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10 DE SETEMBRO DE 2007, SEGUNDA FEIRA
POR: Cipriano Justo
Elogio, limites e limitações do movimentismo
"as organizações partidárias que venham a constituir-se no rescaldo de movimentações inorgânicas dificilmente conseguirão enraizar as suas propostas e desenvolver uma identidade programática se decidirem escolher a vida da federação de causas porque o que separa a bondade das vontades é a escolha, o seu sentido e a sua abrangência: quais são as classes e os grupos sociais em causa, qual é a natureza do modelo económico e qual é o sistema de garantias sociais. Não responder a estas questões é imaginar que o mundo é plano, Copérnico nunca existiu e o movimento é tudo o que nos resta"
Elogio, limites e limitações do movimentismo

Cipriano Justo



A apropriação dos direitos de cidadania por algumas elites políticas tem constituído o principal e mais importante suporte da criação dos movimentos de cidadãos. No pressuposto de que a cidadania é uma espécie de código de conduta moral, legitimado por uma certa concepção iluminista de democracia, em que todos estão obrigados a mostrar diariamente uma boa acção em prol da cidade. Sem cuidar a quem se dirigem e quem beneficia das boas acções. Ao constituírem-se como comunidades de acção, remetendo a concepção teórica para a esfera individual, é na intervenção sobre as dimensões monotemáticas da governação que este tipo de associações consegue adquirir unidade de pensamento e obter resultados mais evidentes e demonstráveis.

Na ausência de um corpo teórico que homogeneíze o sentido da acção, é na diminuição da variabilidade ideologica que estes grupos vão buscar a sua coesão interna, desenvolver energia para problematizar os acontecimentos e orientar o rumo da sua intervenção. Nesta perspectiva, a sua esfera de acção estaria dirigida sobretudo para bens que se tornaram civilizacionais – paz, ambiente, ensino, cultura, saúde, lazer, nomeadamente. Tratar-se-ia de obter uma distribuição mais simétrica destes bens, como condição da possibilidade da convivência e da convivialidade interclassista. Isso não significa que a distribuição destes bens esteja isenta de tensões, sobretudo se colocar em causa o modo de produção dominante, interferir com o modelo de divisão do trabalho ou promover a dilatação do espaço público.

O elogio dos movimentos de cidadãos reside em boa parte no reconhecimento da sua debilidade ideológica e no facto de não constituírem ameaças aos poderes estabelecidos; pelo contrário, representariam exercícios de descompressão da entropia conflitual gerada pelas contradições sociais. Os movimentos antiglobalização, particularmente activos durante toda a década de noventa foram, de alguma maneira, exemplo dessa necessidade. Tendo ido pouco mais além do que exercitarem os músculos e as gargantas, não deixaram rasto político assinalável que tenha servido de suporte e referência a formulações mais avançadas da organização político-partidária. Pode sempre afirmar-se que contribuíram para a disseminação da consciência anti-imperialista, nomeadamente na América do Sul, mas de facto não se constituíram como alternativas ao modelo partidário conhecido, nem tal seria alguma vez possível se tivermos presente a sua atomização ideológica. Se existe um efeito Porto Alegre visível naquela zona do planeta é porque a actual liderança político-partidária brasileira veio facilitar a emergência de governos que procuram interpretar os sentimentos das populações submetidas durante largas dezenas de anos aos interesses das oligarquias ou das ditaduras.

Sempre que bens tornados civilizacionais são postos em causa, a sua oferta é fragmentada ou se verificam recuos na sua universalidade criam-se condições para a criação de movimentos cuja acção tende a restabelecer e a consolidara os equilíbrios anteriores. A dimensão ideológica da acção confunde-se com as razões do objecto e o seu critério de sucesso é directamente proporcional ao grau de imanescência do que está em causa, da consciência da sua necessidade e da sua conversão em elemento identitário. Sem identificação a acção fica reduzida aos seus escombros, torna-se uma rotina e esvai-se nas tarefas. É por essa razão que a doutrina é o bilhete de identidade dos partidos políticos e as causas o passaporte dos movimentos.

Na ausência de uma polaridade teórica e não dispondo de uma lógica interna para arbitrar escolhas, os movimentos são obrigados a substituir a governação pela administração e a política pela ética. A condenação da hierarquia organizacional e a sua substituição pela consulta permanente, longe de constituir a defesa dos superiores interesses da democracia resulta na eleição da burocracia para interlocutor e principal depositária dos valores identitarios. É como deixar entrar a luz mas não se deixar ver, a arte suprema da ocultação e a expressão superior do culto da personalidade. E tem sido na procura incessante de ir mais além do seu tempo que os movimentos acabam por gastar a sua energia, terminando por se volatilizar ou serem recuperados por um qualquer aparelho mais apto para aquela função. Os movimentos de libertação nacional são exemplo de como se resolve essa tensão: cumprida a missão para que se constituíram rapidamente evoluíram para partidos políticos porque as tarefas que tinham pela frente obrigavam a um corpo doutrinário muito distinto das etapas anteriores.

Resumindo, as organizações partidárias que venham a constituir-se no rescaldo de movimentações inorgânicas dificilmente conseguirão enraizar as suas propostas e desenvolver uma identidade programática se decidirem escolher a vida da federação de causas porque o que separa a bondade das vontades é a escolha, o seu sentido e a sua abrangência: quais são as classes e os grupos sociais em causa, qual é a natureza do modelo económico e qual é o sistema de garantias sociais. Não responder a estas questões é imaginar que o mundo é plano, Copérnico nunca existiu e o movimento é tudo o que nos resta


 
Sobre os movimentos cívicos
Enviado por Carlos Luis Figueira, em 24-09-2007 às 18:37:05
É um anglo de abordagem que se aceita na sua limitação redutora. Porque se é verdade que os movimentos civicos são limitadores por origens, por composição social e projectos, também é verdade que o PT brasileiro tem neles a sua génese e hoje é poder, para não falar de outras experiências presentes na América Latina Continente que é referido para fundamentar tese contrária. Mas é um tema interessante para debate.
Elogio fúnebre
Enviado por Albano Pereira, em 16-09-2007 às 18:54:04
Artigo muito bem escrito.
O pior é que a conclusão, evidente, a ser tirada é que a Renovação Comunista não tem futuro pois enquadra-se perfeitamente na lógica do artigo.
Paz á sua alma...

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