Cipriano Justo
Arrumar a casa de quem?
"Se a casa está arrumada, seguindo os critérios da OCDE, não foi tanto por obra dos anõezinhos da floresta que vinham à noite limpar o pó, lavar os tachos, encerar o chão e pôr os móveis no lugar, foi porque os residentes na metade inferior da pirâmide social se viram obrigada a cortar na ração e a ir viver para o sótão, para a cave ou para a rua enquanto o vértice continuou a desfrutar dos lustres, dos fauteilles e do Dom Pérignon, numa demonstração de que o óptimo de Pareto não é uma treta."
Arrumar a casa de quem?
Cipriano Justo



Uma vez supostamente arrumada a casa das contas públicas com a redução do défice para valores já elogiados pelo comissário Joaquin Almunia, interessa perceber em que condições ficaram os seus locatários. Arrumar a casa é, indiscutivelmente, um exercício que todos e cada um realiza periodicamente na expectativa de se sentir melhor e mais confortável no lugar onde habita. Umas vezes dando-lhe um novo sentido estético, outras tornando-o mais funcional, mas o sentido último é transmitir mais bem-estar, aos que estão ou aos que eventualmente chegarem. Não está por isso em causa o propósito de se arrumar a casa pública. Questionável foi a iniquidade com que foi realizada.

Apesar de nos últimos tempos, principalmente por ocasião dos debates quinzenais na Assembleia da República, o governo ter operado uma modificação semântica no seu discurso, passando a intitular as bancadas do PSD e do CDS de direita, nem por isso ele acrescentou sinais de esquerda às suas políticas. Não é de esquerda quem quer, nem quem de vez em quando deixa cair umas moedas na caixa das esmolas. Se a casa está arrumada, seguindo os critérios da OCDE, não foi tanto por obra dos anõezinhos da floresta que vinham à noite limpar o pó, lavar os tachos, encerar o chão e pôr os móveis no lugar, foi porque os residentes na metade inferior da pirâmide social se viram obrigada a cortar na ração e a ir viver para o sótão, para a cave ou para a rua enquanto o vértice continuou a desfrutar dos lustres, dos fauteilles e do Dom Pérignon, numa demonstração de que o óptimo de Pareto não é uma treta.

Quem, durante estes anos, passou por estes apertos e se mantém neles não se irá esquecer tão facilmente tanto da obra deste governo como da obra dos governos de Durão Barroso e Santana Lopes. As suas vidas alteraram-se drasticamente nestes últimos tempos, arrastando na enxurrada a memória dos acontecimentos e do percurso que tiveram de empreender para se manterem com a cabeça fora de água. Sim, há de facto uma indisfarçável agudização da conflitualidade social que já preenche todo o espectro que vai da irritação à revolta. Quando populações inteiras em vários pontos do país descem à rua para defender os serviços públicos de saúde, a CGTP reúne milhares trabalhadores em luta pela defesa do direito ao trabalho e cem mil professores desfilam em Lisboa em protesto contra a política do sector, está dada a escala da oposição às políticas deste governo.

Não serão, por isso, as pontes, as barragens e as auto-estradas que irão conseguir alterar a situação que está instalada. Que por uma vez o PS não alimente ilusões quanto ao desfecho do desempenho deste governo. Porque quem desfruta dos salões vai querer manter-se por lá e porventura expandir a taxa de ocupação, quem foi parar à cave não irá contentar-se com as délicatessen com que o governo irá procurar adocicar-lhes o descontentamento e, que se saiba, nunca esteve nos planos dos anõezinhos trocarem a Branca de Neve pelo primeiro-ministro português. Por isso, e tendo em conta que o comboio da história nunca passa pela mesma estação à mesma velocidade, se a esquerda não tomar a iniciativa bem pode acontecer que em 2009 se transforme não numa efígie de sal - o símbolo supremo da desobediência - mas na espectadora de si própria. E ser espectador de si próprio é o argumento de quem quer fazer da imobilidade um programa de vida. Dirigente da Renovação Comunista


 

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